Procuramos Cecília por todos os lugares e nada; nenhum sinal, nenhuma pista de onde ela poderia estar. A lógica dizia que ela não poderia simplesmente desaparecer. O coração dizia o contrário.
Entrei e saí várias vezes da casa, procurando, chamando, vasculhando os mesmos cômodos, achando que não tinha procurado o suficiente, que tinha deixado passar algo.
Numa dessas idas e vindas encontrei Mundico no corredor da sala.
— Mundico… — minha voz saiu fraca, quase infantil. — Ela não está em lugar nenhum.
Ele me encarou por um segundo que pareceu longo demais.
— O que vamos fazer? — perguntei, sentindo as palavras pesarem como pedras na língua.
Mundico levou a mão ao bolso, tirou o telefone e começou a discar sem dizer nada.
O telefone chamou duas vezes.
— Patrão? — Mundico disse, a voz firme demais para o que estava acontecendo.
Não consegui esperar. Arranquei o telefone da mão dele antes mesmo de perceber o movimento. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o aparelho cair.
— Adriano… — falei, e minha própria voz me assustou. Trêmula, quebrada, irreconhecível. — Volte, por favor. A Cecília… a Cecília desapareceu.
Ouvi a pergunta imediata:
— Desapareceu como?
Aquilo me atravessou como um golpe. Porque eu não tinha resposta.
— Eu não sei — disse, sentindo os olhos arderem. — Eu não sei. Ela simplesmente… não está. Não está em lugar algum.
— Marja, você é responsável por ela. Procure a minha filha. Procure e a encontre — as palavras dele saíram como uma ameaça.
E então ele desligou.
Fiquei olhando para o telefone na minha mão como se ele pudesse me dizer o que fazer agora. Como se pudesse me devolver o controle de alguma coisa.
Os minutos seguintes foram um borrão. Quitéria continuava procurando por Cecilia, Benedita também. Procuramos pela casa inteira. O quintal. A varanda. O jardim. Gritei o nome dela até sentir a garganta arder.
Lembrei da discussão com Adriano. Lembrei do olhar da minha garotinha no topo da escada. O pior de tudo foi que eu nem vi quando ela passou por nós, se é que passou. Não prestei atenção nela, não me importei com seus sentimentos pois estava focada demais em Adriano.
O som de um motor rompendo o ar me fez erguer a cabeça. Um carro surgia levantando poeira pelas terras da fazenda, rápido demais para ser prudente. Meu coração disparou ainda mais.
Adriano surgiu como uma força da natureza descontrolada. O carro mal parou e ele saltou, deixando a porta aberta, o motor ainda ligado.
— Onde ela está? — perguntou, já caminhando em nossa direção.
— Não sabemos — respondi, sentindo minha voz falhar outra vez. — Ela sumiu. Não está na casa. Nem aqui perto.
O rosto dele mudou. Não foi raiva. Não foi frieza. Foi algo pior: medo cru, nu, exposto. Ele passou a mão pelos cabelos, respirou fundo, e começou a agir.
— Quando foi a última vez que alguém viu a Cecília? — perguntou.
Houve um burburinho de falas desconectadas entre os empregados. A verdade é que ninguém percebeu quando ela desapareceu.
Os olhos de Adriano se voltaram imediatamente para as terras abertas.
— Mundico — disse, num tom que não admitia discussão — chame todo mundo. Agora. Todos os empregados. Quero gente procurando em todo canto.
Mundico saiu correndo.
— Principalmente perto do rio — Adriano completou, a voz endurecendo. — Quero gente lá agora.
A palavra rio ecoou dentro de mim, como um sino, martelando, insistente. Senti um frio subir pela espinha, mesmo com o calor pesado da tarde. Minha mente começou a criar imagens que eu não queria ver. Água escura. Silêncio. Uma menina pequena demais, quieta demais...
No meu íntimo, o pensamento sombrio insistia, cruel e persistente: e se o rio já a tivesse levado?
Se Cecília caísse nas águas profundas do rio ela não gritaria, não chamaria atenção. Ninguém nunca saberia.
Imaginei a água fria, o corpo pequeno, o silêncio absoluto. Imaginei Cecília afundando sem um som, sem um pedido de socorro, fiel ao seu jeito calado até o fim.
Meu Deus, como eu estava pensando besteira!
Naquele momento Adriano se virou para mim. Ele me encarou por um instante longo, pesado, me culpando. Depois desviou o olhar e voltou a dar ordens.
Homens começaram a se espalhar pelas terras, alguns a cavalo, outros a pé, chamando o nome da menina. As vozes se multiplicavam, ecoando como um coro desesperado.
— Cecília!
— Cecília!
Cada chamado que não recebia resposta era como uma facada nova no meu coração. Fiquei parada por um momento, sentindo o peso esmagador da culpa se instalar no peito. Se eu não tivesse falado alto com Adriano. Se eu tivesse parado a discussão. Se eu tivesse seguido a menina. Se eu tivesse sido adulta o suficiente para perceber o silêncio dela.
Tudo parecia tarde demais agora.
O céu começava a mudar de cor, um laranja pálido se espalhando lentamente, anunciando que o dia estava acabando. E a ideia de a noite cair antes de encontrarmos Cecília me apavorava ainda mais.
Levei a mão ao peito, tentando respirar. Mas o medo já tinha criado raízes.
Comecei a caminhar pela trilha estreita que levava ao rio. O cheiro de terra úmida subia com o calor do fim de tarde. Cada passo parecia mais pesado do que deveria. Eu chamava por ela com cuidado.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO