POV Isadora Ferraz
Voltei para casa no fim do expediente com a alma em ruínas e o sobrenome pesando mais que meus ombros. Heitor estava no escritório. Elena, deitada na sala. Célia mexia no celular enquanto o jantar era servido por funcionários que fingem não ouvir.
Subi direto pro quarto.
Tranquei a porta.
E liguei pra única pessoa que ainda me chamava de Isa sem segundas intenções.
— Já era hora — disse Olivia. — Achei que tinha esquecido de mim.
— Preciso de você.
— Tô ouvindo.
Sentei na beirada da cama.
— Vai ter um evento beneficente amanhã. Coquetel. Fotos. A campanha da família Montenegro vai explodir nas redes. E adivinha quem vai estar do lado do homem mais mentiroso dessa cidade?
— Você. A “esposa forte”.
— A esposa enjaulada. Mas vou sorrir. Vou vestir o vestido que a Célia escolheu. Vou posar. E no meio disso tudo… eu vou sabotar essa farsa de dentro pra fora.
— Isa... se vai jogar fogo nesse circo, vai ter que fazer com estilo.
— Tô contando com você pra isso.
— Diz o que tem em mente.
— Preciso de um vazamento. Discreto. Uma pista. Nada que me envolva diretamente. Mas o suficiente pra imprensa vasculhar os documentos de doação da empresa.
— Vai cair coisa podre dali.
— Exatamente.
— E Dante?
— Ele não pode saber. Ainda não.
Silêncio.
— Você tem certeza disso?
— Eu tenho certeza que, se eu for esperar o momento certo pra expor esses monstros, eu morro nessa casa.
— Ok. Então esse evento vai ser o início da virada?
— Vai ser a isca. E a corda que eles mesmos vão puxar.
— Quer que eu esteja lá?
— Não. Mas Caio vai. Como fotógrafo da revista parceira. Ele pode circular. Observar. E na hora certa… deixar a bomba cair.
— E você?
— Eu vou sorrir. E brindar. E entregar a taça com o veneno que eles serviram pra mim durante anos.
Silêncio do outro lado da linha.
— Eu te amo, sua doida corajosa — disse Olivia. — E eu tô com você até o último capítulo.
— Então prepara o próximo. Porque amanhã… começa a parte em que a farsa vira revolução.
***
A limusine parou na porta do Teatro Delorme às 20h em ponto.
Flashes. Câmeras. Sorrisos treinados. E eu... com o vestido vermelho que Célia escolheu como símbolo de “renascimento da união”. Era caro. Era lindo. Mas ainda era um figurino de cativeiro.
Desci do carro com Heitor ao meu lado, que segurou minha mão com a mesma força que um carcereiro segura a chave do próprio poder. A imprensa gritou nossos nomes.
— Sr. e Sra. Montenegro!
— É verdade que superaram tudo?
— Como se sente sendo um exemplo de resiliência, Isadora?
Eu sorri. Olhei pras câmeras. E falei o texto decorado:
— A família passa por provações. Mas a verdade sempre encontra o caminho de volta pra casa.
Célia quase aplaudiu quando entramos no salão. O vestido dela era dourado. O rosto, esculpido em Botox e soberba.
— Você está deslumbrante, querida — disse, dando um beijo seco no meu rosto. — Vamos fazer história hoje.
— Com certeza — respondi, fingindo empolgação. — Mal posso esperar.
O salão estava lotado. Empresários, políticos, jornalistas. Tudo milimetricamente calculado.
Caio estava lá. Como fotógrafo do evento. Com o crachá da revista parceira. Circulava com naturalidade, mas me lançou um olhar breve. Rápido. E suficiente.
Estava feito.
No camarim, minutos antes do discurso, Célia me entregou o papel.
— Memorize isso. Nada de improvisos.
— Claro — disse, pegando a folha. — Sem surpresas.
Mas havia outra folha, dobrada, dentro da minha bolsa. Com outra versão. Mais verdadeira. Mais ácida. Não ia usar hoje. Ainda não. Hoje... era só o primeiro tiro. Silencioso. Invisível. Mas real.
Às 21h13, enquanto eu sorria para uma foto com o diretor da ONG apoiada pelo projeto, um celular vibrou na mesa de imprensa. Depois dois. Depois quatro.
A bomba caiu. Uma denúncia anônima: documentos vazados da empresa Montenegro, sugerindo uso indevido de verbas e superfaturamento em “doações filantrópicas”. E-mails. Notas. Nada que provasse de imediato. Mas o suficiente pra levantar poeira. Muita poeira.
— Porque tudo isso começou depois que você voltou pra casa.
— Então agora sou culpada por um vazamento que nem sei do que se trata?
— Você é escritora, Isadora. Sabe mexer com palavras. Com público. Com narrativa.
E se eu descobrir que...
— Vai fazer o quê? Me expulsar? Mandar outro bilhete no meu travesseiro dizendo que “a noite ainda está começando”?
Célia gelou por um segundo.
Mas Heitor não.
Ele se aproximou num salto.
— Chega, Isadora.
— Vai gritar? Aqui? No evento?
— Você acha que isso é brincadeira?
— Acho que é justiça. E você não sabe lidar com isso.
Ele me agarrou pelo braço.
Forte.
Rápido.
E apertou como quem aperta a própria frustração.
— Para com isso agora!
— Solta — sussurrei, sem tremer.
— Você acha que pode nos destruir, mas eu...
CLIQUE.
Um som seco.
Um flash.
Um jornalista no canto da sala, com crachá no pescoço e câmera na mão. Ele ficou estático por um segundo. Depois... saiu. Heitor soltou meu braço como se tivesse tocado fogo.
— Merda — ele rosnou.
Célia estava branca. Elena apareceu do nada, perguntando o que estava acontecendo. Ninguém respondeu. Porque todos sabiam o que viria agora. Não era mais sobre reputação. Nem sobre narrativa.
Era sobre provas. Imagens. Verdade. E ela tinha acabado de sair pela porta... direto pra redação.

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