Margô me levou de volta pro salão como quem arrasta uma presa.
O braço dela entrelaçado ao meu não era um gesto carinhoso. Era uma corrente.
— Vou te apresentar algumas pessoas importantes — ela disse, sorrindo pra um casal que passava. — Pessoas que você vai precisar conhecer se quiser sobreviver nesse mundo.
Sobreviver. A escolha de palavra não foi acidental.
— Olha, é o Roberto Figueiredo — Margô acenou pra um homem de uns sessenta anos, cabelos grisalhos, cara fechada. — Ele é o maior distribuidor de cosméticos do Sul. Muito influente.
O tal Roberto se aproximou, me analisando com aqueles olhos de quem avalia gado.
— Margarete, querida. — Ele beijou a mão dela, depois me olhou. — E quem é essa... criatura?
Criatura. Esses ricos estavam ficando cada dia mais criativos pra humilhar pobre.
— Isabela, a noiva do Vinícius — Margô respondeu, a voz suave mas firme.
Roberto piscou várias vezes, nitidamente incrédulo.
— A noiva? — Ele soltou uma risada curta. — Achei que você estava brincando quando me ligou mais cedo.
— Não estava.
— Mas... — Ele me olhou de novo, sem nem tentar disfarçar. — Ela não é exatamente o tipo dele, né?
— O Vinícius anda fazendo escolhas interessantes — Margô disse, apertando meu braço de leve. — Mas família é família. Não é, Isabela?
Engoli seco, assentindo com a cabeça.
— Bem... — Roberto ainda me encarava. — Espero que você saiba no que está se metendo, mocinha. Esse mundo aqui não é pra qualquer um.
Margô deu uma risada elegante, puxando minha mão.
— Vamos, querida. Tem mais gente que você precisa conhecer.
Nos afastamos. Meu rosto queimava.
— Aquela ali é a Fernanda — Margô apontou discretamente pra uma mulher de uns quarenta anos, magra, loira, vestido preto justíssimo. — Diretora de marketing da Lotus. Trabalha com o Vinícius há anos.
Fernanda nos viu e veio até nós, o sorriso exagerado.
— Margô! Você está deslumbrante, como sempre!
— Vim conhecer a noiva do meu filho — Margô disse, me puxando pra frente. — Isabela, essa é a Fernanda.
Fernanda me olhou. O sorriso vacilou por meio segundo.
Ela estendeu a mão, sem jeito.
— Prazer.
Apertei a mão dela.
— Então... você e o Vinícius... — Fernanda procurou as palavras. — Como vocês se conheceram?
— Ela é babá do Thales — Margô respondeu por mim.
A expressão de Fernanda mudou completamente. Os olhos arregalaram.
— Babá? — Ela olhou pra Margô, procurando confirmação. — Você está falando sério?
— Seríssimo — Margô sorriu. — Nosso Vinícius sempre foi... imprevisível.
Fernanda soltou uma risada nervosa.
— Com certeza. — Ela me olhou de novo, agora com pena. Pena mesmo. — Bem, boa sorte, querida. Você vai precisar.
E saiu logo em seguida.
Fiquei ali parada, sentindo o estômago revirar.
— Viu? — Margô sussurrou. — Essa é a Fernanda. Boa profissional, mas cobra muito. E adora fofoca. Amanhã a empresa inteira vai saber sobre você.
— Por que está fazendo isso?
— Porque você precisa saber com quem está lidando — Margô respondeu, a voz fria. — Se vai entrar no nosso mundo, precisa aprender as regras.
Foi quando vi Márcio e Karina se aproximando.
Márcio parecia ser a única pessoa genuinamente feliz daquela festa. Karina vinha atrás, e sua expressão era o exato oposto. Estava com um vestido vermelho perfeito.
— Margarete! — Márcio abriu os braços. — Que bom te ver!
— Márcio, querido — Margô beijou o rosto dele. — Como você está?
— Bem, bem. Apesar do que aconteceu na Lotus. — Ele olhou pra mim, o sorriso aumentando. — Oi, Isabela. Que coisa boa finalmente ver a noiva!
Forcei um sorriso.

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