POV Isadora Ferraz
O quarto era grande. Frio. Decorado demais pra alguém que só queria paz. Eu sentei na beirada da cama, ainda com os sapatos nos pés. Olhei pro espelho do guarda-roupa como quem tenta encontrar a mulher que sumiu nas últimas vinte e quatro horas.
O celular vibrou no bolso do casaco.
Olívia.
Engoli o choro antes de atender.
— Oi.
— Isadora. Que porra foi aquela?
A voz dela estava baixa, mas afiada. Não era raiva. Era dor.
— Eu não posso explicar, Oli.
— Eu tô vendo a tua cara em todos os portais de notícia, Isa. “Escritora perdoa marido e encerra guerra pública”. É isso mesmo?
Silêncio.
— Você voltou pra ele?
— Eu… voltei para proteger você.
Ela travou do outro lado.
— Como assim?
— Eu recebi um áudio. Uma ameaça. Tinham informações sobre o seu trabalho. Seus processos. Conversas que poderiam ser distorcidas. Queriam te destruir, Oli. E destruir o Dante também. Então eu... precisei recuar. Calar. Fingir.
— Você se jogou de novo na cova por nossa causa?
— Eu escolhi. Ninguém mandou. Eu só... não podia ver vocês pagando por algo que só eu vivi.
— Isa, eu sou advogada. Eu lido com ameaça todo dia. E Dante… Dante gosta de você. Ele suportaria.
— Mas eu não. Eu não suportaria ver vocês sendo arrastados por minha culpa. Eu já fui usada demais, Olívia. Agora, se vou ser usada, vai ser do meu jeito.
O silêncio do outro lado durou segundos que pareceram séculos.
— Você está sozinha aí?
— Com um vestido no cabide e dois monstros no andar de baixo. Mas tô bem.
— Não finge pra mim.
— Eu não tô fingindo. Irei escrever. O livro, Oli. Comecei hoje. "O Amor Depois da Farsa".
Ela suspirou, e eu soube que ela entendeu tudo. A dor. A escolha. A arma.
— Você vai sair disso inteira?
— Não. Mas vou sair perigosa.
Ela riu. Com pesar.
— Promete que, se precisar de mim, liga?
— Prometo. E você também.
Desliguei. Fiquei encarando a tela por alguns segundos. Depois peguei o notebook. Abri o documento.
E digitei a primeira frase: “A verdade, às vezes, veste branco. Mas por dentro, sangra vermelho.”
***
Acordei antes do sol. O corpo pesado, mas a mente em guerra.
O quarto novo cheirava a flores caras e passado podre. Me levantei devagar, vesti uma calça de alfaiataria preta, camisa branca, cabelos presos num coque baixo, delineado afiado. Maquiagem leve. Perfume só o bastante pra deixar um rastro de mulher viva num lugar morto.
Hoje eu voltava à editora. Mesmo que tivesse que sair da mansão dos Montenegro todas as manhãs como uma boneca de porcelana no porta-malas da farsa.
Desci as escadas. A mesa já estava posta. Café da manhã completo: Pães, frutas cortadas com faca de ouro, geleias importadas. E três presenças tão indigestas quanto arsênico: Heitor. Célia. E Elena.
Sim. Elena.
Grávida.
Sentada à mesa com a naturalidade de quem acha que merece o lugar.
Vestido florido. Mão sobre a barriga como um troféu.
Célia foi a primeira a falar.
— Dormiu bem, querida?
— Como uma rainha num castelo em chamas.
Ela riu, como se eu tivesse dito que sonhei com anjos. Heitor nem levantou os olhos do celular. Elena mexia o chá como se estivesse misturando veneno.
— Fiz questão de preparar algo leve — Célia continuou. — Afinal, seu estômago deve estar sensível. Tanta emoção ontem, né?
— Meu estômago está ótimo, obrigada. Já se acostumou com a hipocrisia.
Heitor bufou. Elena sorriu. Célia fingiu não ouvir.
— Tem algo que precisamos alinhar — ela disse, cortando o pão com precisão cirúrgica. — A imprensa vai começar a pedir entrevistas. Fotos. Eventos beneficentes. O retorno da família Montenegro precisa ser impecável.
Sabiam. Tinham visto. A matéria da reconciliação, a foto de família. A mulher que pediu socorro... voltando pros braços do algoz. Segui pelo corredor. Sapatos batendo como martelo.
Parei na frente da porta do andar de cima.
Gabinete do editor-chefe.
Dante Harrison.
Bati. Uma vez.
Duas.
Nada.
Abri.
Estava vazia.
Uma assistente passou e parou ao me ver.
— Ele... ele está no estúdio, na sala de leitura. Está com o pessoal de produção desde cedo. Não falou com ninguém.
Assenti.
Desci.
O estúdio tinha paredes de vidro. Dante estava lá dentro, conversando com dois assistentes, mostrando algo num tablet. A postura rígida. O terno escuro. A expressão firme. Mas não me olhou. Nem uma vez. Passei devagar, tentando encontrar seus olhos. Nada.
Fui até minha sala. Abri o notebook. Olhei para a tela vazia por alguns segundos. E escrevi uma linha.
“O silêncio de quem já foi abrigo é pior do que qualquer grito de inimigo.”
Fechei.
A porta se abriu. Não era Dante. Era Mariana, uma estagiária nova.
— Oi, Isa... desculpa. O Sr. Harrison pediu esses documentos com urgência. Disse que você ia revisar.
Peguei os papéis. Sorri, por instinto.
— Obrigada, Mari.
Ela hesitou na porta.
— Só... queria dizer que... eu vi seu vídeo. Antes. E eu acreditei. Ainda acredito.
Meus olhos arderam. Mas eu só assenti. Quando ela saiu, deixei os papéis caírem na mesa.
Fechei os olhos. E só pensei numa coisa: “Voltar nunca foi sinônimo de estar inteira. E agora… até o silêncio do Dante me chama de traidora.”

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”