POV Isadora Ferraz
Tranquei a porta. Encostei na madeira. Respirei como quem tenta lembrar que ainda tem pulmões.
A briga ainda latejava no corpo. O braço doía. Mas não tanto quanto a alma.
Me despi ali mesmo, jogando o casaco no chão como se fosse armadura vencida. Vesti uma blusa larga, sentei no canto do quarto e peguei o notebook de dentro da mochila escondida no fundo do armário.
Nem acendi a luz.
A tela brilhou azul. O documento abriu.
O cursor piscava como um alerta cardíaco.
Como se perguntasse: “Tá viva aí dentro?”
Meus dedos começaram a digitar antes que a mente organizasse os pensamentos.
“O monstro mora no andar de baixo.
Ele sorri em jantares e segura taças de vinho com a mesma mão que marca braços.
Ele diz que é amor, mas é domínio.
Que é cuidado, mas é coleira.”
Escrevi.
Sem parar.
Sem pensar.
“Na casa dos Montenegro, o silêncio tem preço. E o preço é a própria sanidade.
Eles te dão um quarto. Um contrato. Um vestido.
Mas tiram sua história. Apagam sua voz.”
As lágrimas caíam, mas nem sentia.
Porque cada palavra que surgia no documento era um pedaço da Isa que eles não conseguiram enterrar.
“Eu sei quem eu sou.
Não importa o que os jornais digam.
Não importa o que Dante pense agora.
Não importa o que a Célia tente remendar com flores falsas.
Eu sou a mulher que sobreviveu ao homem que dizia me amar.
E agora...
Eu vou fazer o mundo escutar.”
Salvei o arquivo com nome de código: "Livro 2 – A Mulher que Voltou."
Fechei o notebook. Respirei fundo.
Mas o tempo de paz durou pouco.
Três batidas na porta.
— Isa — disse uma voz do outro lado. — Posso entrar?
Elena.
Suspirei.
— Não. Já é tarde.
— Eu não vim discutir. Vim... só conversar.
Permaneci em silêncio. Mas destranquei.
Ela entrou. Fechou a porta atrás de si.
Usava um robe de seda. Maquiagem leve. Perfume doce demais pra ser honesto.
— Você está bem? — perguntou, como se fôssemos velhas amigas.
— Depois da cena de hoje? Não. Mas obrigada por perguntar.
Ela se sentou na poltrona como se o quarto fosse dela.
— Olha, eu sei que tá tudo um caos. E que você e o Heitor têm uma história longa. Mas… você já pensou que pode estar lutando contra uma guerra que você mesma declarou?
Virei o rosto devagar.
— Como é?
— Você voltou pra cá. Mesmo depois de tudo. Ele interpretou isso como perdão. Como chance. E agora... você anda saindo por aí, encontrando seu editor, se fazendo de mártir...
— Eu estou trabalhando.
— Claro. Mas pra quem tá aqui dentro, isso parece outra coisa. Inclusive pro próprio Heitor. E, sinceramente, pro bebê... isso não é um ambiente saudável.
— Elena — me levantei, cruzando os braços. — Me poupa da sua performance maternal. A única coisa tóxica aqui é essa aliança entre você e Célia pra me manter sob controle.
Ela sorriu. Doce. Mentirosa.
— Você ainda não entendeu, né?
— O quê?
— Que ninguém vai salvar você. Nem Olivia. Nem Dante. E, com o tempo, nem a imprensa. O público se cansa. A narrativa muda. As pessoas esquecem.
Ela se levantou. Passou por mim com o robe esvoaçando, como uma sombra bonita.
Parou na porta.
— Quando você perder tudo de novo, Isadora... lembra que a gente tentou te avisar.
***
O café da manhã estava montado como sempre: impecável, silencioso, cheio de veneno. Célia folheava uma revista como se estivesse entediada com o mundo. Heitor mexia no celular. Elena… bom, Elena fingia que não existia. Sabe o que é pior? Funcionava.
Eu tentava mastigar um pedaço de torrada quando ela falou, do nada:
— Temos um evento beneficente amanhã à noite. Coquetel com doadores. Sessão de fotos. Matéria na revista social da semana. Família Montenegro em destaque.
Olhei direto pra ela.
— Família Montenegro.
O tipo de frio que não vinha do ar-condicionado, mas dos olhares. Dante passou por mim no corredor antes do almoço. Terno escuro. Passos firmes. O tablet na mão.
— Bom dia — arrisquei, quase como reflexo.
Ele parou, olhou de lado e respondeu com um aceno mínimo.
Sem voz. Sem “Isa”. Sem Dante.
Fui até minha sala, tentando não pensar. Mas não deu trinta minutos e a notificação chegou: “Revisão de conteúdo marcada. Sala de reuniões 2. Srta. Ferraz, por favor, esteja no horário.”
Srta. Ferraz.
A boca secou.
Entrei na sala na hora marcada. Ele já estava lá, organizando pastas, falando com Mariana sobre a ordem das publicações. Nem olhou pra mim.
— Pode sentar, Srta. Ferraz — disse, como se eu fosse uma estagiária qualquer.
Sentei.
Engoli o incômodo.
O profissionalismo dele me feria mais do que qualquer grito.
A reunião durou quase uma hora. Ele falava como quem lê um manual. Frio. Técnico. Impessoal.
— Seu texto está bom. Mas revise as referências da página 12, houve inconsistências na fonte citada.
— Claro — respondi.
— E evite adjetivos que soem parciais. O projeto precisa de neutralidade, não emoção.
— Entendido.
— Era só isso. Obrigado pela presença.
Me levantei devagar.
— Dante... — soltei, sem conseguir me conter.
Ele fechou o tablet.
Levantou o olhar. Mas os olhos não estavam quentes. Estavam... vazios.
— Srta. Ferraz, prefiro manter as coisas no campo profissional daqui em diante.
— Não precisa me tratar como uma estranha.
— Você se colocou no lugar de uma.
Silêncio.
Ele ajeitou o paletó e saiu, como se a conversa fosse apenas mais uma página virada.
Fiquei ali.
Sozinha.
Com o sobrenome Montenegro colado na pele como um carimbo de propriedade alheia.
E pela primeira vez... eu me perguntei se ele ainda via alguma Isa atrás daquele nome.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”