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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 75

POV Isadora Ferraz

O cheiro de pipoca amanteigada brigava com o de pizza quatro queijos no ar, enquanto a trilha sonora de alguma comédia romântica esquecível fazia fundo no ambiente. Caio estava estatelado no tapete, segurando o controle como se estivesse prestes a iniciar um jogo de guerra, Lorenzo no canto do sofá com uma taça de vinho na mão e Dante… bom, Dante tentava parecer tranquilo, mas todo o corpo dele gritava tensão contida.

Eu só queria esquecer. Me encolhi ao lado de Olivia, que tentava me empurrar mais uma fatia de pizza como se fosse uma cura universal.

— Come, Isa. Cura qualquer mal — ela disse, piscando.

— Já estou me sentindo uma almôndega recheada — resmunguei, mas aceitei a fatia mesmo assim.

Dante se aproximou, se sentando no braço do sofá onde eu estava. Senti o calor dele. O jeito como o corpo dele me reconhecia, mesmo que a gente ainda estivesse pisando em ovos.

— Tem certeza que está tudo bem em reunir esse povo todo aqui? — ele sussurrou no meu ouvido.

— É só um filme e carboidratos, Dante. Ninguém vai morrer hoje. — sorri de canto.

Caio levantou e ergueu a taça de suco como se fosse champanhe.

— Um brinde à nossa rainha grávida! Que ela nunca mais precise lidar com demônios de paletó!

Todo mundo riu, menos Dante, que pigarreou e murmurou um “amém” sincero. Lorenzo levantou a taça também, com aquele sorriso de quem carrega o mundo nas costas, mas faz parecer que é leve.

— E um brinde à família. Que, mesmo quando nasce do caos, ainda pode ser abrigo.

Aquela frase me pegou no peito. Família. Uma palavra que doía mais do que curava. Mas naquela sala, com os olhos de Olivia marejados, Caio fazendo piada de tudo, Dante me observando com aquele carinho atravessado de saudade e Lorenzo, o irmão que o universo me devolveu como presente tardio… Talvez, só talvez, fosse possível recomeçar.

A barriga ainda não era visível. Mas o futuro já crescia dentro de mim. E pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia só medo. Sentia que o amor podia vencer. Mesmo que doído. Mesmo que cheio de cicatrizes.

— Você está bem? — Dante perguntou baixinho, os olhos presos aos meus.

Assenti.

— Pela primeira vez em muito tempo… sim. — sussurrei de volta.

E naquele instante, com as luzes baixas, as risadas ecoando, a pipoca caindo no chão, e o meu coração pulsando entre as mãos de quem ficou… Eu percebi. Talvez a paz não seja o fim da guerra. Talvez seja só um intervalo entre batalhas.

***

A noite se arrastava como um cobertor quente em dia chuvoso. Lá fora, a cidade seguia seu ritmo frenético. Aqui dentro, era só riso, zoeira e afeto. Caio inventou um jogo idiota de adivinhação de filmes com mímicas. Olivia já estava na terceira tentativa de representar “Titanic” e, de algum modo, parecia mais um polvo se afogando do que qualquer cena de navio.

— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ACHA QUE ISSO É O JACK! — gritei, rindo tanto que a barriga doía.

— Se vocês não acertam com essa pose clássica... — ela subia no braço do sofá de novo com os braços abertos.

— Isso parece um assalto no metrô — disse Lorenzo, gargalhando, quase cuspindo o vinho.

Dante ria contido, mas os olhos... ah, os olhos dele riam com vontade. Aqueles olhos que me liam mesmo quando eu tentava esconder tudo. Que me abraçavam sem encostar.

— E agora? — Caio passou pra mim. — Sua vez.

Suspirei, levantei, e decidi tentar “O Diabo Veste Prada”. Mas a cada passo que eu dava como se fosse a Miranda Priestly, o pessoal ria mais.

— Isa, isso está mais para o Adam Sandler bêbado — Lorenzo gritou, se jogando no tapete.

— Ok, vocês são horríveis — murmurei, voltando para o sofá e rindo, com a respiração entrecortada.

Estar ali com eles era como lembrar que ainda dava para viver. Que entre os traumas, ainda cabia espaço pra leveza. Que entre um processo judicial e um coração remendado, ainda cabia pipoca e amor. Lorenzo puxou conversa sobre viagens e começou a contar histórias da infância dele na Itália.

— A primeira vez que andei de esqui, quase matei um senhor de idade. Ele me xingou em três línguas. E eu só pedi desculpas com chocolate — disse ele, gesticulando como um verdadeiro italiano, arrancando risadas de todos.

Dante olhava Lorenzo com aquele olhar meio desconfiado, meio protetor. Mas não disse nada. E isso já dizia tudo.

— Sabe, Isa… — Lorenzo se virou pra mim — Eu nunca pensei que encontraria uma irmã. Mas agora que encontrei, não quero perder tempo. A gente tem tanto para recuperar.

Meus olhos marejaram. Não por tristeza. Mas porque era muito… Muito bom, muito seguro. Muito coisa que eu nunca achei que teria.

— Obrigada. De verdade. — sorri, segurando a mão dele por cima da mesa.

— Só… não desliga. — ele implorou.

Mas eu desliguei. E fiquei olhando para o vazio, com o coração batendo forte demais. Dante encostou a mão na minha perna. Olivia se aproximou. Ninguém disse nada. A noite que era doce… agora sangrava.

Porque fantasmas não sabem a hora de partir. E o amor antigo… mesmo podre, ainda sabe onde doer.

***

POV Dante Harrison – Casa da Olívia, naquela noite

Ela desligou o telefone. Mas o silêncio que ficou no rosto da Isadora era mais alto que qualquer grito. Eu a vi respirar fundo. Fingir estabilidade. Se recompor com aquela elegância de quem já sangrou tanto que aprendeu a sorrir com dor. Isa sempre foi assim. Forte demais pra própria sorte. Linda demais pra esse mundo que insiste em tentar destruí-la.

Ela virou o rosto. Voltou para o sofá como se não tivesse acabado de atender uma ligação do homem que a deixou em cacos por sete anos. Mas eu vi. Vi a sombra. A fraqueza. O tremor quase imperceptível nos dedos. E eu... fiquei calado. Porque se falasse, minha raiva escaparia. E não era hora. Ainda não.

Porque tudo tem sua hora. E a minha está chegando. Enquanto ela ria sem graça com Caio e Lorenzo, fingindo que nada demais aconteceu, eu deixava meus olhos nela… e minha mente… em outra mulher.

Elena. A mensagem que eu mandei pra ela, dias atrás, ainda estava no histórico do número descartável que comprei só pra isso. Enviei como se fosse anônimo. Mas eu sabia que ela entendeu a ameaça. Elena achava que estava manipulando as peças... mas não percebeu que o tabuleiro mudou. E agora quem está mexendo as peças sou eu.

Isadora e esse bebê são meu foco. Minha prioridade. E os Montenegro? Cada um vai pagar com juros. Heitor pela covardia. Célia pela destruição. Elena pela farsa. Um por um, vou derrubar. Nem que para isso eu precise virar um monstro também.

Respirei fundo. Peguei o celular só pra checar as horas…

1 nova mensagem – Elias (secretário pessoal): "Dante, seu pai pediu uma reunião urgente amanhã cedo. Está vindo para a cidade. Disse que é importante."

O sangue gelou. Por um segundo, todo o ódio que guardo bem trancado escorreu pelas bordas da minha calma. Meu pai. A desgraça da minha existência. O homem que transformou minha infância num campo minado. Que destruiu minha mãe emocionalmente. Que me moldou à força, como se eu fosse propriedade. A última vez que nos falamos, jurei que nunca mais olharia na cara dele. E agora ele quer “conversar”? Deslizei o celular devagar na mesa. Olivia me olhou de relance, como se tivesse sentido minha mudança de energia.

— Tá tudo bem? — ela sussurrou.

— Não. — respondi seco, baixo. — Mas vai ficar.

Fiquei ali, calado. Só observando. O riso de Isa com Lorenzo. Os olhos dela se abrindo um pouco mais. O brilho voltando devagar, tímido, mas real. E eu prometi para mim mesmo, ali, sem fazer cena: Nunca mais vão destruir essa mulher. Nunca mais. A diferença é que agora… eu estou pronto para fazer o que for preciso. Nem que eu tenha que sentar à mesa com o próprio diabo. Meu pai que me espere. O jogo começou. E eu vou jogar até o fim.

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