POV Dante Harrison
A manhã entrou devagar pelo quarto do hotel, filtrada pelas cortinas claras. O sol tocava os lençóis amassados, a pele de Isadora ainda quente sobre a minha. Eu não conseguia parar de olhar para ela. O rosto sereno, os lábios entreabertos, o cabelo espalhado pelo travesseiro. Havia algo quase sagrado naquele instante, uma mistura de exaustão, amor e silêncio.
Depois de tanto tempo, de tanta distância, finalmente estávamos de novo ali. Inteiros. Sem as máscaras, sem os ruídos, sem os medos que o mundo nos empurrou.
Deslizei um dedo pela curva do ombro dela, sentindo o arrepio que a percorreu mesmo dormindo. Era estranho… ver o corpo dela outra vez tão perto e, ao mesmo tempo, notar como tudo tinha mudado. Ela era a mesma mulher que me tirava o fôlego desde a primeira vez que a vi, mas agora havia algo diferente, uma força silenciosa, o brilho de quem havia gerado vida.
Sofia dormia no berço portátil, ao lado da cama. Às vezes resmungava baixinho, mexendo as mãozinhas como quem sonha com o calor do colo da mãe. Eu me inclinei e observei por um instante: o nariz pequeno, a pele rosada, os cabelos finos e escuros.
Era impossível não sorrir.
Meu coração, acostumado a guerra, a prazos, a contratos e reuniões, se rendia completamente a aquele ser minúsculo.
Isadora abriu os olhos devagar e me encontrou observando a bebê.
— Tá olhando o quê? — perguntou com um sorriso preguiçoso.
— As duas mulheres da minha vida. — murmurei, encostando a testa na dela. — Só isso.
Ela riu, baixinho.
— Você parece bobo assim.
— Eu tô bobo, Isa. — respondi, sincero. — E espero continuar por muito tempo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, só ouvindo o som suave da respiração da nossa filha. Eu acariciei o cabelo dela e disse:
— Não quero ir pra editora hoje.
— Vai perder um dia de trabalho? — ela perguntou, surpresa.
— Vou levar você comigo.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Com você?
— E com a Sofia. — completei. — Vocês duas.
Isadora riu, meio sem acreditar. — Você enlouqueceu.
— Talvez. — sorri. — Mas é um bom tipo de loucura.
***
Uma hora depois, já estávamos no carro. Sofia dormia na cadeirinha, com um chapéuzinho minúsculo e uma manta lilás. Isa, com os cabelos presos e um vestido leve, parecia mais tranquila. O hotel ficou para trás, o trânsito se abria em faixas de luz e sombra, e por um momento, tudo parecia simples.
Quando chegamos à Editora Vertigem, senti um misto de nostalgia e orgulho. Era o lugar que eu havia construído do zero, com noites sem sono e apostas insanas. Ver Isadora atravessar o saguão comigo, com nossa filha nos braços, foi como ver o passado e o futuro se encontrando.
Os funcionários pararam o que estavam fazendo. O burburinho começou discreto, mas logo se transformou em sorrisos abertos e cochichos empolgados.
— Gente… essa é a Sofia. — anunciei, com um sorriso que eu mesmo não conseguia conter.
A equipe se aproximou devagar, respeitosa e curiosa. Uma das editoras, Júlia, colocou a mão no peito.
— Meu Deus, ela é perfeita.
— Igualzinha a Isa — outro comentou.
Isa sorriu, um pouco envergonhada, enquanto eu observava o carinho espontâneo que se formava em volta delas. Aquele era o bebê da editora, o símbolo de algo novo.
Júlia fez cócegas de leve no pezinho da menina, que se remexeu.
— A nova geração Vertigem já chegou, chefe. — brincou.
Rimos. O clima era leve, de pura ternura. Era impossível não sentir o coração aquecer diante daquela pequena revolução: uma bebê unindo uma equipe inteira, suavizando o peso dos dias.
Depois de alguns minutos, Isadora foi levada por Júlia até o setor de marketing, onde iam discutir detalhes das vendas do livro dela. Eu fiquei observando de longe. Ela falava animada, gesticulando, com os olhos vivos. O livro estava vendendo mais do que o esperado e vê-la ali, falando sobre o próprio sucesso, era uma das coisas mais bonitas que já vi.
Ela não era só a mulher que eu amava. Era uma escritora brilhante, uma mãe dedicada, uma força que nem ela mesma parecia reconhecer por completo.
Quando voltou para perto de mim, Sofia acordava com fome. Isadora pediu licença e foi para a salinha de descanso amamentar. Eu fiquei do lado de fora, esperando, ouvindo o som suave de vozes e risadas vindas dos corredores.
E foi ali, naquele instante de silêncio entre um compromisso e outro, que percebi o quanto tinha sentido falta daquilo: da normalidade, da rotina, da simplicidade de vê-las bem.
— E eu juro que não vou mais esquecer o que importa.
Ela encostou a cabeça no meu ombro, e eu dirigi em silêncio, sentindo o peso bom da responsabilidade, o amor renascido e o som suave da nossa filha respirando ao fundo.
***
À noite, coloquei Sofia no berço e fiquei observando Isadora ajeitar as coisas do quarto.
— Ela gosta de música. — disse ela. — Dorme mais rápido quando escuta.
— Puxou você.
Isa riu, apagando a luz principal e deixando o abajur aceso.
— Você percebeu que ela sorri quando te ouve?
— Eu? — perguntei, surpreso.
— Uhum. — Ela se aproximou e colocou a cabeça no meu peito. — Quando você fala com ela, a expressão dela muda.
Ficamos ali, abraçados, observando nossa filha dormir.
— Acha que a gente vai conseguir? — perguntei, em voz baixa.
— Conseguir o quê?
— Proteger isso. Essa paz.
Isadora suspirou, me olhando nos olhos.
— A gente vai tentar. E isso já é mais do que muita gente faz.
Sorri, sentindo a verdade nas palavras dela.
Naquela noite, entendi que o amor nem sempre é feito de promessas grandiosas. Às vezes, ele vive nos intervalos, no toque suave de uma mão, no olhar de uma mãe para o filho, na coragem de começar de novo mesmo depois de tudo.
E quando apaguei a última luz, senti algo que não sentia havia muito tempo: esperança.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”