Entrei na sala de reunião preparado pra enfrentar uma guerra. O semblante de todos os presentes não me permitiam pensar diferente.
Márcio estava ao meu lado, o único aliado que eu tinha naquele lugar, e levei uns dois segundos pra assimilar o que estava me esperando.
Meu pai estava sentado na ponta da mesa.
No meu lugar. O recado era claro. Uma ameaça nada velada: seus dias estão contados.
Eduardo Rodrigues ocupava aquela cadeira com a naturalidade de quem nunca tinha saído dela. A postura impecável, a expressão neutra, o olhar que sempre deixou claro que eu era insuficiente. Incompetente. Uma vergonha pro nome da família e pra história da Lotus.
À sua direita, Valéria me encarava com um sorriso maldoso e satisfeito. Marina estava ao fundo, os ombros tensos. Karina mal me olhava. Estava quieta, provavelmente brava pelo que tinha acontecido no noivado. Depois que deixei ela falando sozinha pra correr atrás de Isabela.
Ela que se foda.
Os outros acionistas espalhados, todos evitando me olhar de frente.
Que clima delicioso. Nada hostil. Mais uma reunião saudável pra minha lista de reuniões desde que comecei a ser CEO desta empresa.
Márcio encostou levemente no meu braço, sem dizer nada. Mas eu entendi o recado: não recue agora.
Entrei e fui até o outro lado da mesa. Não havia cadeira disponível no lugar onde eu deveria estar.
Meu pai não se levantou. Não fiquei surpreso.
— Já que todos estão aqui — Eduardo abriu a reunião —, podemos começar.
Apertei os dentes e fui ajeitar a gravata. Essa maldita gravata que insistia em me sufocar ainda mais. Me sentia preso, encurralado.
— Todos aqui já sabem o quanto lutei para construir esse império. — A voz do meu pai era calma, o mesmo tom de voz que usava pra falar comigo e pra despedir pessoas. Totalmente impessoal. — Eu e Alberto nos esforçamos para que a Lotus fosse uma das marcas mais fortes da América Latina.
Percebi que Valéria mudou. Por uma fração de segundo, deixou a armadura de lado. O queixo desceu levemente, os olhos perderam o foco. Era a primeira vez, em todo o tempo que eu a conhecia, que ela parecia humana. Devia ser um peso específico, o nome do falecido marido pronunciado assim, de repente.
Meu pai continuou:
— Infelizmente, o presidente atual não tem conseguido fazer o básico. Não tem conseguido sustentar uma empresa que, sozinha, se bastava.
— Pai.
Ele nem piscou.
— Não estou aqui como seu pai. Estou aqui como fundador da Lotus, e pretendo lutar por ela.
— Eduardo. — Firmei a voz. — Você está equivocado.
Alguém na mesa prendeu a respiração. Eu ignorei.
— De acordo com as projeções, a Lotus conseguiria andar pelas próprias pernas por mais cinco anos. Mas depois disso, perderia espaço progressivamente até a falência. Não porque a gestão atual falhou. Mas porque o modelo original falhou. A Lotus foi criada para uma mulher que compra importado. Esse público não é nosso. E os preços que praticamos excluem maior parte do público nacional.

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