Vivian
O ritmo na galeria havia acelerado para um frenesi quase insano nos dias que antecediam a nova exposição. "Ecos do Inconsciente: Uma Jornada Através da Arte Contemporânea" era o projeto mais ambicioso que Vivian já trabalhara, e ela estava imersa nele corpo e alma - ou, mais precisamente, mente e papelada.
Enquanto Matheus e Tomas se deleitavam com a curadoria, discutindo a disposição ideal das peças e a narrativa visual que guiaria os visitantes através das salas, Vivian estava enterrada em contratos, certificados de autenticidade, documentos de procedência e apólices de seguro. O incidente com a peça falsa deixou nela uma cicatriz profunda, uma cautela que beirava a paranoia. Ela não apenas revisava cada documento - ela os estudava, pesquisava históricos de leilões, verificava procedências cruzadas, como se cada assinatura, cada carimbo, escondesse uma potencial fraude.
- Vivi, você está vendo a luz do dia? - Matheus perguntou uma tarde, encontrando-a em seu pequeno escritório, cercada por pilhas de pastas que pareciam ameaçar engoli-la viva.
- Estou vendo certificados de autenticidade - ela respondeu sem erguer os olhos, sua caneta destacando-se contra o papel. - É quase a mesma coisa.
- Você precisa respirar. A exposição está incrível. Tomas encontrou uma peça de um artista emergente que é simplesmente...
- Já verifiquei a documentação do artista emergente? - ela interrompeu. - Histórico de exposições, procedência dos materiais, certificado do ateliê?
Matheus suspirou, recuando. - Eu cuido disso. Você precisa confiar em nós às vezes.
Era isso que a assustava - a confiança. Ela confiara cegamente antes, e quase colocou tudo a perder. Agora, cada documento era um campo minado potencial, cada assinatura uma possível armadilha. Enquanto Matheus respirava arte, Vivian respirava burocracia - e descobria, para sua própria surpresa, que tinha talento para isso. Havia uma lógica, uma previsibilidade nos documentos que a acalmava. Diferente das pessoas, os papéis não mentiam - ou pelo menos, quando mentiam, deixavam pistas.
Foi em uma dessas raras pausas forçadas - quando sua visão começou a embaçar de tanto olhar para letras miúdas - que ela decidiu fugir para sua cafeteria preferida, um lugar aconchegante a algumas quadras da galeria que servia o melhor café com avelã da cidade.
E lá, sentado em sua mesa favorita perto da janela, estava Eduardo.
- Vivian - ele disse, erguendo a xícara como se sua presença fosse a coisa mais natural do mundo. - Que coincidência.
Poderia ser realmente uma coincidência. Mas algo na postura relaxada demais dele, na maneira como ele não parecia surpreso, a fez suspeitar.
- Eduardo - ela cumprimentou, mantendo a distância. - O que você está fazendo aqui? Você nunca faz pausas fora do seu escritório.
- Mudança de ares - ele encolheu os ombros, gesto descontraído que não combinava com o homem que ela conhecia. - O médico recomendou que eu fizesse pausas mais frequentes. Menos estresse, mais... chás.
Ela acabou se sentando com ele, a conversa fluiu de maneira estranhamente fácil - sobre a galeria, sobre sua saúde, sobre tudo menos o elefante na sala que era seu relacionamento passado e sua declaração recente. Quando ela saiu, vinte minutos depois, sentiu-se levemente desequilibrada. Era a primeira vez que eles conversavam sem a sombra da dor ou da expectativa.
Dois dias depois, enquanto dava uma pequena caminhada após um dia particularmente exaustivo, ela o viu novamente - desta vez no pequeno parque perto de seu prédio, passeando com um adorável golden retriever que puxava a coleira com entusiasmo juvenil.
- Eduardo? - ela chamou, incapaz de conter sua surpresa.
Ele se virou, uma expressão genuinamente surpresa em seu rosto que quase a convenceu. - Vivian! Olá.
- O que você está fazendo aqui? - ela perguntou, enquanto o cachorro cheirava seus sapatos com interesse.
- Estou fazendo um favor para um amigo - ele explicou, acariciando a cabeça do animal. - Passeando com o Bono.
- Bono? - ela repetiu, arqueando uma sobrancelha. - Que amigo?
Eduardo parou, e por uma fração de segundo ela viu o pânico nos olhos dele antes que a máscara de controle retornasse.
- É... - ele começou, depois parou. - Você não o conhece.
- Tente - ela insistiu, cruzando os braços.
Ele abriu a boca, fechou, depois abriu novamente. - É complicado.
- Complicado como? Ele é um agente secreto? Um membro da realeza incógnito?
- Algo assim - ele murmurou, claramente desconfortável.
Vivian não pressionou, mas a semente da dúvida estava plantada. Ela conhecia Eduardo - o homem que tinha um assistente para lidar com suas tarefas mais mundanas, que considerava passear com o próprio cachorro uma perda de tempo produtivo. Passear com o cachorro de um "amigo" era tão fora do personagem que beirava o absurdo.
Nos dias que se seguiram, as "coincidências" continuaram. Ela o encontrou em sua livraria preferida "Precisando de leitura leve, por recomendação médica", no mercado de orgânicos que ela frequentava "Experimentando uma nova dieta".
Mas foram os presentes que realmente a fizeram suspeitar.
- Em autenticidade - ela corrigiu suavemente. - Como você pode dizer se algo é genuíno ou apenas... bem executado.
Matheus estudou seu rosto por um momento antes de responder. - Na arte, às vezes a diferença está na imperfeição. É o que torna uma peça humana, em vez de mecanicamente perfeita.
Vivian assentiu, voltando à sua mesa. Talvez essa fosse a resposta. Eduardo sempre fora mecanicamente perfeito em tudo que fazia. Se ele quisesse provar que havia mudado, teria que mostrar algumas imperfeições.
Naquela tarde, outra encomenda chegou.
Dessa vez, um croissant — da mesma cafeteria que ela adorava, aquele que sempre dizia querer provar, mas acabava trocando pelas tortas.
Lembrava de ter comentado isso com ele, casualmente, em uma conversa que agora parecia de outra vida.
Ela não jogou fora.Também não sorriu ao recebê-lo.
Apenas ficou olhando por alguns segundos, sentindo o coração bater mais rápido do que gostaria.
Por fim, pegou o telefone e digitou uma mensagem curta.
Obrigada pelo lanche. Mas da próxima vez, pergunta o que eu quero. Às vezes eu mudo de ideia.
A resposta veio quase imediatamente:
Anotado O que você quer?
Vivian encarou a tela por um instante, o coração batendo num ritmo que odiava reconhecer.
Sorriu, sem querer, e então bloqueou o celular, como quem fecha uma porta antes que o outro perceba que ainda há alguém do outro lado.
O jogo começara, e pela primeira vez, Vivian sentia que talvez estivesse em condições de ditar as regras.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....