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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 78

POV Isadora Ferraz

As palavras dançavam na tela, quase no ritmo da minha respiração. Era estranho, sabe? Ver minha história ganhando corpo, título, capítulos… finais. Como se algo dentro de mim, finalmente, estivesse sendo costurado. Uma ferida fechando de dentro para fora. Eu estava ali, sozinha na minha sala da editora, café frio do lado, rascunhos amassados pelo chão e a barriga começando a pesar. Não só no corpo. Na alma também.

O livro estava quase pronto. O projeto gráfico já aprovado, a capa escolhida, a última leitura crítica em andamento. Faltava pouco para eu colocar no mundo algo que era meu, só meu. Pela primeira vez em anos, eu me sentia dona da minha história. Com medo? Sempre. Mas era aquele medo bom, que vem quando a gente pula sem saber se tem rede embaixo.

Eu estava prestes a fechar o notebook quando o celular vibrou. Heitor. O nome brilhou na tela e, por um segundo, minhas mãos hesitaram. Respirei fundo. A mente já gritava não abre, não se machuca, não volta. Mas o coração... ah, o coração é burro. Toquei. Era uma mensagem curta. “Se lembra disso?” Abaixo, tinha uma foto. Na imagem, eu estava deitada no peito dele, na areia branca de uma praia em Búzios, sol se pondo atrás de nós. O cabelo todo bagunçado pelo vento, ele rindo, e eu… eu com aquele olhar. Aquele olhar de quem acreditava que o amor podia salvar tudo.

A lua de mel. Um tempo em que eu achava que estava segura. Que podia confiar. Que a vida seria gentil. Um tempo que já não existia mais. Fechei os olhos, tentando conter a avalanche. Aquela foto doía. Doía mais do que qualquer grito. Porque era a lembrança de uma promessa que não se cumpriu. De uma versão de mim que já morreu. Respondi? Não. Bloqueei? Também não. Só deixei ali. Como um espectro. Um lembrete do que já foi… e nunca mais será.

Levantei da cadeira, a barriga empurrando a camisa com suavidade. Fui até a janela da sala, encostei a testa no vidro gelado. Lá embaixo, a cidade vivia, buzina, pressa, caos. E eu ali. Grávida, escrevendo, tentando. Ele ainda tentava me puxar de volta pro passado. Mas o futuro… o futuro já estava mexendo dentro de mim. Eu não podia mais ser aquela mulher da foto. Eu era outra. Mais forte. Mais dolorida. Mais viva. E eu ia terminar esse livro. Por mim. Pelo bebê. Pela nova vida. Mas principalmente… para enterrar de vez tudo aquilo que um dia me destruiu.

***

A luz do abajur era suave, morna, quase um carinho na pele. A tela do notebook iluminava meu rosto cansado, mas meus dedos ainda dançavam no teclado como se soubessem que o tempo era sagrado. Faltavam duas páginas. Duas. E o livro estaria pronto. Meu livro. Minha história. Minha libertação. Dante estava na sala, ouvindo alguma música instrumental enquanto folheava um dos manuscritos que eu deixei aberto sobre a mesa de centro. Ele não me apressava. Não perguntava. Não fazia barulho. Só existia ali, do lado de fora do meu caos criativo, pronto para me acolher quando eu saísse dele.

Suspirei fundo e voltei ao teclado.

“...e quando ela finalmente olhou no espelho, não viu a mulher que sobreviveu. Viu a mulher que vive. Pela primeira vez.”

A frase final. Era isso. Era isso. Fechei o notebook com cuidado, como quem sela uma cápsula do tempo. Meus olhos encheram d’água, mas era alívio, não dor. Levantei da cadeira, as mãos instáveis com a descarga emocional. Fui até a sala. Dante ergueu os olhos quando me viu. Largou o papel e veio até mim como quem já sabia. Como quem sentiu.

— Terminou? — ele perguntou, a voz baixa, respeitosa.

Assenti. As lágrimas escorreram sem barulho. Ele me puxou para os braços, com cuidado, com carinho. Com aquele amor silencioso que não grita, mas preenche.

— Você conseguiu, Isa. — ele sussurrou no meu cabelo. — Você venceu.

— Eu não venci ainda. Mas… agora, eu sei que posso.

Ficamos ali, abraçados, por um tempo que o relógio não mediu.

— Quero que seja o primeiro a ler. — murmurei. — Do início ao fim.

Ele sorriu, me afastou só o suficiente pra me olhar nos olhos.

— Vai ser uma honra.

Eu ia dizer algo mais, mas o som do interfone rasgou a madrugada. Dante franziu o cenho.

— A essa hora?

Meu coração deu um salto estranho. Algo me dizia… nada de bom chega depois da meia-noite. Ele foi até o interfone, apertou o botão.

— Sim?

Silêncio. Então, a voz do porteiro:

— Senhor Dante, temos aqui uma mulher pedindo pra subir. Disse que é urgente. O nome dela é… Elena.

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