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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 20

POV Isadora Ferraz

Depois da confusão no jardim, eu não subi. Não quis olhar no espelho. Nem ouvir Célia falando sobre danos de imagem, nem Heitor batendo na porta fingindo preocupação.

Mandei uma mensagem pra Olivia. Quero sair. Só a gente. Nada de fotos. Nem nomes. Nem notas em portais. Ela respondeu em dois minutos.

Olivia: Tem um lugar. Caio também vai. Vem.

Coloquei um jeans, uma blusa preta, salto médio. Nada de vestido de gala. Nada que brilhasse. Hoje, eu só queria ser Isa. Só Isa. E talvez esquecer que existo como um projeto de marketing conjugal.

O carro me deixou a duas ruas do bar. Era discreto, de esquina. Música ambiente. Iluminação baixa. Cheiro de madeira antiga e vinho barato.

Vi Olivia assim que entrei. Ela acenou, já com um copo na mão. Caio estava ao lado, rindo de algo que um cara da mesa dizia.

Fui até eles. Recebi um abraço apertado de Olivia, um beijo no rosto do Caio, um gole do drink que ela empurrou pra mim.

— Hoje você é só Isa, tá? — Olivia disse. — Nada de Montenegro. Nada de palco. Nada de guerra.

— Nada de Dante — completei, num tom quase irônico.

Ela me olhou, mas não respondeu. E foi nesse segundo que eu senti. Um olhar. Virei o rosto devagar. Ele estava sentado no canto mais escuro do bar. Camisa preta, mangas dobradas, o copo na mão. Sozinho. Os olhos cravados em mim. Não como quem acusa. Mas como quem reconhece.

Ele já estava lá. E eu entrei no território dele.

— Sabia que ele vinha? — perguntei, baixo.

Olivia hesitou. Depois assentiu.

— Caio avisou. Mas achei que você não fosse vir mesmo...

— Ele está me evitando no trabalho. Mas aparece num bar que frequento com vocês?

— Acho que ele queria o mesmo que você. Um canto do mundo onde ninguém espera que vocês sejam perfeitos.

Fiquei um tempo olhando. Ele não desviou.

— Quer que a gente vá embora? — Caio perguntou.

— Não.

Me levantei. Peguei meu copo. Atravessei o bar, os olhos fixos nele. Dante me viu se aproximar, mas não esboçou reação. Estava ali, estático, como se esperasse pelo impacto.

— Senta — disse ele, a voz baixa, mas carregada.

Sentei. Não disse nada nos primeiros segundos. Só deixei que o bar abafasse as palavras que ainda não estavam prontas.

— Então é isso? — ele começou. — Você volta para a casa do seu marido e depois aparece aqui como se nada tivesse acontecido?

— Eu não voltei pra ele — rebati. — Voltei pro inferno. Por obrigação. Por chantagem.

— E ainda dorme no mesmo teto?

— Eu durmo na culpa. Na raiva. No medo.

— Você devia ter me contado, Isadora.

— Eu não podia. Você sabe disso.

Ele passou a mão no rosto, cansado. O olhar afiado, mas já não era puro veneno. Era mágoa contida. Cautela.

— Eu não sou santo, Isa. Mas me envolver com uma mulher casada? Uma mulher que, publicamente, está abraçada ao nome Montenegro?

— Você acha que isso é sobre status?

— Acho que isso é sobre sobrevivência. A sua e a minha.

Ele me encarou. Os olhos varreram meu rosto como se estivessem tentando encontrar alguma versão antiga de mim, aquela que ele viu a primeira vez, debaixo da maquiagem, sem escudo.

— Você não sabe o que foi te ver naquela coletiva — ele continuou. — Defendendo aquele homem. Voltando pra casa dele. Sorrindo. Fingindo.

— Não era um sorriso. Era um escudo.

— Eu sei. Mas doeu igual.

O silêncio se esticou entre nós. Tenso. Quente. O tipo de silêncio que precede decisão ou desastre.

Ele se inclinou pra frente. Os olhos queimando nos meus.

— Me diz que ainda tem algo seu que não foi comprado, Isa. Que ainda tem alguma parte que é só tua. Só tua.

— Eu estou aqui, não estou?

Ele se aproximou mais um centímetro. A respiração batendo na minha boca. Os olhos no meu.

Meu coração? Um martelo. Minhas mãos? Tremendo sob a mesa.

E então ele me beijou. Não foi um beijo leve. Nem calmo. Foi um beijo de raiva e saudade, de confissão e punição. Um beijo com gosto de tudo que não pôde ser dit e de tudo que ainda podia ser perdido.

Mas ele parou. Rápido. Como se tivesse tocado fogo e lembrado que ainda carregava gasolina no corpo.

— Isso não está certo — murmurou, recuando.

— Nada mais está — respondi.

Ele passou a mão na nuca, se afastando, respirando fundo.

— Você ainda é casada. Ainda mora com ele. E agora... agora tem mais olhos em você do que nunca.

— E você?

— Eu sou o cara que quer te tirar de lá. Mas não vou ser o cara que te prende de outro jeito.

Fiquei em silêncio. Porque ele estava certo.

E eu também.

— Então por que você veio?

Ele me olhou, sério, firme, quebrado.

— Eu não sabia que você viria. Eu não seria tão idiota assim a ponto de ir aonde você vai. Vamos manter isso profissional, senhorita Montenegro. Espero que tenha uma ótima noite.

E então ele se levantou. Pegou o casaco. Me encarou mais uma vez. E foi embora. Sem olhar pra trás.

O celular vibrou antes mesmo de eu sair do bar.

Heitor.

Respirei fundo. Atendi.

— Onde você está?

A voz dele já vinha cortante, seca, como uma faca batendo na porcelana da minha paciência.

— Saí com Olivia e Caio. Só isso.

Ele se aproximou.

Rápido.

Agarrou meu braço.

— Você está aqui porque eu permiti. Porque eu fiz um acordo. Você é a mulher da capa. A esposa modelo. A farsa que ainda me dá nome. Não esquece disso.

— Solta meu braço.

— Ou o quê?

— Ou eu grito.

— Grita, então. Vai lá. Grita. Mostra pra sua amiguinha jornalista que você tá surtada. Que o “grande monstro” está te mantendo num castelo. Que a ingrata voltou pro luxo e agora quer parecer vítima.

Célia cruzou os braços, tranquila.

— Heitor, controle-se — disse ela, num tom quase preguiçoso.

— Não, mãe. Ela precisa entender o lugar dela. Precisa lembrar que carrega o nome Montenegro. E isso tem um preço.

— O preço já foi minha alma — sussurrei. — Mas você ainda quer os ossos, né?

Ele me empurrou.

Não com força suficiente pra derrubar. Mas com ódio o bastante pra deixar claro: se quisesse, faria pior.

— Cuidado com o que você diz. Cuidado com o que você provoca.

— Cuidado você. Porque se mais uma vez você encostar um dedo em mim, eu não grito. Eu falo. Em rede nacional.

Ele riu.

Cínico. Covarde.

— Fala. Vai em frente. E vê quantos segundos você dura até te acusarem de louca. Até aparecerem fotos suas no bar, de mãos dadas com o editor que “jurava que era só profissional”.

— Vai embora, Heitor.

— Essa casa é minha.

— Então me enterra logo nela, porque viva você não me tem mais.

Ele deu outro passo. Mas Célia finalmente se moveu.

— Chega — disse, sem elevar a voz. — Heitor, vai pro seu quarto. Elena, ajude-o a se acalmar.

— Ele está transtornado — Elena murmurou, se aproximando dele.

— E eu? — perguntei. — Eu não tô?

— Você quis voltar — respondeu Célia. — Agora honre sua escolha.

— Isso não é uma casa. É um teatro. E eu sou a única que ainda lembra que tem plateia.

Virei. Subi as escadas. Sem correr. Mas com cada músculo gritando. Na porta do quarto, tranquei tudo. Me encostei. Respirei fundo.

E chorei.

Baixo. Sem fazer barulho.

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