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A babá é a mais nova obsessão do CEO romance Capítulo 261

POV Maria Fernanda

O funeral era hindu, tradicional, como eu sabia que ele gostaria que fosse. Não tínhamos um corpo. Só cinzas. Então seria feito um ritual sagrado que era conhecido como “Asthi Visarjan”, que significava imersão das cinzas.

Ao contrário da cremação, que segundo a tradição hindu, se concentrava na libertação da alma, o “Asthi Visarjan” focava no retorno dos restos físicos aos elementos da natureza, completando o ciclo de vida e morte.

A “Asthi Sanchayan” para eles era a preparação e coleta. A urna, conhecida como Kalash, era um pote de barro. Após a pira se apagar, começou o ritual. Já tínhamos as cinzas, que foram carinhosamente transferidas para a Kalash.

O executor do ritual era o membro mais próximo da família. Tradicionalmente o parente masculino assumia a responsabilidade de carregar o Kalash.

Os parentes mais próximos de Aayush naquele momento eram alguns tios e primos. Mas Zadock e Enzo tomaram a frente. Óbvio que houve certa discordância entre qual dos dois levaria a urna.

Zadock alegou que era o mais velho, e segundo os rituais hindus, teria preferência. Enzo, por sua vez, disse ser mais próximo de Aayush.

Caliana e eu tomamos a decisão: cada um levaria um pouco. Dessa forma os dois irmãos Asheton seriam contemplados. Sim, “irmãos”. Eles não se autodenominavam mais “meio-irmãos”.

Diferente de nossos costumes, as pessoas não vestiam preto. O luto era branco.

O ritual foi feito no quinto dia após a morte de nosso amigo Aayush. Tentamos organizar tudo o mais rápido possível, pois a imersão deveria acontecer antes do décimo dia após a morte.

Eu sempre perguntava a Aayush sobre os costumes de seu país. E morte e funeral foi algo que ele me explicou detalhadamente por duas vezes. E eu ainda tinha as suas palavras vívidas na minha mente.

A cidade escolhida foi Varanasi, a preferida dele. O local de imersão era o rio Ganges. Eram aquelas águas que purificariam a alma de Aayush e facilitariam a Moksha, que era conhecida como a libertação do espírito.

O “pandit”, conhecido como sacerdote, guiava o ritual, garantindo que os mantras sagrados e cantos fossem realizados corretamente.

Nós não conhecíamos os cânticos. Mas eu jamais esqueceria aquelas palavras proferidas com profunda devoção: "Naarayana, Naarayana".

À beira do rio Ganges, numa escadaria, a Kalash foi colocado sobre uma tapeçaria indiana colorida. Foi feita uma espécie de cerimônia de adoração. Ofertamos flores, incenso, leite, mel e iogurte às cinzas de Aayush.

Em sinal de respeito, cumprindo os momentos finais, circundamos o local da puja em sinal de respeito. Para nós, era muito mais que respeito. Era devoção, gratidão, inspiração.

Zadock e Enzo entraram no rio, até a água chegar em suas cinturas. Levavam, juntos, o Kalasha acima de suas cabeças, segurando ao mesmo tempo, compartilhando a mesma dor, em completa simbiose.

Quando imergiram o Kalash na água, senti certa dor. Jamais o veríamos novamente. Nosso amigo de todas as horas, o homem que me contava histórias, que declarou gostar de mim ao mesmo tempo que queria que eu fosse feliz com o homem que amava, tinha o que restou dele, suas cinzas, levada pelo rio.

Enquanto a cinzas se dispersavam, oramos, cada um à sua maneira, para que a alma de Aayush encontrasse paz e completasse a sua jornada para o próximo estágio, o da reencarnação, o ciclo que viria a partir de agora.

Após o ato de libertação da alma de Aayush, Caliana e eu nos juntamos a Zadock e Enzo no rio, nos banhando em seu leito sagrado, a fim de nos purificarmos antes de retornar para casa.

Andamos de cabeça baixa, molhados pelas águas do rio Ganges, nos dirigindo para o carro. O silêncio nos consumia. Cada um com sua própria dor.

Ergui a cabeça e quebrei o silêncio:

— Não devemos sofrer. Aayush foi libertado das amarras terrestres. Garantimos que ele tenha uma passagem tranquila para o além. E, segundo a cultura dele, talvez nos encontremos novamente, reencarnados. — sorri — só espero que ele volte como o patrão de vocês dois.

Todos rimos. As canções ao nosso redor, vindas de outros funerais, faziam a dor realmente diminuir. Todos estavam felizes ao jogarem as cinzas de seus entes queridos no rio.

— Que o karma não nos atinja. — disse Enzo — ouvi dizer que é contagioso.

Dei um tapa leve no braço dele:

— Como você consegue ser tão idiota?

Enzo passou o braço em torno do meu ombro, puxando-me para si. Não me esquivei. O toque dele me tranquilizava, me deixava segura.

Zadock e Caliana seguiram à nossa frente.

— Quando eu morrer, garanta que eu tenha um funeral indiano, Maçãzinha.

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