O Le Jardin nunca testemunhara um jantar tão desconcertantemente cômico.
Eduardo havia reservado o restaurante inteiro - cada mesa, cada flor, cada vela - imaginando uma noite perfeita, íntima, onde nada nem ninguém os interromperia.
Mas o plano ruíra no instante em que Matheus apareceu. Os garçons trocavam olhares incertos, tentando entender o que acontecia. Um jantar romântico… para três?
O maître hesitava entre servir o vinho ou fugir para a cozinha.
Vivian, por sua vez, sentou-se e observou o desastre com uma serenidade quase cruel.
Enquanto degustava o pato confit que Matheus tanto elogiara, percebeu, com certo espanto, que estava se divertindo - não com a conversa, mas com o espetáculo ridículo e fascinante que se desenrolava diante dela.
Eduardo e Matheus eram como duas crianças em um playground, disputando a atenção da professora favorita com truques cada vez mais desesperados e transparentes. A única coisa que faltava era um deles empurrar o outro do balanço.
Vivian apenas observava o vinho rubro girando devagar na taça.
- Este vinho - Eduardo comentou, cheirando solenemente e depois bebendo da sua taça de água com gás como se fosse o Bordeaux de 1945 - tem notas sutis de baunilha e carvalho. Uma pena que não posso provar.
Matheus, não querendo ser superado, cortou imediatamente: - Interessante. Falando em notas, você notou o contraste cromático naquela última peça que chegou? É quase... audacioso.
- "Audacioso" é um bom adjetivo para você, Matheus - Eduardo retrucou suavemente, sem perder o sorriso polido. - Vivian, lembra quando nós bebemos aquele vinho … - Nós? - Matheus interrompeu, erguendo uma sobrancelha com ar de inocência. - Você quer dizer você e a Vivian, ou você e sua úlcera? Porque pelo que ouvi, vocês dois têm uma relação bem... íntima ultimamente.
Vivian precisou cobrir a boca com o guardanapo para disfarçar uma gargalhada que ameaçou explodir em meio ao sofisticado ambiente. A situação era tão surreal - o magnata convalescente e o artista ciumento travando uma batalha de egos através de comentários passivo-agressivos, que ela decidiu simplesmente relaxar e aproveitar o espetáculo. Era como assistir a uma partida de tênis onde ambos os jogadores insistiam em bater a bola contra a própria rede.
O ápice da comédia veio quando Matheus, determinado a provar seu valor cultural, começou a discorrer sobre a influência do movimento Art Brut na arte contemporânea, gesticulando com as mãos sobre o prato de entrada.
- A verdadeira genialidade está na autenticidade crua, não no academicismo sufacante - ele declarou, com a solenidade de um curador de museu. - Minha última série, por exemplo, explora justamente essa tensão entre...
- Fascinante mesmo - Eduardo cortou suavemente, com um sorriso que não chegava aos olhos. - Alguns acham que qualquer gota derramada sobre uma superfície é arte. - Ele fez uma pausa, observando o rosto de Matheus se contrair. - Mas é claro, o que seria da arte sem... experimentação, não é mesmo?
Vivian quase engasgou com sua água.
Quando a conta chegou, Eduardo foi mais rápido.
Pegou-a com um sorriso calmo, quase cortês, mas havia algo de vitorioso em seu olhar - como quem anuncia o fim de um jogo.
A mensagem era clara: a noite acabou pra você, Matheus.
Por dentro, um alívio discreto se espalhou. Finalmente, o intruso se retiraria, e ele ficaria a sós com Vivian - exatamente como planejara.
- Vivi - ele disse, ignorando completamente Eduardo - posso te levar para casa? Precisamos finalizar aquela análise do...
- Não precisa se preocupar, Matheus - Eduardo interveio, já com o celular na mão como um samurai desembainhando sua espada. - Já chamei um táxi para você. Deve estar chegando agora.
Matheus abriu a boca para protestar, mas Eduardo já estava de pé, segurando gentilmente - mas com uma firmeza que não admitia discussão - o braço do artista e conduzindo-o em direção à saída como um segurança removendo um convidado indesejado de uma festa.
- Mas... Vivian... - Matheus tentou, lançando um olhar de apelo desesperado por cima do ombro.
- O táxi é por minha conta, é claro - Eduardo completou, abrindo a porta do carro que, convenientemente, chegara naquele momento exato. - Boa noite, Matheus. Obrigado pela... companhia.
Antes que Matheus pudesse formular uma resposta que não fosse um grunhido de frustração, a porta do táxi se fechou e o carro partiu, deixando-o com sua pasta de documentos e uma expressão de completa derrota que teria comovido até o mais duro dos corações.
Vivian observou a cena, balançando a cabeça com um sorriso que não conseguia mais conter. - Isso foi brutalmente eficiente.
- Aprendi com o mestre - Eduardo encolheu os ombros, referindo-se ao avô com um meio-sorriso. - Às vezes, a diplomacia precisa de um... empurrãozinho estratégico.
No carro de volta - ele tinha dispensado o motorista, talvez em um último esforço para criar intimidade -, o clima era diferente. O silêncio não era mais tenso ou carregado da energia competitiva do jantar, mas contemplativo. Vivian olhava pela janela, o rosto iluminado pelas luzes da cidade que passavam como estrelas cadentes, uma paz estranha tomando conta dela. A comédia do jantar dera lugar a uma seriedade que ambos sentiam se aproximando.
Quando Eduardo parou em frente ao seu condomínio, o ritual foi quase cerimonial. Ele saiu, contornou o carro e abriu a porta do passageiro para ela - um gesto que era ao mesmo tempo antiquado e profundamente comovente vindo dele. Quando ele se dirigiu para a entrada principal como se esperasse ser convidado a subir, Vivian o chamou.
- Eduardo.
Ele parou, virando-se com uma expressão que tentava parecer casual, mas que não conseguia esconder uma centelha de esperança.
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