Entrar Via

A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 77

— Mundico, por que Adriano faz isso consigo mesmo? — perguntei sentada ao lado dele no degrau da varanda.

Ele não respondeu de imediato. Continuou olhando para frente, os olhos perdidos em algum ponto invisível no escuro, como quem revisita um lugar antigo. Passou a mão no bigode, respirou fundo, e só então falou:

— Hoje é o dia — sua voz era um lamento triste — O dia que ele mais odeia no ano.

Virei o rosto para ele, confusa.

— O dia de quê?

Mundico fechou os olhos por um instante, como se a lembrança também fosse dele. Naquele momento ouvimos o som de alguma ave noturna sobrevoando ao redor.

— Do aniversário da morte da dona Antonella… e do bebê.

Senti como se alguém tivesse puxado o chão sob meus pés. Mesmo sentada, tive a impressão de cair. O momento do acidente, dito em voz alta, ganhou um peso diferente. Algo dentro de mim também murchou, entristeceu. A bebedeira de Adriano aquela noite não foi apenas por causa da mulher ausente, da lembrança silenciosa que rondava os corredores da casa. Era uma data. Um marco. Uma ferida que se reabria todos os anos.

— Eu… eu não sabia — murmurei. — Sinto muito. De verdade mesmo.

— Ele nunca fala disso. Mas todo ano é igual. Chega esse dia, ele se fecha, manda o mundo embora… e bebe até cair. Como se quisesse apagar a própria existência por vinte e quatro horas.

Houve um rápido silêncio, em seguida Mundico voltou a falar.

— Naquele dia ele também morreu. — Mundico olhou pra mim. — Ele é um homem destruído, menina. — O homem que você conhece hoje é só o bagaço do que ele foi um dia. Às vezes eu até penso que...

Mundico se calou.

— O que Mundico? — perguntei ansiosa. — Fala, Mundico, por favor.

— Às vezes eu penso que talvez essa seja a forma mais rápida de ele querer se encontrar com dona Antonella.

Senti um frio na barriga. E a realidade veio com força. Será que Adriano estava usando a bebida de propósito, como uma maneira de acabar com a própria vida? Teria, ele, de fato, perdido a vontade de viver? E eu, o que poderia fazer para ajudá-lo?

Engoli em seco. As imagens da noite começaram a se reorganizar na minha cabeça: o barulho das garrafas, o corpo estendido no chão. Não era apenas um vício. Era um ritual de dor.

— Talvez ele se culpe — Mundico falou.

— Mas, por quê?

— Quem sabe porque não estava lá no momento que tudo aconteceu. Eu não sei. É o que penso.

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra. Uma parte de mim queria chorar. Outra queria gritar de impotência. E havia ainda uma terceira, silenciosa e amarga, que compreendia com uma clareza muito cruel o lugar que eu ocupava naquela história. Eu era tão insignificante na vida dele que talvez nem conseguisse ajudá-lo.

O vento noturno passou por nós, trazendo um arrepio que não vinha do frio. Fiquei olhando para o chão por um momento, sentindo algo se acomodar dentro de mim. Não era resignação. Era entendimento. Desses que doem mais do que a ignorância.

— Obrigada por me contar, Mundico — falei por fim.

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO