POV Isadora Ferraz
A chuva fina dançava no vidro, enquanto a cidade se despia do caos e vestia o silêncio úmido da noite. Dante dirigia tranquilo, uma mão no volante, a outra apoiada perto da marcha, dedos longos batucando de leve uma melodia muda. O carro cheirava a café e mistério, e eu… eu estava tentando não olhar para ele mais do que devia.
Mas era difícil. Ele estava lindo demais naquele moletom escuro, barba por fazer, aquele ar de “sou forte, mas tô tentando ser gentil”, e a voz grave que me atravessava toda vez que dizia meu nome com suavidade.
— A gente já está chegando. — ele disse, olhando rápido pro lado.
— Eu sei. — murmurei. — Só… não precisava me trazer. Eu podia ter pegado um táxi.
— E perder a desculpa perfeita pra ficar mais alguns minutos com você? Nem pensar.
Me peguei rindo. Daquele jeito torto que só ele conseguia tirar de mim. Aquele riso que escapava sem permissão, como quem volta pra casa depois de muito tempo.
Chegamos à casa de Olivia. A luz do portão estava apagada, mas o varal de gatinhos de pano ainda balançava com o vento. Antes de sair, ele segurou meu braço com leveza.
— Ei. Você está bem mesmo?
Assenti.
— Hoje foi um dia bom.
— E… você ainda está brava comigo?
— Não. — soltei, depois de um segundo de hesitação. — Eu só… preciso do meu tempo. Tudo está confuso. E o bebê… é muita coisa.
— Eu sei. — ele respondeu, a voz baixa. — E eu não quero apressar nada. Mas também… não quero fingir que não sinto nada.
— Dante…
— Eu te amo, Isa. — ele falou de uma vez, como se precisasse vomitar aquilo antes que o coração explodisse. — Eu amo você desde o primeiro dia que vi você recusar um café porque estava frio demais. Desde que vi você chorar na sala da editora. Eu amo tudo. Até suas dúvidas. Até seu silêncio.
Fiquei sem ar por um segundo. O tipo de silêncio que se instala no peito quando o mundo para.
— Isso é muita coisa para mim agora. — confessei.
— Eu sei. Não estou pedindo nada. Só estou te dizendo. Porque... é real.
Nos encaramos. A chuva caía mais forte agora, e lá fora tudo era borrão. Mas aqui dentro, era só ele. Só nós. Ele se aproximou devagar, o olhar pedindo permissão. Meu coração disparou. Uma, duas, mil vezes. E eu deixei. Nossos lábios se encontraram como se já soubessem o caminho. Quentes. Macios. Famintos, mas calmos. Um beijo com gosto de “finalmente”. De “tô aqui”. De “fica”.
Os dedos dele tocaram meu rosto com reverência, como se eu fosse feita de coisa rara. Beijei de volta com vontade. Não era o fim de nada, nem o começo de tudo. Era só o agora. Era só eu… deixando ser. Nos afastamos devagar, respiração entrecortada, olhos nos olhos.
— Eu vou esperar. — ele disse, tocando minha barriga com delicadeza. — Mas juro… vou estar aqui pra cada passo.
Sorri.
— Boa noite, Dante.
— Boa noite, Isa.
Desci do carro. E, por dentro, uma parte de mim já não queria ir embora.
***
A casa de Olivia cheirava a pipoca queimada e esmalte barato, o combo perfeito pra uma noite de desabafo, terapia informal e zero juízo. A sala estava uma bagunça: almofadas no chão, cobertores espalhados, uma garrafa de vinho aberta para ela e suco para mim, e Olivia com uma máscara facial verde, segurando uma taça como se fosse o Santo Graal.
— ENTÃO VOCÊ BEIJOU O DANTE?! — ela praticamente berrou, cuspindo um pouco de vinho.
— Pelo amor de Deus, abaixa a voz! — resmunguei, corando até os fios da alma. — Vai acordar os vizinhos… e os mortos. E não é como se fosse a primeira vez, né. Eu estou grávida dele!
— Isadoraaaaaaa! — ela se jogou no sofá, dramaticamente. — E foi beijo de “ai, que saudade” ou beijo de “se eu não tivesse grávida, estaria sem calça nesse carro agora”?
— Olivia!
— O QUÊ? Eu sou só a narradora interessada, poxa. Me dá esse gostinho.
Fechei os olhos. E sorri.
***
POV Olivia
Ver a Isadora sorrindo de novo era como ver um campo de girassóis desabrochando depois de um incêndio. Devagar, teimoso, corajoso. Eu estava aqui, plantada no meio da sala, segurando uma taça de vinho rosé (que sinceramente era mais açúcar do que álcool), com os olhos marejando igual uma tia emocionada em casamento de novela das nove.
Ela ria. Não era aquele riso triste, abafado, que ela ensaiava nos dias difíceis. Era riso de verdade. Com som, com corpo, com alma. A Isadora tava voltando. Não como antes. Melhor. Mais dela. Mais inteira. E, por Deus, ela merecia isso. A barriga dela começava a desenhar uma nova história no corpo e eu via, com um carinho besta, como ela passava a mão ali sem perceber. Um carinho automático, meio inconsciente, mas cheio de amor. Amor novo. Um amor que nasceu da dor, mas tava florescendo bonito.
E Dante? Aquele homem estava tentando. Sério. E olha que eu sou difícil de convencer. Depois do que o Heitor fez, eu virei guarda-costas emocional da Isa. Mas o Dante… ele olhava pra ela como se tivesse vendo um milagre de pé. Como se ela fosse o norte, o abrigo, a luz no fim da tempestade. E eu sabia, no fundo do peito: ele era o tipo de cara que ia escolher ela todos os dias.
— Está boba por quê? — Isa perguntou, com um sorriso preguiçoso, me olhando do sofá.
— Estou feliz. Só isso. — dei de ombros, como se fosse simples. Mas não era. Era tudo.
— Feliz?
— Você não tem ideia do que é te ver assim de novo, mulher. Com esse brilho no olho, com essa voz leve. Você passou por tanta merda… e agora olha para você. Olha.
Ela riu baixinho, envergonhada. Mas os olhos brilhavam.
— Eu ainda tenho medo, Oli.
— E vai continuar tendo. A gente nunca deixa de ter. Mas agora… você tem o Dante. Tem o Lorenzo. Tem o Caio. E tem a mim. — estendi o dedinho mindinho pra ela, num juramento de criança. — Eu vou te proteger com minha vida, sabia?
— Ai, Olivia… você é a melhor parte da minha vida.
— E você é a razão de eu ainda acreditar que dá para recomeçar. Mesmo depois de tudo.
A gente ficou ali. No meio da bagunça. Comendo chocolate do pote, ouvindo música baixa e fingindo que o mundo lá fora não existia. Era só a gente. E a paz. E o amor que, enfim, estava renascendo. E por dentro, eu prometi para mim mesma: Enquanto eu estiver por perto, Isadora Ferraz nunca mais vai ficar sozinha nesse mundo.

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