Eduardo
O primeiro sinal de consciência foi uma dor surda e profunda, como se algo vital tivesse sido arrancado de seu estômago. Eduardo Braga não abriu os olhos imediatamente; ele sentiu a existência primeiro. Um peso pesado em seus membros, um gosto metálico e enferrujado na boca, a sensação estranha e invasiva de tubos conectados a seu corpo. E o cheiro. Aquele cheiro antisséptico e impessoal de hospital que perfumava o ar com o fantasma da doença e da mortalidade.
Um zumbido baixo preenchia seus ouvidos, uma sinfonia de monitores com batidas cardíacas eletrônicas e o distante murmúrio de vozes do corredor. Ele estava vivo. A constatação não veio com alívio, mas com uma profunda e ossuda exaustão. Sua mente, lenta e embaralhada pelos sedativos, começou a remontar os fragmentos.
A visão de Vivian e o pintor. A dor aguda, uma faca torcida em suas entranhas. A visão do sangue escarlate e chocante manchando suas mãos, o pânico nos olhos da comissária enquanto ele desabava. O som de vozes alarmadas, gritando por ajuda. A escuridão que o engoliu enquanto era carregado para longe.
Vivian.
O nome ecoou em seu ser como um chamado primal, um farol em meio à névoa de sua própria fraqueza. Onde ela estava? Com um esforço hercúleo, como se levantar um mundo, Eduardo abriu os olhos.
A luz branca e clínica do quarto o atingiu, fazendo-o piscar rapidamente. Ele estava em um ambiente privativo, limpo, silencioso e terrivelmente solitário. Suas pálpebras pesadas se ajustaram, escaneando o espaço. À sua direita, uma poltrona de couro vazia. Foi para lá que seu olhar foi puxado primeiro, com uma força desesperançosa. Ele esperava vê-la ali, talvez dormindo, talvez lendo, com aquela expressão de preocupação teimosa que ele conhecia tão bem.
A poltrona estava vazia.
Uma pontada de decepção mais afiada que qualquer dor física cortou-o. Ele a havia perdido. Novamente. E desta vez, a culpa era inteiramente sua. Ele havia se arrastado de volta à vida, mas para o quê? Para um mundo onde ela não estava ao seu lado? A vastidão desse vazio parecia mais aterrorizante do que a escuridão da inconsciência.
Um movimento à sua esquerda fez seu coração dar um salto frágil. Ele virou a cabeça, uma tarefa dolorosa que exigiu cada grama de sua força restante.
Sentado em uma cadeira rígida, não na poltrona confortável, estava seu avô, Gilbert Braga.
A visão foi tão inesperada que por um momento Eduardo duvidou de sua própria lucidez. Gilbert Braga, o patriarca de postura impecável, o homem que comandava impérios com um aceno de cabeça, estava desarrumado. Seu terno caro estava levemente amarrotado, a gravata solta, e os olhos, sempre tão penetrantes e frios, estavam vermelhos e com sombras escuras de cansaço sob eles. Ele segurava as mãos firmemente entrelaçadas no colo, os nós dos dedos brancos. Ele parecia... velho. E genuinamente preocupado.
- Garoto? - a voz de Gilbert era áspera, carregada de uma emoção que Eduardo nunca ouvira. - Você está acordado.
Eduardo tentou falar, mas sua garganta estava seca e raspou, produzindo apenas um som rouco. Ele fez um gesto fraco com a mão que não tinha soro.
Gilbert entendeu imediatamente. Com uma solicitude que era estranha vindo dele, pegou um copo de água com um canudo da mesa de cabeceira e o aproximou dos lábios de Eduardo.
O líquido fresco escorrendo pela garganta foi um alívio quase divino. Eduardo bebeu com pequenos goles, sentindo a vida retornando lentamente ao seu corpo.
- Devagar - o avô orientou, sua voz suavizando-se em um tom que era quase paternal.
Quando Eduardo recostou a cabeça no travesseiro, ofegante, seus olhos encontraram os de Gilbert. O silêncio que se instalou entre eles era espesso, carregado de décadas de expectativas não ditas, decepções e um amor complicado e severo.
- O médico disse que você teve uma hemorragia digestiva severa - Gilbert falou, seu tom voltando gradualmente ao seu habitual controle. - Uma úlcera perfurada. Você poderia ter morrido, Eduardo.
A palavra "morrido" pairou no ar, pesada e final. Eduardo a absorveu. Ele havia chegado perto. Mais perto do que jamais imaginara. E a única coisa que importava no limiar entre a vida e a morte não tinha sido seu império, seu legado ou sua fortuna. Tinha sido o rosto de Vivian. A lembrança do toque dela. O arrependimento amargo e total de tê-la deixado ir.
- Onde... - a voz de Eduardo saiu como um sussurro áspero. - Onde está a Vivian?
A pergunta simples pairou na sala. Gilbert não respondeu imediatamente. Ele estudou o rosto do neto, seus olhos escaneando a urgência genuína, a vulnerabilidade crua ali.
- Ela não está aqui - ele disse finalmente, sua voz neutra. Ela não está aqui. As palavras ecoaram no vazio dentro de Eduardo. Ele fechou os olhos, uma onda de fraqueza e desespero lavando sobre ele. Ele sabia, mas tinha esperanças. Por que viria? Ele não havia dado a ela nenhum motivo para se importar.
- Ela... ela está bem? - ele perguntou, abrindo os olhos novamente, persistindo.
Gilbert pareceu surpreso com a pergunta, mas não a ignorou. - Suponho que sim, fisicamente. Não tenho motivo para pensar o contrário.
Gilbert Braga soltou um longo e lento suspiro. Ele desviou o olhar de Eduardo e olhou para as mãos envelhecidas e marcadas no colo. Quando ele falou novamente, sua voz era diferente. Menos afiada, mais contemplativa.
- Eu também quase perdi você, Eduardo - ele admitiu, a admissão saindo com relutância. - Ver você naquela maca, pálido como um fantasma... - Ele balançou a cabeça, como se para afastar a memória. - Eu passei a vida construindo este império para você. Para nossa família. Para nosso legado. Achei que estava fazendo o certo. Protegendo você de... distrações. De pessoas que poderiam se aproveitar de você.
Ele ergueu os olhos, e Eduardo viu algo que nunca tinha visto antes nos olhos de seu avô: um lampejo de arrependimento.
- Talvez... - Gilbert hesitou, escolhendo suas palavras com cuidado, - ...talvez eu tenha confundido o que era melhor para os negócios com o que era melhor para você, meu filho.
Era a coisa mais próxima de um pedido de desculpas que Eduardo já ouvira de seus lábios. Não era um pedido de desculpas completo, não era uma admissão total de culpa, mas era um começo. Uma rachadura na armadura de aço do velho homem.
- Vivian não é uma distração, vovô - Eduardo sussurrou, sua força diminuindo, mas sua convicção inabalável. - Ela é meu porto seguro. Ela sempre foi.
Gilbert simplesmente assentiu, um gesto lento e pensativo. - Você precisa descansar agora. Recuperar suas forças. - Ele se levantou, endireitando os ombros, a máscara do patriarca reassentando-se, mas não completamente. A preocupação ainda estava lá, nos cantos de seus olhos. - Nós... falaremos mais sobre isso quando você estiver mais forte.
Ele tocou levemente o ombro de Eduardo, um gesto estranho e desajeitado de afeto, antes de se virar e sair do quarto, deixando Eduardo sozinho com o zumbido dos monitores e o nascer do sol.
Sozinho, Eduardo deixou a exaustão envolvê-lo, mas desta vez era diferente. O vazio ainda estava lá, mas não era mais um vazio de desesperança. Era um vazio que clamava para ser preenchido. Um espaço limpo e aberto para um novo começo.
Ele havia enfrentado a morte e a havia encarado. Ele havia enfrentado seu avô e declarou sua independência. Agora restava a batalha mais importante de todas: conquistar o coração da mulher que ele sempre amou.
Enquanto a escuridão do sono o levava novamente, não foi o medo ou a dor que o acompanhou, mas uma determinação recém-forjada, brilhando em seu peito como o sol da manhã. Ele viveria. E viveria por si mesmo. Por Vivian.
A jornada de volta para ela começava agora, naquele leito de hospital, com o som de seu próprio coração batendo, um ritmo constante e promissor contra o silêncio. A ausência dela do quarto não era mais uma rejeição, mas um ponto de partida. Ele encontraria uma maneira de alcançá-la. Ele precisava encontrar uma maneira.

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