O trânsito estava um inferno. Congestionamento. Uma merda. E minha cabeça não parava.
Márcio tinha ligado quinze minutos atrás e, como sempre, não era pra me dar boas notícias. A bomba da vez era que a polícia estava na Lotus com novas informações sobre o incêndio no laboratório. Foi só isso que ele disse antes de desligar, porque Márcio não é capaz de dar uma notícia direito.
Acelerei na primeira abertura que apareceu na faixa da esquerda.
No laboratório. Alguém tinha ateado fogo no laboratório da Lotus. No coração da empresa, no lugar onde a gente desenvolvia a fórmula da nova fragrância — e até agora a polícia não tinha achado nada conclusivo. Eu precisava saber o que tinham descoberto. Precisava colocar um nome nessa história.
Mas minha cabeça não ficou no laboratório por muito tempo.
Isabela apareceu, do nada, como sempre.
Não fiz nada pra isso. Ela simplesmente estava lá, ocupando espaço nos meus pensamentos sem pedir licença. Eu estava pensando no incêndio, no Márcio, na polícia, e de repente me vi lembrando do biquíni de oncinha, das curvas dela na beira da piscina, da água escorrendo pelo pescoço quando ela jogou o cabelo pro lado.
Apertei o volante com força.
Absurdo. Era absurdo que eu ainda estivesse pensando nisso. Tinha sonhado com ela — um sonho que eu preferia não ter tido, mas que o meu subconsciente tratou de fabricar com riqueza de detalhes que me envergonhava admitir. E depois, como se o sonho da noite anterior não bastasse, cheguei em casa e dei de cara com ela de biquíni na piscina do meu quintal. Como se o universo tivesse decidido testar o limite do meu autocontrole.
Senti o corpo responder à lembrança.
Merda.
Apertei mais o volante, como se isso resolvesse alguma coisa. O carro da minha frente freou e eu freei junto, quase no automático.
Era Isabela. Por que Isabela estava sempre na minha mente? Que porra tava acontecendo? Por que a mera imagem dela de biquíni me deixava tão afetado?
Ela ter se agachado pra pegar a toalha também não tinha ajudado. Eu não deveria ter olhado, mas, quando dei por mim, já era tarde demais. Do jeito que ela abaixou e empinou a bunda, aquele biquíni minúsculo entrou todo, e eu consegui ver mais do que deveria. Agora, além de ter a lembrança da sensação da bunda dela encaixada no meu pau, sentada em cima dele, eu tinha uma imagem pra reforçar tudo isso.
A minha noiva de mentira não era bonita, longe disso, e o corpo dela não era escultural. Era bonito, porra, era muito bonito, sim. Mas nada que eu já não tivesse visto.
Então por que eu ficava desse jeito toda vez que pensava nela? Não fazia o menor sentido, porque ela era objetivamente feia. Eu tinha crescido rodeado de mulheres lindas. Sabia muito bem o que era beleza.
Mas o meu corpo claramente não estava ligando pra isso.
Márcio estava sentado na poltrona de couro do meu escritório com a postura de quem não tinha nenhuma preocupação no mundo. Dois policiais ficaram em pé, aguardando eu entrar. Cumprimentei com um aceno de cabeça e fui direto ao ponto:
— O que vocês encontraram?
O mais velho dos dois, um homem de barba grisalha, abriu a pasta e colocou sobre minha mesa.
— Doutor Vinícius, analisamos todas as imagens das câmeras de segurança da Lotus e das câmeras externas nas ruas próximas à empresa. Infelizmente, não conseguimos identificar o responsável pelo incêndio.
Fiquei em silêncio por vários segundos. Incrédulo.
— Não conseguiram identificar, como assim? Mas eu tenho câmeras em cada andar do prédio. Tenho câmeras na entrada, na saída, no estacionamento, no corredor do laboratório…
— Nós analisamos todas. — O policial não perdeu a calma. — O indivíduo tinha conhecimento dos pontos cegos do sistema. Nas imagens em que aparece, está com moletom e touca cobrindo o rosto por completo. Não temos nenhuma característica física utilizável.
Olhei pra pasta aberta em cima da mesa. Imagens granuladas, uma figura escura que podia ser qualquer pessoa.
— Então a pessoa entrou no laboratório, ateou fogo, e saiu sem deixar nenhum rastro identificável?
— É nossa conclusão por ora. A investigação continua aberta.
Continuamos por mais alguns minutos. Eles disseram que iam entrar em contato se houvesse novidades. Eu disse que esperava que fosse logo. Quando saíram, fechei a porta com força.
Márcio esperou até o som dos passos sumir no corredor.
— Calma, Vini.
— Calma? — Comecei a andar de um lado pro outro. — Alguém botou fogo no meu laboratório, Márcio. E vai sair impune?
— Vamos descobrir quem foi, relaxa.
— Relaxa??? Sério?
— Uma hora a verdade vai aparecer.
Revirei os olhos e continuei falando:
— Câmeras em toda parte deste prédio e não conseguiram identificar ninguém. Como é que isso acontece?
Márcio se levantou da poltrona e veio até mim.
— Porque só pode ser alguém que conhecia muito bem a empresa. Que sabia exatamente onde eram os pontos cegos, os horários, os corredores que a câmera não cobria direito. Não foi um estranho.

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