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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 24

POV Isadora Ferraz

Acordei com o som da chuva batendo contra a janela. Quase como naquela época. No nosso primeiro apartamento. O da goteira na cozinha. O da ilusão ainda viva.

Me levantei devagar. Fui até o espelho. A mulher ali me olhou com desconfiança. Como quem se pergunta todo dia se ainda é ela mesma ou só uma versão reprogramada pra sobreviver.

O quarto ainda cheirava a perfume de mentira. E na minha cabeça… as palavras de Heitor ecoavam como um refrão maldito:

"Sinto sua falta."

"Você ainda é linda."

"Me deixa tentar."

Tomei um banho rápido. Sentei na penteadeira. Peguei o rímel, mas minhas mãos pararam no ar. Ele sentia minha falta? Ou sentia falta do que podia controlar em mim? Da Isadora submissa, da que sorria para agradar, da que escrevia agradecimentos num livro que ele nunca leu?

Será que... por um segundo... ele foi sincero?

Respirei fundo. Me forcei a focar. Tinha uma rotina a cumprir. Um plano em curso. E Dante me esperava no outro lado do silêncio.

Vesti uma calça de alfaiataria preta, como quem veste uma armadura. Blusa branca de botões, colar delicado, um presente de mim para mim. Cabelos presos em um coque firme. Delineador afiado. Batom neutro.

Hoje eu era a mulher pública. A profissional. A que não vacila diante das câmeras, nem das cicatrizes. Enquanto calçava o salto, o pensamento voltou: E se ele realmente estiver tentando mudar? Agora? Depois de tanto? Ou será só mais um jogo? Mais um truque de espelhos? O lobo vestido de redenção?

Peguei a bolsa. Antes de sair, olhei para trás. O quarto estava arrumado. Gelado. Morto. E eu? Mais viva do que nunca. Abri a porta. O corredor estava silencioso. Elena dormia, ou fingia. Célia já devia estar no telefone com algum assessor. Heitor... não sei. Mas pouco me importava. Porque naquela sexta-feira… eu ia trabalhar. Ia entrar naquela editora como quem carrega dinamite no bolso. E se alguém tentasse me parar… só restaria torcer para não estar no caminho quando tudo explodisse.

***

A recepção estava mais silenciosa do que de costume. Os funcionários me cumprimentaram com acenos tímidos. Alguns desviaram o olhar. Outros forçaram sorrisos. Claro. Todos tinham visto a entrevista. Todos viram meu rosto negando o que meus olhos gritaram por ajuda.

Atravessar aquele corredor foi como pisar em vidro. Mas eu não abaixei a cabeça. O salto ecoava firme. E dentro de mim, o mantra era o mesmo:

Não fui eu quem mentiu. Fui eu quem sobreviveu.

Cheguei à minha sala. A porta estava entreaberta. Mariana, a estagiária, já tinha deixado os relatórios do dia sobre a mesa. Uma pasta marcada com um post-it: “Revisão urgente — pedido do Sr. Harrison.”

"Sr. Harrison." Nem Dante mais, nem “ele”. Só o título. Só a distância. Sentei. Abri a pasta. Era um projeto novo. Uma antologia de autoras independentes. O tipo de projeto que Dante adorava. O tipo de projeto que a antiga eu adoraria coordenar com ele.

O interfone tocou. Meu coração disparou.

— Senhorita Ferraz — disse a voz da recepcionista. — O Sr. Harrison pediu que leve esses documentos à sala de reuniões em dez minutos. Eles serão discutidos com o conselho editorial.

— Entendido.

Dez minutos depois, entrei na sala com a pasta em mãos. Dante estava de pé, ao lado da tela de projeção. Terno escuro. Manga arregaçada. Rosto sério. Nada de novo. Mas quando me viu, o maxilar dele travou.

— Sente-se, por favor — disse ele, olhando para os demais. Não usou meu nome. Nem meu título. Nada além do protocolo.

Sentei. O clima era profissional, impessoal, sufocante. Ele passou os slides. Explicou as propostas. Apontou os destaques.

— Senhorita Ferraz ficará responsável por revisar os textos das autoras selecionadas — disse, ainda sem olhar diretamente pra mim. — E pela organização final da obra. Entendido?

Assenti.

— Claro, senhor.

O olhar dele finalmente encontrou o meu. Mas foi rápido. Cortante. Como quem quer ter certeza de que você ainda sangra, mas não quer ver o sangue. A reunião continuou. Pontual. Fria. Perfeita. Ao fim, todos saíram. Menos nós dois. Eu fiquei. Ele também. O silêncio, agora, era outro. Mais pesado. Mais íntimo. Ele não disse nada. Nem eu. Mas o que estava no ar não era ódio. Nem indiferença. Era o peso do que poderia ter sido, e agora, talvez, já era tarde demais. Ele passou por mim devagar. Parou na porta.

— Boa sorte com o projeto — disse, sem virar o rosto.

E saiu.

Deixando para trás uma sala vazia, uma pasta cheia de promessas, e um coração que ainda batia forte demais… pelo homem que não podia mais me chamar pelo nome.

Capítulo 24 — Verdade Dita em Boca Suja" 1

Capítulo 24 — Verdade Dita em Boca Suja" 2

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