Eduardo
A escuridão do sono sedado se dissipou lentamente, não como um despertar abrupto, mas como uma maré recuando, revelando a costa da consciência em pedaços desconexos.
A dor foi a primeira coisa que ele sentiu - uma presença surda, latejante, profunda. O lembrete mais físico possível de sua própria fragilidade.
A segunda coisa foi o calor. Um calor diferente do artificial do hospital. Um calor vivo, humano, que parecia irradiar de um ponto específico à sua direita.
Eduardo abriu os olhos, as pálpebras pesadas, e o mundo levou alguns segundos para se ajustar. A luz da tarde entrava pela janela, dourada e suave, transformando o branco do quarto em tons quentes e irreais.
E então ele a viu.
Vivian.
Por um instante, achou que fosse mais um delírio dos sedativos - uma miragem criada por um cérebro faminto por redenção. Mas não. Ela estava ali.
Sentada na poltrona de couro que antes estivera vazia. O corpo ereto, o rosto voltado para ele. E aqueles olhos - os mesmos que ele conhecia desde a infância, agora mais maduros, mais duros, mas ainda capazes de atingi-lo com uma força que nada no mundo igualava.
Ele não disse nada. Apenas a fitou, bebendo a visão dela como um homem no deserto finalmente encontrando água. Ela estava linda. Mais linda do que em qualquer um dos sonhos que o perseguiram durante sua enfermidade. Havia uma maturidade em seus traços, uma seriedade que não estava lá antes, e sim, um cansaço ao redor dos olhos que revelavam noites sem dormir e fardos carregados sozinha. Mas, para ele, ela era a perfeição.
- Você está acordado. - A voz dela foi baixa, quase um sussurro. Um som suave, mas que atravessou o ar como uma lâmina.
Eduardo tentou sorrir. O esforço foi pequeno, mas pareceu hercúleo. - Parece que sim - murmurou, a voz áspera, seca.
Tentou se mover, ajeitar o corpo no travesseiro, e a dor explodiu. Um gemido lhe escapou, e os punhos se cerraram instintivamente.
Vivian se inclinou para frente, uma mão se estendendo antes de recuar, hesitante. A preocupação em seu rosto se aprofundou.
- Você... como você chegou a esse ponto, Eduardo? - ela perguntou, e havia uma incredulidade triste em sua voz. - Uma úlcera perfurada? Você quase…
- Morri? - ele completou, seu olhar sério. Ele a estudou, vendo a tensão em seus ombros, a maneira como ela mantinha uma distância física cuidadosa entre eles, mesmo estando tão perto. O coração dele doeu com aquilo, mas ele entendia. Ele a tinha feito erguer essas muralhas.
- Acho que foi você me deixar - ele disse, sua voz um pouco mais forte, carregada de uma emoção contida. - Aparentemente, meu corpo não soube mais como viver sem você.
Era uma tentativa de leveza, uma brasa do seu humor seco e antigo tentando acender, mas as palavras soaram pesadas e verdadeiras no ar entre eles. A expressão de Vivian não se alterou, mas ele viu um tremor em seu queixo antes que ela o controlasse.
- Isso não é engraçado - ela sussurrou.
- Eu não estou tentando ser engraçado - ele respondeu, sério. - Estou apenas... constatando um fato.
O silêncio que se seguiu foi denso. O som do monitor cardíaco, o leve sussurro do ar-condicionado, o barulho distante de um carrinho passando no corredor - tudo soava ampliado, como se o universo inteiro esperasse que um dos dois dissesse algo.
Para quebrar a tensão, para afastar o foco da dor emocional que era muito mais aguda que a física, ele se lembrou.
- Eu soube do incidente com a pintura… Como... como ficou isso? - Ele estava preocupado pois não conseguiu acompanhar como Camilo cumpriu seu acordo.
Vivian ergueu os olhos, parecendo um pouco surpresa com a pergunta. - Foi um mal-entendido - ela explicou, sua voz recuperando um pouco de sua cadência profissional habitual. - Um erro no transporte da obra.
Um mal-entendido.
Ele quase riu. Quantas vezes aquelas mesmas palavras poderiam ter resumido a história deles? Quantas vezes haviam se perdido um do outro não por falta de amor, mas por palavras não ditas, por orgulho, por interferências?
Eduardo voltou a olhá-la.
A frase ficou ali, entre eles, densa e simples. Não havia grandiosidade nela - apenas verdade. Uma verdade tardia, mas limpa.
- Eu não espero que você me perdoe - continuou, os olhos fixos nela. - Nem que acredite em mim. Não quero resposta, nem promessa. Só precisava que você soubesse. - Sua voz baixou, quase um sussurro. - Precisei dizer antes que fosse tarde demais.
Ele fechou os olhos por um instante, tentando controlar a respiração, o corpo já cedendo à exaustão.
- Você é a coisa mais importante que já me aconteceu. E eu... fui um idiota por tanto tempo, que quase deixei o mundo acabar sem te dizer isso.
O quarto se encheu de silêncio novamente.
Vivian continuava imóvel, o rosto molhado, os olhos fixos nele como se tentasse entender onde terminava o arrependimento e começava o amor.
Ela não respondeu. Nem um "eu te perdoo". Nem um "eu também te amo". Nem sequer um "saia da minha vida".
Apenas o silêncio. Um silêncio que, para Eduardo, foi mais eloquente que qualquer palavra.
Ele respirou fundo, recostou a cabeça no travesseiro, e o movimento lhe arrancou uma pontada. Mas ele não se importou. Tinha dito tudo. Tinha se despido de tudo.
Os analgésicos começaram a fazer efeito novamente, e ele sentiu o torpor se aproximar - não mais como uma ameaça, mas como um alívio.
Enquanto a consciência se desfazia, a última coisa que viu foi a silhueta de Vivian. Ela parecia feita de luz e sombra - metade lembrança, metade esperança.
E enquanto o mundo o puxava de volta à escuridão, Eduardo pensou que, se aquele fosse o fim, pelo menos tinha voltado a viver por um instante.
Pelo olhar dela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....