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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 181

Pov Leyla Montenegro

O resto da manhã foi uma prisão feita de porcelana e silêncio.

Depois que Célia terminou o café, ela subiu para o escritório, deixando-me sozinha à mesa, com a xícara ainda cheia e o olhar perdido no nada. O relógio da parede marcava cada segundo como um lembrete cruel do tempo que não passava.

Heitor não desceu. Nenhum barulho no corredor. Nenhum passo, nenhuma voz. Só o som distante de pássaros lá fora, indiferentes a tudo que me corroía por dentro.

Levantei-me devagar, arrumei a mesa como se cada movimento pudesse distrair minha mente. Mas cada dobra do guardanapo, cada colher que eu colocava no lugar, parecia um gesto inútil, uma tentativa falha de fingir controle quando tudo dentro de mim estava um caos.

Subi as escadas lentamente, cada degrau me lembrando da noite anterior. A cada passo, uma lembrança: o olhar dele, o som do vidro batendo na mesa, o toque. Meu corpo respondia com uma memória física, e eu me odiava por isso.

O corredor estava em silêncio quando cheguei à porta do quarto dele, nosso quarto, tecnicamente.

Mas do outro lado, não havia nada que me pertencesse.

Bati uma vez. Nenhuma resposta. Abri devagar. Heitor estava ali. De costas, diante da janela, o mesmo cenário de sempre: o whisky na mão, o paletó pendurado na cadeira, a camisa branca aberta no pescoço.

Por um segundo, quase desejei que ele se virasse. Que dissesse qualquer coisa. Mas ele não se moveu.

— Bom dia. — Minha voz saiu trêmula, pequena. — Eu… pensei que você fosse descer.

— Não estou com fome. — Ele não virou o rosto.

O som da voz dele me fez estremecer.

Frio, cortante. Diferente do homem da noite anterior e, ao mesmo tempo, exatamente o mesmo.

— Heitor… — comecei, mas ele me interrompeu.

— Leyla, por favor. — Ele respirou fundo, ainda olhando pela janela. — Não quero conversar.

As palavras pairaram entre nós, como uma sentença. Fiquei parada, sem saber o que fazer com as mãos. Queria gritar, chorar, quebrar alguma coisa.

Mas não fiz nada.

— Certo. — Murmurei, quase sem som. — Só… queria ter certeza de que você estava bem.

Ele deu uma risada baixa, amarga.

— Eu? — Finalmente se virou. O olhar dele estava cansado, vazio. — Você devia se preocupar consigo mesma.

As palavras me atingiram em cheio. Desviei o olhar, tentando disfarçar a dor.

— Me preocupar comigo? Depois de ontem?

— Ontem… — ele passou a mão no rosto, exausto. — Ontem foi um erro, Leyla.

“Um erro.” Aquela palavra quebrou algo dentro de mim.

— Um erro? — repeti, sem acreditar. — É assim que você chama?

— Quer que eu chame o quê? — Ele ergueu a voz, e havia mais desespero do que raiva nela. — Aquilo não devia ter acontecido. Nenhum de nós devia ter deixado acontecer.

Engoli o choro que ameaçava subir.

— Você não parecia pensar isso ontem.

— Eu estava… — Ele parou, fechou os olhos por um instante. — Eu estava furioso. Comigo, com tudo. E você… apareceu. Com aquela insistência, aquele olhar de quem queria me provocar. Eu perdi o controle.

A risada escapou da minha garganta, amarga.

— Acabou? — Dei um passo à frente. — Você acha que pode simplesmente dizer isso e… pronto? Ontem à noite você me marcou, Heitor. — Toquei o pescoço, onde ainda havia o roxo. — Literalmente.

Ele piscou, o olhar oscilando por um instante.

— Eu sei.

— Então não me venha dizer que acabou. — A voz saiu baixa, mas firme. — Porque enquanto eu sentir isso… — toquei o peito, — não acabou. E, pelo jeito que você me olha agora, nem pra você acabou.

Ele ficou em silêncio. Longo, pesado. Mas o silêncio dele me disse tudo. Quando se virou novamente para a janela, percebi que não havia mais nada ali pra mim. Nem arrependimento. Nem amor. Só o vazio.

Saí do quarto antes que ele pudesse ver as lágrimas que finalmente escaparam.

***

No resto do dia, tentei me ocupar com qualquer coisa: revisar documentos, andar pelo jardim, ajudar Célia com compromissos da família.

Mas nada preenchia o buraco. À tarde, enquanto ela falava ao telefone sobre um evento de gala, notei Heitor descendo as escadas, já pronto pra sair. Tinha acabado de retomar só escritório, mas estava saindo novamente.

Nem olhou na minha direção. Nem um aceno. O som da porta se fechando atrás dele foi o estalo final.

Apertei os olhos, o peito apertado. Queria odiá-lo.

Mas tudo o que consegui sentir foi aquele mesmo nó de confusão, raiva, desejo, culpa e uma vergonha que me queimava.

Voltei ao quarto no fim do dia e sentei na beira da cama, o mesmo lugar onde tudo tinha acontecido. O cheiro dele ainda estava ali. E, quando fechei os olhos, jurei nunca mais deixar que ele me fizesse sentir assim, pequena e poderosa ao mesmo tempo.

Mas no fundo, eu sabia: se ele me chamasse, se dissesse uma única palavra… Eu iria.

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