POV Dante Harrison
A sala estava gelada. Não pelo ar-condicionado. Mas pela presença dele. Harrison. Meu pai. Sentado na cabeceira da mesa de mármore como se fosse um rei. Grisalho, terno sob medida, mãos entrelaçadas sobre a pasta de couro. A expressão? Aquela merda de arrogância que me deu náusea a vida inteira.
— Você demorou. — ele disse, sem me olhar.
— Eu vim. Já é mais do que você merece. — retruquei, puxando a cadeira do outro lado da mesa.
Silêncio. Ele riu. Uma risada baixa, sem alma.
— Sempre com esse tom. Como sua mãe. Sentimental. Inútil.
Engoli seco. Quis levantar. Quis quebrar essa mesa com um soco. Mas eu fiquei. Porque eu precisava ouvir. Porque se ele estava ali, querendo conversa, é porque algo tinha saído do controle.
— O que você quer?
Ele me olhou. Aqueles olhos frios. Cinza metálico. Os mesmos que eu herdei. A única coisa que ele me deu sem cobrar nada em troca.
— Estou preocupado com seus últimos movimentos.
— Meus movimentos?
— Isadora Ferraz. Os Montenegro. Seu envolvimento pessoal e profissional com os dois lados de uma guerra que não é sua.
Soltei uma risada seca.
— Não é minha? Eles fizeram dela minha guerra.
Ele se recostou, como quem analisava um produto defeituoso.
— Você está se expondo demais, Dante. Perigoso demais.
— E desde quando você se importa com minha segurança?
— Não é com sua segurança. É com o nome. O sangue. Harrison.
A palavra me fez cuspir um riso.
— O mesmo nome que você sujou com cada amante, cada chantagem, cada desgraça escondida atrás dessa gravata de luxo?
Ele levantou. Deu a volta na mesa. Veio até mim com calma. Os passos dele eram como sinos de funeral.
— Dante... se você acha que vai destruir os Montenegro e sair limpo, está enganado. Célia é mais perigosa do que você imagina. E Heitor... ele ainda tem poder.
— Não por muito tempo. — disparei.
Ele se aproximou mais. Abaixou-se um pouco, ficando na altura dos meus olhos.
— O que você quer realmente, filho?
Meus dentes rangeram. A raiva fervia, mas não explodia. Ela queimava devagar.
— Justiça. Por ela. Por tudo que ela passou. E, talvez... — incline-me ligeiramente, sem piscar — vingança.
Ele sorriu. Aquele maldito sorriso cínico.
— A vingança nunca é limpa. Ela arrasta tudo. Até você.
— Melhor me sujar lutando do que viver limpo do seu jeito. Submisso. Cúmplice.
Ele se afastou. Alisou o terno. E antes de sair, lançou a última bomba:
— Então se prepare. Porque você mexeu no tabuleiro errado.
Travei. Ele sorriu mais uma vez.
— Boa sorte com o seu “heroísmo”.
E saiu. A porta fechou com um estalo seco. E eu fiquei ali, sozinho. Mas sem medo. Sem arrependimento. Se eu estou no jogo... é pra ganhar. Nem que eu tenha que destruir cada rei, cada rainha, cada trono.
***
O elevador apitou no último andar, e o som foi abafado pela batida suave da chuva lá fora. Respirei fundo. Coração acelerado. Mente em frangalhos desde a conversa com meu pai. Mas assim que a porta da minha sala abriu, tudo pareceu... parar.
Lá estava ela. Isadora.
Sentada na mesa da própria sala, com os cabelos presos num coque bagunçado, os óculos escorregando no nariz, caneta mordida entre os dentes e vários manuscritos abertos à frente. O blazer estava largado na poltrona, e ela usava apenas uma blusa de manga três quartos, preta, colada ao corpo. E foi impossível não ver. A barriga. Pequena ainda. Mas lá. Um leve arco sob o tecido. O começo de um mundo. O nosso mundo.
Ela nem percebeu que eu entrei. Passei a mão pelos cabelos, tentando controlar a avalanche que veio. Não era só amor. Era desespero. Medo. Culpa. Desejo. E um impulso quase insano de protegê-la de tudo, até de mim mesmo.
Ela fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. Depois me olhou.
— Você já está fazendo, Dante. Às vezes, só estar aqui já muda tudo.
Silêncio de novo. Um silêncio bom. Cúmplice.
— Precisa de ajuda com esses manuscritos? — perguntei, apontando pro caos na mesa.
Ela soltou uma risada.
— Preciso de um café e de um clone. Mas café resolve por enquanto.
Levantei.
— Então deixa que eu pego. Café e talvez um pão de queijo da padaria da esquina.
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Está tentando me conquistar pela barriga?
— Tô tentando te conquistar por inteiro. De novo. Todo dia.
Ela riu. Baixinho. E foi tudo o que eu precisava ouvir. Saí da sala com um sorriso bobo no rosto, mas o coração em guerra. Porque, por mais que aquele momento fosse leve... Eu sabia que o inferno ainda nos rondava. Mas ali, naquela sala cheia de manuscritos e com um bebê a caminho… Era como se, só por hoje, a paz tivesse nos escolhido.
***
O som da cidade era uma sinfonia torta: buzinas, chuva fraca tamborilando no teto do carro, vozes apressadas cruzando a calçada. Mas minha cabeça estava em outro lugar. Ou melhor, em outra vida. A vida que eu queria construir com ela.
Dirigia sem rumo, só porque o silêncio do carro era mais suportável que o da minha mente. O cheiro do café que ela me pediu ainda impregnava minhas mãos. E, mesmo com a cidade inteira gritando ao redor, tudo que eu conseguia ver era ela naquela sala, com a barriga começando a crescer e a coragem transbordando nos olhos.
Isadora Ferraz. Grávida. Forte. Linda como o próprio caos. E eu… eu estava apaixonado. Perdido. Condenado por esse amor. Vi uma placa pendurada numa varanda de casa: “Vende-se. Três quartos. Jardim.” E foi ali. Num cruzamento qualquer da cidade, entre um motoboy acelerando e um cachorro fugindo da chuva, que a ideia me atravessou como um raio.
Uma casa. Com jardim, com varanda, com espaço pra um berço, um sofá velho e jantares improvisados. Uma casa onde ela pudesse deitar no meu colo no fim do dia e suspirar aliviada. Onde o bebê pudesse crescer ouvindo nossos risos e, às vezes, nossas brigas também, porque ser família é isso. É verdade. É bagunça. É amor desajeitado.
Eu queria casar com ela. Sim, parecia loucura. Rápido demais. Bagunçado demais. Mas quando foi que meu coração seguiu lógica? Quando foi que a vida nos deu tempo? A gente não teve começo tranquilo. Não teve "era uma vez". Mas ainda dava pra ter um "felizes enquanto der". E eu quero tudo. Quero ver o primeiro chute. Quero estar ao lado dela na ultrasson. Quero segurar a mão dela no parto. Quero perder noites e ganhar vida com esse bebê. Quero montar o berço. Pintar o quarto. Me ferrar tentando montar armário da Tok&Stok e ouvir ela rindo da minha cara porque eu fiz tudo errado.
Mas quero isso com ela. E vou esperar. Porque agora… agora eu entendi. Ela não precisa de promessas rasas. Ela precisa de presença. Constância. Cuidado. Se for pra pedir ela em casamento, vai ser do jeito dela. No tempo dela. Mas até lá… já comecei a procurar casa. Com jardim. Com janelas grandes. Com espaço pra memórias novas. E juro por Deus… vou fazer esse lar nascer antes mesmo do bebê chegar. Acelerei. No retrovisor, a cidade parecia tentar me alcançar com seus monstros e ruínas. Mas ali, no volante, com o coração latejando e o nome dela martelando no peito, eu só conseguia pensar numa coisa: “Ela vai ter tudo. Tudo. Nem que eu precise reconstruir o mundo com as próprias mãos.” Porque perder a Isadora uma vez me ensinou o valor do amor. Mas perder cada fase dessa gravidez? Isso… eu não vou permitir. Ela é o começo. O bebê é o meio. E juntos, vamos construir o nosso sempre.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”