POV Isadora Ferraz
Passei a manhã tentando me concentrar nos papéis que Mariana deixou. Mas cada linha que eu lia se emaranhava com as que estavam dentro de mim.
Os relatórios. As pautas. As reuniões. Tudo ecoava um nome só: Dante.
Ao meio-dia, ouvi passos no corredor. Fortes. Rápidos. O som dos sapatos dele era diferente. Era seguro demais. O tipo de som que te dizia “tô aqui” sem precisar de palavras.
Levantei.
Fui até a porta. Abri.
Ele passou. Reto. Frio. Sem me olhar.
— Dante.
Ele parou. Mas não se virou.
— Só... me escuta — pedi. A voz saiu baixa, mas firme. — Eu não voltei pra ele. Não como você está pensando.
Silêncio.
— Eles me ameaçaram. A Olivia. Você. A editora. Eu... me calei para proteger vocês. Não porque perdoei. Nem porque cedi. Porque se eu lutasse naquele momento... alguém que eu amo ia cair primeiro.
Ele virou devagar. O olhar era gelo derretendo por dentro. Raiva, sim. Dor, com certeza. Mas também… decepção.
— Você confiou mais no medo do que em mim.
A frase foi um corte limpo.
— Eu confiei que você tinha mais a perder do que eu podia salvar.
— E o que sobrou, Senhorita Ferraz? Ou devo chamar... Montenegro?
Meu corpo congelou por um segundo. O som do sobrenome Montenegro vindo da boca dele era mais violento do que qualquer tapa que Heitor já me deu. Porque Dante não usava violência. Ele usava verdades. Frias. Nuas. E agora, usava distância.
Respirei. Engoli em seco. Ainda assim, respondi.
— Sobrou o que sempre sobra quando se perde tudo. Sobra palavra. Sobra coragem. Sobra dor. E eu transformo isso em livro. Em justiça. Em grito.
Dante cruzou os braços. O rosto impassível, mas os olhos... os olhos gritavam.
— Você voltou pra casa dele. Dormiu sob o teto dele. Apareceu com ele nas fotos. Acredita mesmo que o mundo vai ouvir o que você tem pra dizer? Acredita que alguém vai separar a mulher da imagem?
— Eu não preciso que eles ouçam agora. Preciso que eles olhem. E acreditem que está tudo bem. Pra que abaixem a guarda. Pra que pensem que venceram. Porque quando eu falar, Dante... não vai ter onde eles se esconderem.
Ele deu um passo pra frente. Estávamos a centímetros um do outro. O suficiente pra lembrar do gosto da respiração. Mas dessa vez, havia um abismo entre nós.
— Você devia ter me dito. Antes. No minuto em que recebeu aquela mensagem.
— Eu não quis colocar mais um alvo nas suas costas. Já bastava o que fizeram comigo. Com Olivia. Eu não ia deixar que te arrastassem também.
— Eu não sou de vidro, Isadora.
— Mas eu sou. E já tô trincada demais pra segurar outro estilhaço vindo de você.
Por um instante, o silêncio caiu entre nós como um pano molhado. Denso. Pesado. O mundo girava lá fora, mas naquele corredor, só existia ele. E eu. E tudo que não tínhamos coragem de admitir.
Ele quebrou o silêncio.
— Ainda tem uma parte de mim que quer confiar. Que olha pra você e vê a mulher que escreveu “Cicatriz de Inverno”. Que lutou. Que resistiu.
— Essa mulher ainda tá aqui, Dante. Só que ela teve que vestir uma armadura emprestada. Só que ela teve que sorrir pra sobreviver.
— Então me mostra.
— Como?
— Fala a verdade. Só uma. A mais difícil.
Fechei os olhos. O coração disparado.
— Eu gosto de você.
Abri os olhos. Ele também.
Por um segundo, achei que ele fosse me beijar. Me abraçar. Me puxar pra dentro da sala dele e fechar a porta do mundo.
Mas Dante só assentiu.
De leve.
Depois virou.
E foi embora.
Sem dizer mais nada.
***
O resto do dia passou como uma marcha lenta sobre cacos de vidro. Cada passo na editora doía, não porque alguém me olhava com desprezo, mas porque a ausência de Dante era mais barulhenta que qualquer julgamento. Ele não disse nada depois daquele momento no corredor. Nenhuma mensagem. Nenhum recado. Apenas sumiu. Como se tivesse me guardado num lugar onde nem ele mesmo quisesse voltar.
Eu revisei o material que Mariana trouxe, respondi e-mails que nem li de verdade, participei de uma reunião com a equipe editorial onde cada palavra me escapava como areia entre os dedos. Sentei, escrevi um parágrafo, apaguei. Reescrevi outro. Parei. O tempo escorria. A concentração não voltava.
— Acha que pode me provocar e sair ilesa?
— Não preciso te provocar, Heitor. Você se provoca sozinho só de me ver inteira.
Ele se aproximou mais um pouco. A mão levantou, quase tocando meu braço.
Mas aí veio a voz.
Alta. Descontrolada. Azeda.
— Que porra é essa?
Elena.
Ela vinha a passos firmes, o salto afundando no gramado, o vestido branco balançando ao redor da barriga saliente. Os olhos dela estavam em chamas.
— Você está mesmo flertando com a mulher que você me prometeu esquecer? Aqui? No meio da nossa sessão?
Heitor deu um passo pra trás. Fingiu controle.
— Elena, não faz cena.
— Cena? Eu sou a cena, Heitor. Sou a grávida, a amante promovida, a palhaça de vestido branco enquanto você fica babando pela ex-esposa perfeita.
— Elena, ela é a minha esposa.
— Cala a boca.
Ela virou pra mim. E sorriu. Aqueles sorrisos tortos que mulheres traídas treinam no espelho.
— Você pode ter voltado para casa, Isadora. Mas não voltou para o trono. Ele ainda é meu.
Eu apenas a encarei. Um segundo. Dois.
Depois dei um passo à frente.
— Que ótimo, Elena. Então sente nele. Porque vai precisar estar bem confortável... quando ele ruir.
Ela empalideceu.
Heitor tentou contornar. A cerimonialista apareceu ao longe, tentando acalmar. Os fotógrafos começaram a cochichar. A equipe de imagem registrava tudo, mesmo que fingisse que não.
Célia observava da varanda, com um sorriso tenso e uma taça de vinho. Ela não moveu um músculo. Porque sabia. Esse teatro estava prestes a pegar fogo.
Me virei. Voltei pro salão. Deixei os dois gritando atrás de mim. Deixei o caos estourar sem que uma única lágrima me escapasse.

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