— Eu... vim cuidar do Davizinho. — Shirley disse, com a voz melosa.
Ela tentou transparecer normalidade, mas era perceptível que ficou constrangida com o que viu.
— Eu não quero! — Davi reclamou, levantando.
Neste momento, eu e Enzo já tínhamos levantado também.
— Davi... — Enzo pareceu não saber o que dizer.
— Quero ficar com a Maria. — o menino foi enfático.
Shirley mordeu o lábio. E... embora não fôssemos amigas, não éramos inimigas. Nos dias que estive fora, ela que tinha ficado com Davi. Então, de alguma forma, Shirley não era tão ruim no que fazia.
— Davi... neste momento a Shirley vai cuidar de você. — me aproximei dele — Amanhã cedinho estou de volta, para arrumá-lo para ir à escola. E prometo deixá-lo escolher a fruta que levará de lanche.
Davi se agarrou a mim:
— Não, Maria... eu quero ficar com você. Só com você.
Shirley pegou Davi pelo braço e tentou puxá-la na sua direção, tirando-o de mim.
— Agora é comigo que você vai ficar, Davi.
Arregalei os olhos, atordoada. Fiz menção de impedir que ela levasse o menino a força, mas Enzo foi mais rápido. De forma ágil, retirou as mãos dela do filho e disse, com a voz alterada:
— Você está louca? Quer que eu processe a sua existência e comprometa a sua árvore genealógica por séculos?
— Enzo, eu... — ela começou a chorar.
— “Senhor”, Enzo. — corrigiu.
Ah, eu sabia muito bem como era ter que chamá-lo de Enzo algumas vezes e de senhor Asheton em outras. E viva a bipolaridade do pai do meu filho e amor da minha vida!
Mas claro que eu senti um pingo de felicidade ao perceber que ele mudou de ideia e não deixaria mais Shirley chamá-lo pelo nome.
— Eu estou muito nervosa. A minha mãe está doente e...
— Eu não me importo com a sua mãe. — Ele disse de forma séria.
— Mas... ela está muito mal.
— Eu não tenho nada a ver com isso. A mãe é sua.
— Mas... o fato de ela não estar bem me deixa... muito nervosa. E... eu não posso perder esse emprego. Preciso muito... ainda mais agora, que tenho que pagar o tratamento dela e...
— Você puxou o braço do meu filho. — a fúria estava em cada palavra que Enzo proferia.
— Mas nem doeu. — ela alegou — De forma alguma eu quis agredi-lo. Só tentei... fazer com que Davizinho ficasse comigo. — limpou as lágrimas e olhou para Davi e depois para mim.
Sim, eu também precisava daquele emprego. E me demiti, por conta das loucuras de Enzo. Mas ela? Bem, Shirley até que tinha bastante paciência, pois Davi não gostava nenhum pouco dela e deixava aquilo bem claro.
Mas eu não queria ser a responsável por Shirley perder o emprego.
— Davi — me abaixei na altura dele — Eu... gosto muito de você. E... adoro o tempo que temos juntos. Mas a Shirley... também é a sua babá. E...
Enzo pegou o braço de Davi e perguntou-lhe, num tom gentil:
— Meu filho... alguma vez ela já te puxou desse jeito?
O silêncio foi constrangedor. Todos esperando pela resposta de Davi. E eu sabia que a vida de Shirley dependia daquilo. A vida, por dois motivos. Um: se ela perdesse aquele emprego, dificilmente receberia um salário daquele em qualquer outro lugar, nem como modelo. Dois: se Davi confirmasse que ela já tinha puxado o braço dele em outra ocasião, Enzo faria da vida dela um inferno. E eu também. Porque eu jamais admitiria que alguém fizesse qualquer coisa contra aquele garotinho.

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