Nove anos antes…
Eduardo
Um ano.
Um maldito ano desde aquela manhã em que tudo desabou.
Eduardo observava pela janela do avião enquanto o céu cinzento de São Paulo se aproximava.
A cidade o engolia de volta - o concreto, o trânsito, o nome da família Braga estampado em cada edifício que ele preferia nunca mais ver.
Um ano desde que o avô o arrancara do hotel, ainda tonto, confuso, com o gosto dela na boca.
Vivian.
Lembrar o nome ainda doía.
A cena voltava inteira - o som seco da porta batendo, o olhar gelado do avô, o silêncio que pesava mais do que qualquer grito.
Ele não teve tempo de explicar, nem de se despedir.
Foi empurrado para dentro de um carro, com as ordens frias que regiam todos os movimentos da família:
-Isso termina aqui, Eduardo.
Ele acreditou que o velho fosse atrás dela - e foi exatamente isso que o apavorou.
A ideia de que Vivian pudesse ser machucada por causa dele.
Mas o golpe que veio depois foi ainda pior.
Dez milhões.
O preço de tudo o que viveram.
O preço do que ele acreditava ser amor.
Quando Cristina, a madrasta, o procurou dias depois, com aquele olhar falso de pena, ele ainda achava que era só mais uma manobra de controle.
Mas as palavras dela foram precisas, afiadas, impossíveis de esquecer:
- Você devia agradecer, Eduardo. Ela foi mais esperta do que eu imaginei. Aceitou o dinheiro pra sumir - e sumiu mesmo. Veja pelo lado bom: ao menos escolheu o valor certo.
Naquele instante, algo dentro dele se partiu de vez.
Vivian não era o tipo de pessoa que faria isso.
Pelo menos era o que ele acreditava.
Mas as “provas” estavam lá.
E o silêncio dela também.
Ele esperou uma mensagem. Qualquer coisa.
Nada veio.
Então aprendeu da pior forma: amor era só uma palavra bonita que as pessoas usavam antes de vender o que sentiam.
Agora, de volta ao país, Eduardo usava o mesmo terno impecável, a mesma expressão controlada - mas não era mais o mesmo homem.
O intercâmbio fora só uma fuga disfarçada de oportunidade: um castigo dourado imposto pelo avô, que chamava de “amadurecimento”.
Maduro, sim.
Frio também.
E vazio.
A primeira coisa que fez ao voltar foi retomar a rotina.
As aulas na universidade. O trabalho na empresa da família. Os compromissos sociais.
Tudo funcionava como um relógio caro - bonito por fora, vazio por dentro.
Um ano havia se passado desde aquela manhã no hotel.
Desde que o avô o arrancara de lá com promessas de “resolver a confusão”.
Eduardo jurou a si mesmo que voltaria, que explicaria tudo, que protegeria Vivian.
Mas, quando soube que ela aceitara o dinheiro para desaparecer, algo dentro dele morreu.
Não era amor o que restava - era algo mais amargo, mais corrosivo.
Orgulho ferido. Decepção. Raiva.
Na cabeça dele, ela tinha um preço.
E tinha aceitado vendê-lo.
Na primeira semana de volta à universidade, o destino decidiu testá-lo.
Ela estava lá.
Vivian.
Ele a viu de longe, no pátio, rindo com uma colega.
O mesmo riso que ele achava conhecer.
A mesma expressão suave que o fazia esquecer o mundo.
Por um segundo, o tempo se partiu em dois: o antes e o agora.
Depois veio o golpe - ela o viu também.
Vivian congelou, os olhos arregalando-se por um instante antes de desviar.
Virou o rosto e continuou andando, sem sequer hesitar.
Como se ele fosse nada.
A raiva queimou o estômago dele.
Tão rápido, tão quente, que precisou cerrar os punhos para conter o impulso de ir atrás dela.
“Tudo bem”, pensou.
“É melhor assim.”
Mas a mentira soou vazia até para ele mesmo.
Nos dias seguintes, fingiu que não se importava.
Fingiu que o coração não acelerava quando ela passava.
Mas cada silêncio dela era uma provocação; cada desvio de olhar, um lembrete do quanto ele tinha sido idiota.
E então veio o golpe final.
Uma tarde qualquer, numa reunião com o banco de investimentos parceiro do grupo Braga.
Ela estava lá.
Profissional. Impecável.
Parecia perfeitamente bem sem ele - e isso o destruiu mais do que qualquer vingança poderia.
Vivian continuava ali - sempre ali - como uma sombra que ele não conseguia apagar.
Não importava o quanto tentasse ignorá-la, ela estava em todos os lugares:
no corredor da universidade, no café que ele frequentava, até nas conversas que ele não queria ouvir.
Ela passava por ele com a cabeça erguida, o semblante firme demais, como se nada tivesse acontecido.
Como se ele nunca tivesse importado.
E isso o consumia.
Cada vez que a via ao lado de Elisa, o olhar dela se transformava em pedra.
E ele notava - Deus, como notava.
Fingia indiferença, mas parte dele se alimentava daquilo.
Era a única reação que ainda conseguia arrancar dela.
O único sinal de que, em algum canto, ainda o odiava tanto quanto ele achava odiá-la.
Até que, numa tarde qualquer, algo fugiu do controle.
Ela desviou o olhar, rápido demais, mas ele viu.
Os olhos dela brilharam, e uma lágrima ameaçou cair antes que ela piscasse e a engolisse de volta.
E, por um instante, o chão pareceu ceder sob os pés dele.
Eduardo bebeu mais do que devia.
O gosto amargo do uísque já não queimava - só anestesiava.
Ficou deitado, olhando o teto, por tempo demais.
Tentando entender em que ponto tudo havia desandado.
Não sabia mais o que era verdade.
Se ela o amou.
Se o traiu.
Se o avô ou Cristina puxaram as cordas enquanto ele acreditava ter algum controle.
Mas, no fim, concluiu que nada disso mudava o fato principal:
ele estava sozinho.
E ela também.
A diferença era que Vivian parecia lidar melhor com a solidão - como se tivesse aprendido a respirar dentro dela, enquanto ele ainda se afogava tentando entender o que restou.
Com o tempo, Elisa se tornou presença constante.
As pessoas começaram a comentar - e ele deixou.
Não porque se importasse, mas porque, de certa forma, ela era o escudo perfeito.
Com Elisa ao lado, ele não precisava lidar com o passado.
Não precisava encarar a dor de ver Vivian em todos os lugares.
E, no fundo, sabia que Elisa entendia isso.
Elisa podia ser tudo, menos ingênua.
Mas ao menos não mentia sobre o que queria - e isso a tornava menos repulsiva do que todos os outros à volta.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor