Depois do banho de água fria, Adriano começou a dar sinais vagos de consciência — um gemido baixo, um movimento involuntário do braço, a respiração ainda irregular, mas presente. Aquilo, por si só, já foi suficiente para me fazer respirar um pouco melhor, como se meus pulmões finalmente se lembrassem de como funcionavam.
Mundico assumiu a liderança com a calma de quem já viu muita coisa difícil na vida. Desligou o chuveiro, pegou uma toalha grossa e passou rapidamente pelo rosto e pelos cabelos de Adriano, enquanto eu me mantinha ao lado, segurando seu braço, com medo de que ele desabasse outra vez.
— Um café amargo é coisa boa numa hora dessas — Mundico falou com aquele tom arrastado, porém de muita sabedoria.
Levantei, fui até a cozinha e coloquei água e pó na cafeteira. Fiz um café rápido e voltei para o banheiro. Adriano ainda parecia meio inconsciente. Me abaixei e fui dando o café aos goles. Ele engasgou um pouco, mas conseguiu beber uma quantidade boa do café.
— Vamos levar ele pro quarto — disse Mundico, firme. — Devagar.
— Será que vamos conseguir subir essas escadas tão longas? — perguntei, um pouco temerosa.
— Vamos tentar — Mundico falou.
— Não seria melhor deixar ele aqui no sofá? — perguntei mais uma vez.
— Acho mais prudente levar ele pro quarto. Amanhã o pessoal vai chegar cedo para o trabalho. Acho que o patrão não ia querer ser visto assim.
— Você tem razão, Mundico — admiti dando um longo suspiro.
Mundico, diferente de tudo que eu já havia visto na vida, demonstrava uma lealdade à Adriano que me surpreendia e ao mesmo tempo me ensinava que aquilo também era família, independente de laços de sangue. Era por isso que apesar de tudo, eu me sentia segura e acolhida naquele lugar.
Adriano estava pesado, mais do que eu lembrava. Talvez não fosse o peso real, mas o peso simbólico daquele homem que sempre me pareceu tão inteiro, tão no controle, agora completamente entregue à própria fragilidade.
Passamos pelo corredor em silêncio, cada passo cuidadoso, desviando dos móveis, como se a casa tivesse encolhido.
Quando finalmente o deitamos na cama, Adriano soltou um suspiro longo, quase um lamento. Mundico ajeitou os travesseiros, colocou-o de lado, numa posição segura e deu dois tapinhas nos ombros dele.
— Ele vai dormir — disse, olhando para mim. — Amanhã vai acordar com dor de cabeça, mas vai acordar.
Assenti, incapaz de responder. Minhas mãos ainda tremiam. Meu corpo inteiro parecia vibrar num cansaço profundo, que não era apenas físico. Era como se cada nervo estivesse em alerta há horas, e agora começasse a ceder.
— Olhe, menina — Mundico observou — Vá se trocar também. Tá toda molhada.
Olhei para mim mesma pela primeira vez desde o banheiro. Meu vestido grudava no corpo, encharcado, frio. Os cabelos pingavam água no chão de madeira. Eu estava o retrato do caos que aquela noite tinha se tornado. Só então percebi que as pontas dos meus dedos estavam encolhidas de frio.
— Obrigada, Mundico — murmurei.


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