Acordei com uma sensação estranha. Fiquei alguns segundos olhando para o teto, ouvindo o canto dos pássaros. Respirei fundo e me levantei.
Desci para o café ainda meio sonolenta. A cozinha já estava viva: Quitéria mexia panelas como se regesse uma orquestra invisível, e Mundico estava encostado na bancada, tomando café forte em uma caneca esmaltada.
— Bom dia, Marja — Quitéria disse, sem virar o rosto. — Dormiu bem?
— Dormi — respondi, mesmo sem ter certeza se era verdade.
Mundico levantou os olhos para mim, avaliando meu rosto com aquele jeito atento de quem percebe mais do que pergunta.
— O patrão já saiu cedo — disse. — Foi ver umas coisas no pasto. Mas tá tudo bem. Hoje ele tava… normal.
Entendi o que ele quis dizer: mesmo depois do que aconteceu ontem, Adriano acordou bem. E apesar de tudo, pensei, ele era homem trabalhador, que honrava seus compromissos e não faltava com a palavra. Ele só precisava de ajuda para sair daquele abismo.
Tomei um café rápido e subi para cuidar de Cecília. Quando entrei, ela estava sentada na cama com o cabelo desgrenhado e os olhos grandes me observando em silêncio. Enquanto escovava seus dentes e ajeitava o vestido leve que ela gostava de usar pela manhã, percebi que Cecília estava nervosa. Estaria minha pequena também lembrando do acidente?
Naquela manhã fiz de tudo para acalmá-la. E por fim, deixei ela brincando no tapete com uma música baixa e suave tocando no aparelho de som.
Quando deixei o quarto dela, já estava lembrando que tinha algo importante para fazer. Entrei no meu quarto e fechei a porta com cuidado. O laptop estava sobre a mesa desde a noite anterior, esquecido em meio ao turbilhão dos acontecimentos. Aproximei-me como quem se aproxima de algo solene.
As provas finais. Era o último dia. O último prazo.
Sentei-me, liguei o computador e esperei a tela acender. Enquanto o sistema carregava, apoiei as mãos no colo e respirei fundo. Eram os últimos passos para poder receber o meu diploma.
Pensei na minha mãe. Pensei em mim mesma no passado estudando à noite com livros emprestados. Pensei em como aquele trabalho como babá, improvável e cheio de curvas, tinha me dado a chance de continuar.
Quando as questões apareceram na tela, o mundo ao redor desapareceu. Foram horas de concentração absoluta, de leitura cuidadosa, de respostas marcadas com o coração acelerado e a mente em alerta. Pedagogia não era apenas um curso para mim; era uma promessa. Cada questão respondida parecia um passo a mais para fora do passado e um passo em direção a algo que finalmente era meu.
O tempo passou sem que eu percebesse. O sol mudou de posição, a casa silenciou e voltou a se mover em ciclos que não me alcançavam. Reli tudo com atenção obsessiva, corrigi o que podia, conferi cada campo. Então, com um clique que pareceu mais solene do que deveria, enviei as respostas.
Fechei o laptop devagar. Já eram quase meio-dia.
Fiquei sentada por alguns segundos, olhando para a tela escura, sentindo um misto de exaustão e alívio que me deixou quase tonta. Era isso. Se aquelas notas fossem suficientes — e eu sabia que seriam —, eu finalmente receberia meu diploma de pedagoga e já poderia fazer a minha pós-graduação.
Levantei-me, ainda um pouco trêmula, e decidi descer para beber água. Talvez dividir aquela pequena vitória comigo mesma na varanda, respirando o ar quente da tarde. Abri a porta do quarto e comecei a descer as escadas.

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