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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 23

POV Isadora Ferraz

Acordei com a sensação de que o mundo inteiro sabia. E sabia mesmo. A foto já estava em todas as manchetes. Não dava para negar. Heitor me segurando pelo braço, os olhos cheios de raiva, o flagra de um jornalista que ninguém conseguiu impedir. O que deveria ser a noite de consagração da família Montenegro virou escândalo nacional.

A matéria estava em todos os portais:

"Empresário agride esposa nos bastidores do evento Montenegro"

"Imagem do casal perfeito começa a ruir"

Desci para o café e fui chamada à "sala de família". Nome bonito para uma emboscada.

Lá estavam eles. O trio do horror:

Célia, com um robe branco e café na xícara de porcelana;

Heitor, com o celular na mão e o olhar de quem quer explodir alguma coisa;

E Elena, claro, sentada com a barriga à mostra, fingindo que não houve nada.

— Sente-se, Isadora — disse Célia, sem tirar os olhos do celular.

Sentei. Sem medo. Mas com nojo.

— Sabe o que está acontecendo, não sabe? — ela continuou. — Aquele jornalista? Vai soltar mais coisa. Está com a imagem em alta qualidade. Uma equipe já está trabalhando para impedir, mas... precisamos de você.

— Que surpresa.

Heitor largou o celular sobre a mesa.

— Você vai fazer um pronunciamento — disse ele, direto. — Vai dizer que a imagem foi tirada fora de contexto. Que eu não te agredi. Que estava apenas te conduzindo com firmeza. Que somos um casal forte.

— E se eu não fizer?

Célia sorriu.

— Porque você faria isso, não é? Afinal, nós te acolhemos, Isadora. Quando seus pais morreram... lembra? Câncer. Você estava sozinha. Sem nada. E quem te deu teto, conforto, nome?

— Ah, entendi. Agora vocês estão cobrando a conta.

— Estamos cobrando lealdade. Gratidão. A família Montenegro te transformou numa mulher. Fez de você uma escritora.

— Fez de mim uma escrava.

Heitor se levantou.

— Vai fazer esse pronunciamento, sim. Porque se não fizer, Célia vai vazar os áudios e prints das suas "crises" com Olivia. Vai colocar o mundo contra você. Vai parecer que você é instável. Histérica.

— Vocês têm medo de mim? Que delícia.

Célia se levantou também. Passou-me um papel.

— Às 18h, um repórter virá até aqui. Um b**e-papo leve. Você vai usar o vestido lilás. O sorriso. E vai salvar a imagem da nossa família.

— E se eu disser a verdade?

— Então você destrói a Olivia. O Dante. E qualquer chance de manter sua carreira viva.

Engoli a raiva. O ódio. E a vontade de quebrar aquele lustre na cabeça deles.

— Tudo bem. Eu falo.

***

Horas depois, maquiagem pronta. Câmera posicionada. Repórter sorridente na sala. Célia sentada ao lado, como uma águia empalhada. Heitor me observando com um copo de uísque. Elena fingindo ler uma revista.

A luz acendeu.

— Estamos ao vivo. Boa noite, hoje estamos aqui com Isadora Ferraz Montenegro. Escritora, mulher forte, exemplo de superação...

Eu sorri. O tipo de sorriso que você aprende quando quer esconder os dentes e mostrar o veneno.

— Obrigada por me receberem. É um prazer esclarecer os fatos.

O repórter assentiu.

— Sobre a foto...

Eu olhei para a lente.

E menti.

— A imagem foi tirada fora de contexto. Meu marido é um homem firme, mas respeitoso. Estávamos sob pressão. Havia muita gente. Foi um momento de tensão, mas jamais de agressão.

O repórter sorriu.

— E como está a relação agora?

— Mais forte que nunca. A família Montenegro segue firme, apesar das provocações.

Heitor relaxou no sofá. Célia sorriu. Elena... nem piscou. Mas por dentro? Cada palavra minha era uma faca. E eu já sabia onde fincá-las no próximo capítulo.

***

Eu ainda estava com o vestido lilás quando entrei no quarto. Tirei os brincos. Larguei os sapatos. E desmoronei sentada no chão.

O celular vibrou. Era Olivia.

— Você foi uma atriz melhor do que eu esperava — disse ela, sem ironia. — E a bomba de hoje... já caiu.

— A reação?

— Jornalistas caçando provas. Os advogados da ONG começaram a fazer perguntas. E adivinha? Um deles já tinha desconfiado de superfaturamento. Eles só precisavam de uma faísca.

— Perfeito. Agora é hora da próxima.

— Vai mesmo usar o nome da Elena?

— Sim. Com um bônus.

Fui até a gaveta. Peguei uma pasta antiga. Um contrato. Um comprovante de transferência. E dois prints de conversas com uma ex-secretária da Montenegro que sumiu do nada. Ela sabia demais. E agora... eu tinha os rastros. Mas antes que eu conseguisse guardar tudo de volta, ouvi a batida na porta.

— Entra — falei, sem ânimo.

Elena apareceu. Com a pose de quem acha que ganhou o jogo.

— Estou só dizendo. Faz tempo que não te olho de verdade. Que não... te vejo.

— E agora vê o quê? Uma esposa útil? Uma vitrine? Ou só a mulher que ainda pode salvar sua reputação?

— Talvez tudo isso. Ou talvez... só você.

Silêncio.

— Você se lembra do nosso primeiro apartamento? Aquele com goteira na cozinha?

Não respondi.

— Você ria quando chovia. Dizia que era o céu chorando por estar preso.

— E talvez fosse eu quem chorava por estar presa, Heitor.

Ele suspirou. Baixou a cabeça. Como se tentasse encontrar remorso no próprio peito.

— Eu não fui o melhor homem. Nem o melhor marido.

— Você foi um inferno disfarçado de terno caro.

Ele não rebateu. Só ficou ali, olhando para o chão.

— Mas quando eu vi aquela foto... quando eu soube que ela tinha ido pro mundo inteiro... — ele disse, mais baixo — eu não senti medo do escândalo. Senti medo de te perder. De verdade.

— Você nunca me teve. Só me prendeu.

Ele levantou, caminhou até mim. Os olhos ainda tentando fazer charme de homem mudado. A mão se esticando.

— Me deixa tentar, Isa.

Recuei.

— Tentar o quê? Amar do jeito certo? Isso você não sabe. E eu não sou laboratório.

— Eu sinto sua falta.

— Você sente falta do controle, da aparência, do poder. Eu? Eu me perdi nessa história faz tempo. E agora estou tentando me encontrar. Mesmo nessa casa. Mesmo nesse caos.

Ele me olhou. E pela primeira vez em muito tempo... parecia não saber o que dizer. Mas aí veio a faísca. A virada.

— É aquele editorzinho? — perguntou, seco. — É ele que tem a ver com sua “busca por si mesma”?

Sorri. Mas foi aquele sorriso gelado que antecede a guerra.

— Ele tem algo que você nunca teve, Heitor. Limite.

O rosto dele mudou. Ficou tenso. Mas ele não explodiu. Não dessa vez. Ele só virou as costas e saiu do quarto. Mas antes de fechar a porta, disse:

— Só lembra de uma coisa. Você ainda tem meu nome. E enquanto tiver... o mundo vai achar que somos um. E eu... posso ser bem convincente quando quero.

A porta se fechou. Mas o eco da ameaça... ficou. E com ele, mais uma linha escrita no meu caderno:

“Até monstros sabem sorrir. Mas o cheiro do sangue... nunca sai da boca deles.”

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