POV Maria Fernanda
— Você quer desenhar comigo? — Davi perguntou.
— Eu quero. Mas já vou alertando que sou péssima desenhista.
Ele estava com os papéis e canetas hidrocor dispostos no chão, desorganizadamente. Eu chamava aquilo de “bagunça do bem”. Deitei no chão, com as costas para cima, enquanto puxava uma folha e arriscava uma pessoa de gravetos.
— Vou refazer todos os desenhos que fiz de você. — ele disse, enquanto pintava o sapato do pai numa paisagem.
— Por quê?
— Porque agora o seu cabelo é preto. — riu, como se fosse óbvio.
— Mas os desenhos que já foram feitos não precisam ser trocados. Porque quando você os desenhou, eu era daquele jeito.
— O seu desenho é bonito.
Olhei meu desenho e comecei a rir.
— Você é o maior cavalheiro que eu já conheci. Mas o meu desenho é horrível.
Ele riu:
— É... não é muito bonito.
— Meu irmão desenha bem, assim como você.
— Eu irei conhecê-lo no domingo?
— Como assim? — franzi a testa, confusa.
— Meu papai disse que iremos num almoço na sua casa. E que é o seu aniversário! — tentou piscar um olho, sorrindo.
Eu era apaixonada por aquele menino. Mas quando ele fazia aquela tentativa de piscar um olho, que era um fracasso, eu me derretia completamente. Porque era muito, muito fofo.
E... como assim iriam na minha casa almoçar? Eu achei que Enzo só tinha aceitado por educação!
Porra! Seria vergonhoso. Enzo e Davi jamais se adaptariam ao meu mundo. E não, ele não era ruim. Mas para quem nasceu no conforto, dividir uma mesa redonda com cadeiras que não davam margem para se mexer e sem ninguém que servisse devia ser humilhante.
— Bem... a minha casa... é... muito, muito pequena. — expliquei — tão pequena que nem tem muito ar para respirar lá dentro.
Realmente parecia não ter. Porque as janelas não eram pequenas. Eram normais. E ali, na casa dos Asheton, tudo era muito grandioso. Até mesmo as janelas.
Tentei coçar atrás do ombro e tive dificuldade. Optei por sentar-me, porque a minha coluna pareceu sentir a posição errada. Davi levantou-se e começou a coçar as minhas costas.
— Você... não sabe coçar? — riu.
— Faltam unhas. Mas eu vou deixar crescer mais. Assim você não terá que trabalhar duro me coçando. — brinquei.
— Eu estou fazendo um presente para você.
O puxei por trás e o pus sentado no meu colo:
— Ah, Davi... você é um menino incrível.
Se meu filho fosse igual ao Davi, eu seria imensamente feliz. Aquele menino era gentil, dócil e humilde. Todas as qualidades que eu achava imprescindíveis numa pessoa, principalmente em crianças.
— Não precisa se preocupar em me presentear. Eu sou bem feliz com a sua presença na minha vida.
Agora éramos profissionais. Patrão e babá. Na noite anterior ela era o meu namorado de mentira, disposto a tudo para fazer com que eu me saísse por cima depois da forma como Michael me tratou.
— O que você vai desenhar, papai? — Davi quis saber enquanto não tirava os olhos da sua própria produção. — Eu estou desenhando você.
— Eu estou bem esquisito. — Enzo arqueou a sobrancelha.
Nós três rimos.
— Depois eu vou desenhar a Maria. E agora ela não tem mais cabelos amarelos. São pretos. E vou fazer ela linda.
Senti meu coração acelerar e mordi o lábio, tentando não demonstrar o quanto aquele afeto de Davi mexia comigo.
— Ela é linda! — Enzo disse, me olhando de soslaio — Então... é bem difícil desenhá-la... de outra forma.
Ok, agora eu mordi com tanta força o lábio que senti o gosto de sangue. E quando ele tocou a minha mão, que descansava no chão, quase infartei.
— Todos nós somos lindos. E o papai é lindo, mas esquisito — ele brincou — Somos uma família, papai?
Enzo alisou meus dedos, discretamente. Eu? Já nem tinha mais psicológico. Coração? Tinha ido pelos ares. Explodido há muito tempo.
— Precisamos redefinir o conceito de família, filho. Depois disso... poderemos decidir se somos ou não uma família. — me encarou.
Família? Ele estava cogitando que fôssemos uma família, eu, ele, Davi e nosso bebê?
Meus dedos estavam trêmulos, mas tive coragem de levantar um deles e alisá-lo, da forma como fazia comigo. O fogo pareceu consumir o interior do meu corpo inteiro.
Não nos olhávamos, apenas nos tocávamos discretamente. Minha boceta reagiu. Sim, ela sempre reagir a ele.
Foi quando a porta se abriu, sem aviso. E Shirley entrou. Quando viu Enzo ao meu lado, ela hesitou, surpresa. Os olhos se arregalaram discretamente. E focou nas nossas mãos, que imediatamente se afastaram. E não, não houve discrição dessa vez. Ambos retiramos as mãos de forma quase abrupta, como se estivéssemos cometendo um pecado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...