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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 18

POV Isadora Ferraz

O quarto era grande. Frio. Decorado demais pra alguém que só queria paz. Eu sentei na beirada da cama, ainda com os sapatos nos pés. Olhei pro espelho do guarda-roupa como quem tenta encontrar a mulher que sumiu nas últimas vinte e quatro horas.

O celular vibrou no bolso do casaco.

Olívia.

Engoli o choro antes de atender.

— Oi.

— Isadora. Que porra foi aquela?

A voz dela estava baixa, mas afiada. Não era raiva. Era dor.

— Eu não posso explicar, Oli.

— Eu tô vendo a tua cara em todos os portais de notícia, Isa. “Escritora perdoa marido e encerra guerra pública”. É isso mesmo?

Silêncio.

— Você voltou pra ele?

— Eu… voltei para proteger você.

Ela travou do outro lado.

— Como assim?

— Eu recebi um áudio. Uma ameaça. Tinham informações sobre o seu trabalho. Seus processos. Conversas que poderiam ser distorcidas. Queriam te destruir, Oli. E destruir o Dante também. Então eu... precisei recuar. Calar. Fingir.

— Você se jogou de novo na cova por nossa causa?

— Eu escolhi. Ninguém mandou. Eu só... não podia ver vocês pagando por algo que só eu vivi.

— Isa, eu sou advogada. Eu lido com ameaça todo dia. E Dante… Dante gosta de você. Ele suportaria.

— Mas eu não. Eu não suportaria ver vocês sendo arrastados por minha culpa. Eu já fui usada demais, Olívia. Agora, se vou ser usada, vai ser do meu jeito.

O silêncio do outro lado durou segundos que pareceram séculos.

— Você está sozinha aí?

— Com um vestido no cabide e dois monstros no andar de baixo. Mas tô bem.

— Não finge pra mim.

— Eu não tô fingindo. Irei escrever. O livro, Oli. Comecei hoje. "O Amor Depois da Farsa".

Ela suspirou, e eu soube que ela entendeu tudo. A dor. A escolha. A arma.

— Você vai sair disso inteira?

— Não. Mas vou sair perigosa.

Ela riu. Com pesar.

— Promete que, se precisar de mim, liga?

— Prometo. E você também.

Desliguei. Fiquei encarando a tela por alguns segundos. Depois peguei o notebook. Abri o documento.

E digitei a primeira frase: “A verdade, às vezes, veste branco. Mas por dentro, sangra vermelho.”

***

Acordei antes do sol. O corpo pesado, mas a mente em guerra.

O quarto novo cheirava a flores caras e passado podre. Me levantei devagar, vesti uma calça de alfaiataria preta, camisa branca, cabelos presos num coque baixo, delineado afiado. Maquiagem leve. Perfume só o bastante pra deixar um rastro de mulher viva num lugar morto.

Hoje eu voltava à editora. Mesmo que tivesse que sair da mansão dos Montenegro todas as manhãs como uma boneca de porcelana no porta-malas da farsa.

Desci as escadas. A mesa já estava posta. Café da manhã completo: Pães, frutas cortadas com faca de ouro, geleias importadas. E três presenças tão indigestas quanto arsênico: Heitor. Célia. E Elena.

Sim. Elena.

Grávida.

Sentada à mesa com a naturalidade de quem acha que merece o lugar.

Vestido florido. Mão sobre a barriga como um troféu.

Célia foi a primeira a falar.

— Dormiu bem, querida?

— Como uma rainha num castelo em chamas.

Ela riu, como se eu tivesse dito que sonhei com anjos. Heitor nem levantou os olhos do celular. Elena mexia o chá como se estivesse misturando veneno.

— Fiz questão de preparar algo leve — Célia continuou. — Afinal, seu estômago deve estar sensível. Tanta emoção ontem, né?

— Meu estômago está ótimo, obrigada. Já se acostumou com a hipocrisia.

Heitor bufou. Elena sorriu. Célia fingiu não ouvir.

— Tem algo que precisamos alinhar — ela disse, cortando o pão com precisão cirúrgica. — A imprensa vai começar a pedir entrevistas. Fotos. Eventos beneficentes. O retorno da família Montenegro precisa ser impecável.

Sabiam. Tinham visto. A matéria da reconciliação, a foto de família. A mulher que pediu socorro... voltando pros braços do algoz. Segui pelo corredor. Sapatos batendo como martelo.

Parei na frente da porta do andar de cima.

Gabinete do editor-chefe.

Dante Harrison.

Bati. Uma vez.

Duas.

Nada.

Abri.

Estava vazia.

Uma assistente passou e parou ao me ver.

— Ele... ele está no estúdio, na sala de leitura. Está com o pessoal de produção desde cedo. Não falou com ninguém.

Assenti.

Desci.

O estúdio tinha paredes de vidro. Dante estava lá dentro, conversando com dois assistentes, mostrando algo num tablet. A postura rígida. O terno escuro. A expressão firme. Mas não me olhou. Nem uma vez. Passei devagar, tentando encontrar seus olhos. Nada.

Fui até minha sala. Abri o notebook. Olhei para a tela vazia por alguns segundos. E escrevi uma linha.

“O silêncio de quem já foi abrigo é pior do que qualquer grito de inimigo.”

Fechei.

A porta se abriu. Não era Dante. Era Mariana, uma estagiária nova.

— Oi, Isa... desculpa. O Sr. Harrison pediu esses documentos com urgência. Disse que você ia revisar.

Peguei os papéis. Sorri, por instinto.

— Obrigada, Mari.

Ela hesitou na porta.

— Só... queria dizer que... eu vi seu vídeo. Antes. E eu acreditei. Ainda acredito.

Meus olhos arderam. Mas eu só assenti. Quando ela saiu, deixei os papéis caírem na mesa.

Fechei os olhos. E só pensei numa coisa: “Voltar nunca foi sinônimo de estar inteira. E agora… até o silêncio do Dante me chama de traidora.”

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