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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 74

POV Heitor Montenegro

As paredes pareciam fechar ao meu redor. Aquele envelope… Aquele maldito envelope com o nome dela.

Isadora Ferraz. Ultrassom obstétrico. Cinco meses sem que eu a tocasse, enquanto ela ainda era minha. Já faz quase quatro meses que ela foi embora e tudo desmoronou. Nove meses em que ela dormia do outro lado da cama e eu me afogava em silêncio. Nove meses em que eu ainda a chamava de “minha mulher”, mas ela já estava vazia de mim.

E agora… agora ela carrega um filho. Mas não é meu. Meus punhos estavam fechados desde que saí do restaurante. A raiva queimava debaixo da pele, fervendo como óleo quente na alma. Dante. Aquele desgraçado engravidou a minha Isa.

Entrei em casa arrebentando a porta. A chave nem girou direito. Nem me dei o trabalho. Célia apareceu no corredor.

— Heitor... o que foi isso?

— SAI DA MINHA FRENTE! — urrei, a voz saindo como um trovão engasgado em sangue.

Ela recuou. Pela primeira vez em anos… vi medo no rosto da minha mãe. Mas eu não ligava. Corri até a sala. Olhei pro porta-retratos com a nossa foto de casamento. Peguei. Joguei na parede. O vidro explodiu como minha sanidade.

— FILHA DA PUTA! — gritei, chutando a mesinha de centro, que virou de lado, espalhando tudo. — Você me mata, Isadora. Você ME MATA!

Puxei a estante com força. Livros voaram. Garrafas de uísque estilhaçadas. Pedaços de mim no chão. Gritei. Gritei até a garganta sangrar. Até o peito colapsar.

— Você ia me dar um filho... e deu para ele! PARA ELE?!

Caí de joelhos no meio da sala. O chão gelado colando no meu suor quente. Minha respiração rasgava. Meus olhos ardiam. Mas eu não chorava. Eu fermentava. Porque essa era a dor de um homem que teve tudo e destruiu com as próprias mãos. Porque agora ela estava grávida. Linda, cheia, brilhando… e não era por mim.

O celular vibrou. Nem olhei. Devia ser Célia, Elena, o diabo. Qualquer um que não importava. Porque só uma pessoa importava. E ela me esqueceu. E ela renasceu sem mim. E ela vai ser mãe… com outro homem.

Levantei cambaleando. Peguei a garrafa de uísque e bebi direto. Sem pensar. Sem respirar. Engoli como se queimasse a memória do toque dela nos lençóis. Joguei a garrafa contra a parede. Mais estilhaços. Mais eco. Mais nada.

— Você vai se arrepender, Isadora. — sussurrei entre os dentes. — Vai se arrepender de ter me deixado.

Meu reflexo no espelho era de um homem que não existia mais. Só restava um monstro. Partido. Obcecado. Perigoso. E eu ainda a amava. E isso me destruía mais do que tudo.

***

POV Célia Montenegro

O som de vidro quebrando foi a primeira coisa. Depois, os gritos. Gritos de um filho que não gritava desde a infância. Gritos de um homem que perdeu o trono no próprio reino. Desci as escadas devagar. Como se cada degrau fosse uma contagem regressiva pro colapso.

Vi Heitor no chão. Sangue escorrendo da mão. Os olhos perdidos. E o olhar... Deus. O olhar era de um homem que tinha amado demais. E perdido tudo.

Ele surtou de vez, pensei. Mas mantive a calma. Sempre mantive.

— Heitor. — minha voz cortou o ar.

Não era doce. Não era acolhedora. Era comando. Ele virou o rosto pra mim, os olhos vermelhos.

— Ela está grávida.

A voz dele era um sussurro trincado.

— Ela está grávida… e não é meu.

Ah… então era isso. O golpe final. A ferida que nenhuma chantagem, nenhum vídeo, nenhuma mentira conseguiu abrir… a natureza abriu. Fechei os olhos por um segundo. Poderia ter funcionado, se ele não tivesse arruinado tudo. Mas homens como meu filho não sabem segurar o que têm. Só sabem destruir.

Como o pai dele.

— E agora? — ele perguntou, tremendo. — Você vai fazer o quê? Me dopar? Inventar outro escândalo? Falsificar um DNA?

Respirei fundo.

— Agora… agora você se recompõe.

— COMO? — ele berrou, batendo a mão na parede.

— Assuma. Pela primeira vez, Heitor… seja homem.

Ele não respondeu. Só respirava fundo, como se o ar doesse. A raiva dele agora era silêncio… Mas eu sabia que, por dentro, o fogo ainda queimava. Me ajoelhei na frente dele. A mão ferida estava inchada, com cortes profundos. Peguei a gaze, o álcool e o curativo como quem prepara um ritual.

— Vai arder. — avisei.

E ardeu. Ele estremeceu, mas não disse nada. Ficou ali, me encarando com aqueles olhos de lobo ferido.

Frágil demais pra reagir. Orgulhoso demais pra pedir ajuda.

— Você quer destruir ela, né? — perguntei, enrolando a faixa com precisão cirúrgica.

— Eu quero ver o mundo dela ruir — ele rosnou.

Quis que aquele surto dele, aquela fúria toda, fosse por mim. Mas não era. Era por ela. Sempre ela.

— Você vai conseguir. — menti com doçura. — Mas não desse jeito.

Ele me olhou. Confuso. Exausto.

— Você precisa descansar. — peguei o copo com o calmante já dissolvido.

— O que é isso? — desconfiado.

— Só algo pra ajudar você a dormir. — respondi, sorrindo.

Ele hesitou por um segundo. Mas então, bebeu. Era isso.Toda fera precisa dormir…Nem que seja para sonhar com a caça. Ajudei ele a se deitar. Puxei o lençol, ajeitei o travesseiro. Os dedos dele tocaram o meu braço, leves, distraídos.

— Elena… — ele sussurrou. — Fica?

Meu coração deu um pulo. Mas minha alma… riu. Claro que eu ficaria.Era o que eu fazia de melhor. Fiquei sentada ao lado dele, o observando adormecer. Os músculos dele foram relaxando devagar, a respiração ficou mais calma, mais profunda. Com a cabeça dele tombada no travesseiro, a mão enfaixada como uma promessa de destruição futura, eu entendi. Ele nunca ia amar outra mulher como amou Isadora.

Mas talvez... Talvez ele aprendesse a depender de mim. E dependência, meu bem… É o primeiro passo para dominação.

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