Adriano veio descendo a escada. Rosto fechado, parecia aborrecido. Aborrecido ao extremo. Não olhava para mim. Seu olhar estava fixado na porta da frente.
Parei ao pé da escada e esperei. Meu corpo inteiro estava tenso, como uma corda esticada demais.
— Adriano… — comecei. — Eu preciso falar com você.
Ele mal diminuiu o passo. E também não me olhou.
— Agora não, Marja. Tenho um compromisso que não pode esperar.
Era mentira. Eu sabia. Ele também sabia que eu sabia. Era fuga, pura e simples.
— Preciso falar agora!
Falei com tanta ousadia, tanta autoridade que ele parou e me encarou. Talvez houvesse estranhado o modo como eu o abordara.
— Já lhe disse que não posso falar agora — ele falou alto e lento, quase separando as sílabas das palavras.
— Por favor! — implorei, falando mais baixo. — Podemos falar no seu escritório?
— Já disse que estou com pressa. Você não me ouviu?
Adriano falou grosso e continuou andando em direção à porta de saída da casa. Senti o sangue esquentar meu rosto. Era um calor de raiva. Então eu o desafiei:
— Está com pressa? Pressa de continuar fingindo que está tudo bem?
Ele parou. Virou-se para mim, os olhos duros.
— Do que é que você está falando? Pode falar mais claro? — perguntou num tom frio e ácido.
Respirei fundo. Se fosse falar, teria que falar tudo.
— Você quer se matar? — As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las. — Existem maneiras mais rápidas de cometer suicídio.
Assim que disse aquilo me arrependi, mas já era tarde. Já tinha falado. Às vezes eu era assim: o que tinha de tímida, tinha de impulsiva no falar.
Adriano me olhou diferente; olhar gelado. Mordeu o lábio e deu um passo à frente. Parecia furioso. Talvez não estivesse acreditando que eu fosse capaz de lhe dizer tudo aquilo.
— Está esquecendo que ainda tem uma filha para criar? — continuei o meu discurso sem ter ideia aonde aquilo tudo ia dar. — A sua filha não tem mais ninguém.
O rosto dele se fechou ainda mais. Ele deu mais um passo em minha direção.
— Já chega! Não sou criança; não quero ouvir sermões — ele alterou a voz.
Sem perceber, comecei a falar alto também:
— Você não vê que precisa de ajuda? Ajuda de um profissional? O álcool está destruindo você! Se não quer ajudar a si mesmo, então pense na Cecília.
E por falar nela, olhei para cima e vi Cecília no topo da escada. Ela segurava a boneca de pano por um braço e estava atenta à nossa conversa. Seus olhos grandes passeavam de mim para Adriano como se tentasse entender o que estava acontecendo.
— Volte para o quarto, meu bem. Eu já estou indo— falei de maneira carinhosa.
Adriano, no entanto, parecia nem ter notado a presença da filha, pois continuava falando alto comigo. Voltei minha atenção para ele, quando o ouvi dizer:
— Olha, Marja, meu dia está péssimo. Bati o carro e estou com uma dor de cabeça infernal. Vamos acabar com essa conversa que não está fazendo o menor sentido e que também não é da sua conta.


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