Entrar Via

7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 180

Pov Leyla Montenegro

O sol entrou pelas frestas da cortina como uma acusação.

Cada raio parecia um lembrete de tudo o que eu queria esquecer, ou fingir que não tinha acontecido. A claridade do quarto era cruel. Mostrava demais: o lençol amassado, as marcas na minha pele, o vestido que eu havia arrancado do corpo no meio da noite, atirado em algum canto.

O silêncio pesava. Só se ouvia o tique-taque do relógio na parede e o som distante da cidade acordando. Dentro de mim, tudo estava parado, congelado entre a vergonha e uma satisfação que me corroía.

Sentei-me na cama, a cabeça latejando. Meu corpo doía. Os pulsos, o pescoço, as coxas, tudo denunciava o que tínhamos feito. O que ele tinha feito. E o mais aterrador era que, por um instante, eu tinha gostado.

Levei as mãos ao rosto, como se pudesse apagar as lembranças. O toque dele ainda estava ali, gravado na pele, quente e frio ao mesmo tempo. Cada respiração minha parecia um sussurro de arrependimento.

“Foi isso o que você quis, não foi?” A voz dele ainda ecoava na minha mente. Eu achava que sim. Durante anos, idealizei aquele momento. Achei que quando ele finalmente me olhasse, me tocasse, me desejasse, tudo faria sentido. Mas o que aconteceu na noite passada não teve nada de sonho. Foi brutal. Foi sujo. E, no entanto, foi real.

Levantei-me devagar. O corpo respondeu com protestos. Caminhei até o espelho e quase não me reconheci. Havia uma marca roxa na curva do meu pescoço, uma mordida. Meu lábio inferior estava inchado.

As olheiras profundas, o cabelo emaranhado, o olhar vazio. Eu parecia alguém que tivesse sobrevivido a uma guerra… ou que tivesse participado dela de livre vontade.

Encostei a testa no espelho, respirando fundo. “Você mereceu”, sussurrei para o reflexo. Mas não soou como consolo, soou como sentença.

A água do chuveiro caiu pesada, escaldante. Fechei os olhos e deixei que ela me queimasse. Quis arrancar de mim o cheiro dele, o gosto metálico da culpa. Mas o corpo lembrava. A pele lembrava. O prazer involuntário também.

E era isso que me enojava: o fato de, mesmo odiando o que aconteceu, uma parte de mim ainda estremecer ao lembrar a força das mãos dele, o roçar da barba em minha pele, o som rouco da respiração dele quando perdeu o controle.

Eu sempre o quis. Desde a infância. Quando ele ria com Isadora nos corredores da faculdade, eu olhava de longe e imaginava o toque dele, o beijo dele. Agora que tive… tudo o que sinto é vazio.

Apertei os olhos com força. Célia não podia perceber. Ela nunca podia saber o que realmente aconteceu. Pra ela, eu devia continuar sendo a esposa ideal, aquela que ela sempre sonhou para o filho, elegante, perfeita, estrategista. O símbolo de que a família Montenegro ainda tinha poder.

Saí do banho e vesti uma camisola de seda branca. Queria me sentir limpa, mas me vi manchada por dentro.

O espelho ainda me encarava, e eu quase acreditei que ele sussurrava o mesmo que eu pensava: “Você se perdeu, Leyla.”

Peguei o roupão, amarrei com força. A respiração ainda trêmula. Precisava descer. Fingir normalidade. Fingir que estava tudo bem.

Quando abri a porta, o corredor parecia mais frio do que o normal. O eco dos meus passos me lembrava que, em algum lugar daquela casa, Heitor também estava acordado.

Será que pensava em mim? Ou já havia apagado tudo, como um erro a ser esquecido? A raiva voltou, um lampejo rápido. Não. Eu não seria apagada. Não depois de tudo o que esperei, de tudo o que fiz. Ele podia me odiar, mas jamais me ignoraria.

Desci as escadas com a cabeça erguida, cada movimento calculado. A casa estava silenciosa, exceto pelo som distante de porcelana, Célia já estava na sala de jantar.

O aroma de café recém-passado e pão tostado preencheu o ar, e por um instante, o contraste com a noite anterior me pareceu quase cômico.

Como o mundo podia seguir tão calmo depois de algo tão devastador?

— Os homens da nossa família são assim. — Tomou outro gole de café. — Mas você parece saber lidar bem com ele.

Olhei para o café à minha frente, as mãos trêmulas.

— Tento.

Ela inclinou-se ligeiramente para frente.

— Continue tentando, Leyla. É importante que ele veja em você estabilidade. — Seu tom mudou, ficando mais grave. — A imagem de vocês dois é essencial agora. O mercado precisa acreditar no casal Montenegro.

Engoli em seco. A imagem. Sempre a imagem. Célia nunca perguntava como eu me sentia, apenas se eu estava cumprindo meu papel.

— Sim, senhora. — Respondi baixinho. — Pode deixar comigo.

Ela voltou a sorrir, satisfeita. E eu continuei ali, imóvel, fingindo que aquele café não tinha gosto de cinzas, que minhas mãos não tremiam sob a mesa.

Por dentro, eu só queria correr. Mas não corri.

Porque parte de mim, a mais sombria, ainda se agarrava à esperança de que Heitor viria até mim. Que ele pediria desculpas. Que aquela violência tivesse algum significado.

E o pior de tudo é que, no fundo, eu sabia que, se ele me procurasse, eu deixaria acontecer de novo.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”