Eduardo
A luz do entardecer entrava suavemente pela janela do apartamento de Eduardo, a vida normal que ele estava lentamente reaprendendo a viver. Duas semanas haviam se passado desde sua alta do hospital, e sua rotina agora era uma versão pálida e dietética de sua antiga existência.
Seu pai, um homem usualmente mais presente em conferências internacionais do que na sala de estar, aparecia todos os dias pontualmente às sete da noite, carregando uma garrafa térmica de canja feita por seu chef pessoal. A cena era surreal: Pedro Braga, supervisionando o filho para garantir que ele comesse cada colher daquela sopa insossa como se o destino do mundo dependesse disso.
- Está tudo bem, pai. Já sou grande - Eduardo tentou protestar no terceiro dia.
- Pela sua última performance digestiva, discordo veementemente - Pedro retrucou, com a seriedade de um cirurgião cardíaco. - Agora come. Tem cenoura ralada. A nutricionista disse que cenoura é bom.
Gustavo, por sua vez, era uma presença constante e reconfortante. Sua lealdade se manifestava não em palavras melosas, mas em atos práticos: aparecia com filmes trash que jurou que iam "curar a alma através do mau gosto", ocupava a poltrona oposta em silêncio companheiro e, uma vez, passou três horas reorganizando a biblioteca de Eduardo "para dar um novo fluxo de energia ao ambiente".
- Você está parecendo meu feng shui pessoal - Eduardo comentou, deitado no sofá.
- Chama-se amizade, seu idiota. E para de reclamar, seu sistema de classificação por cor era criminoso.
Mas o ápice da comédia negra que sua vida havia se tornado foi a visita de Lucas.
Ele chegou como um furacão de otimismo inadequado, vestindo uma camisa havaiana que ofendia a visão mesmo em um dia nublado, carregando uma caixa de chás medicinais de cheiro duvidoso.
- Olá, paciente! - anunciou, abrindo os braços. - Trouxe o kit sobrevivência do pós-quase-morte! Chá de boldo, de camomila, de funcho... tudo que você precisa para não voltar a cuspir suas próprias entranhas.
Eduardo aceitou a caixa com um sorriso torto. - Obrigado, Lucas. Muito... prestativo.
- Prestativo nada! É puro interesse! Quem vai ser meu parceiro para descer caipirinhas e admirar a paisagem humana se você se transformar em um inválido gástrico? - Lucas se jogou na poltrona, examinando Eduardo com um olhar crítico. - Então me conta, como está a vida do menino Jesus? Já pode transformar água em Pepto-Bismol?
- Estou melhor, Lucas. Muito melhor.
- Bom, porque pelo seu histórico recente, a situação é tensa. Vamos recapitular: não bebe... - ele levantou um dedo.
- Por ordens médicas.
- Não fuma... - segundo dedo.
- Também por ordens médicas.
Lucas fez uma pausa dramática, ergueu um terceiro dedo e olhou em volta, baixando a voz para um sussurro conspiratório: - E, pelos meus cálculos, também não fode.
Eduardo gemeu e enterrou o rosto em uma almofada. - Deus, Lucas. Há limites.
- O que? Estou preocupado com o seu bem-estar integral! Um homem tem necessidades! - ele se inclinou para frente, sua brincadeira dando lugar a uma curiosidade genuína. - Falando nisso... e a Vivian? Como a minha deusa reagiu ao saber que o seu mortal favorito quase foi de arrasta?
O sorriso de Eduardo se apagou. A menção do nome dela doía com uma intensidade que rivalizava com a úlcera. - Ela... ela...
- Ela? - Lucas insistiu, seus olhos escaneando o rosto do amigo. - Nada de visita furtiva? Nenhum bilhete de "sinto muito por sua úlcera, beijos"?
- Ela esteve no hospital. Uma vez. - Eduardo olhou pela janela.
Lucas assobiou baixo. - Puta merda, Braga. Já me contaram que você se declarou no leito de morte. Que romântico e patético ao mesmo tempo. - Ele balançou a cabeça, mas sua expressão era de solidariedade. - Olha, ela está muito ocupada com a exposição nova da galeria... acho que ela está tão atolada de trabalho que mal tem tempo de respirar. Tá um fuá do cacete. Provavelmente por isso...
- Você não precisa mentir para me fazer sentir melhor, Lucas - Eduardo interrompeu, suave. - Eu sei que ela está me evitando. E ela tem todo o direito.
Lucas ficou em silêncio por um momento, depois soltou um suspiro. - Verdade. Mas, ei, pelo menos você está vivo para ser um idiota arrependido. É um progresso.
Apesar da dor, da fraqueza e da ausência de Vivian, uma determinação teimosa começou a crescer em Eduardo. Ele não podia mudar o passado, mas podia tentar construir um futuro diferente. E isso começava com gestos. Pequenos, significativos, e assustadoramente fora de seu repertório habitual.
Foi assim que, em uma tarde de quarta-feira, ainda pálido e alguns quilos mais magro, ele se encontrou parado do lado de fora da galeria, seu coração batendo em ritmo de samba-enredo no peito. No banco do passageiro de sua BMW repousavam duas coisas que representavam seu novo e desajeitado eu: um buquê impecável de tulipas vermelhas e uma pequena caixa embrulhada em papel prateado.
Enquanto esperava, uma realização o atingiu com a força de um pequeno raio: esta era a primeira vez. A primeira vez que ele esperava por ela. Durante anos, fora Vivian quem esperara. Nos corredores da escola, no fim do expediente, em casa, sua vida um eterno esperar por migalhas de sua atenção. O peso dessa inversão era imenso e profundamente constrangedora.
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente para afundar um navio. Vivian, presa no fogo cruzado, hesitou. Ela olhou para Eduardo, um pedido de desculpas silencioso em seus olhos.
Eduardo sentiu sua úlcera dar uma picada de advertência. Cada fibra do seu ser, gritava para ele dar um não redondo e levar a mulher que amava para jantar sozinho. Ele podia quase sentir o gosto do sangue na boca de tanto ranger os dentes. Mas então, ele se lembrou. Lembrou de promessas de mudança, de paciência, de não ser o homem impulsivo, arrogante e controlador de antes.
Ele forçou os músculos faciais a se recomporem em algo que se assemelhava a um sorriso. - Claro - ele disse, a palavra saindo como se tivesse sido arrancada com um alicate. - Quanto mais, melhor.
O caminho até o restaurante foi o que Eduardo imaginava que o purgatório devia ser: uma existência cinzenta e eternamente frustrante.
Os três apertados no banco de trás, porque o Matheus fez questão de se enfiar bem no meio. Como se não bastasse, ele não calava a boca nem por milagre.
- Então, Vivi, sobre a textura da tinta nesse quadro do século XIX, eu estou na dúvida se a pincelada denota um rompimento com a academia ou apenas um descuido do restaurador? - ele tagarelava, com um tablet em mãos mostrando imagens para Vivian e a bloqueando totalmente de Eduardo.
Eduardo mordeu o interior de sua bochecha com tanta força que sentiu o gosto metálico novamente. Ele focou na estrada, imaginando, com um detalhe vívido e satisfatório, como seria abrir a porta do carro em movimento e dar um leve empurrão no artista falastrão.
- Onde estamos indo mesmo? - Matheus perguntou, como se tivesse sido o convidado de honra.
- A reserva é no "Le Jardin" - Eduardo informou, tentando recuperar algum controle sobre a situação.
- Ótimo! Adoro o pato confit de lá - Matheus respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo convidar a si mesmo para um jantar e ainda fazer pedidos.
Vivian permanecia estranhamente quieta, olhando pela janela, mas Eduardo podia ver o canto de sua boca tremendo, como se estivesse lutando desesperadamente contra um ataque de riso. A visão foi como um balde de água fria na sua raiva. Ela estava se divertindo. Aquela situação surreal, constrangedora e completamente ridícula estava, de alguma forma, divertindo ela.
E, de repente, Eduardo entendeu. Talvez essa fosse a penitência. Talvez ele tivesse que aguentar um jantar inteiro com o crush óbvio e irritante de Vivian como pagamento por anos de ser um idiota. Era o universo pregando uma peça cósmica e kármica nele.
Ele respirou fundo, sentindo o pinicar no estômago se acalmar um pouco. Ele olhou para Vivian pelo canto do olho, para o seu perfil iluminado pelas luzes da cidade, e um sorriso genuíno, embora cansado, finalmente surgiu em seus lábios.
Tudo bem. Ele podia aguentar. Por ela, ele aguentaria um exército de Matheus tagarelas e mal-posicionados.
O verdadeiro teste, ele suspeitava, estava apenas começando. E ele, Eduardo Braga, o homem que enfrentara tubarões nos negócios e a própria morte, estava inexplicavelmente pronto para a batalha mais estranha de sua vida: um jantar a três onde ele era claramente o intruso em seu próprio convite.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....