Vivian
A imagem ficou gravada em sua retina como uma fotografia maldita: Eduardo e Elisa, enclausurados no banheiro feminino, tão próximos que quase compartilhavam a mesma respiração. O celular na mão dela, a expressão intensa dele - cada detalhe queimando em sua memória com a precisão cruel de um ferreiro marcando gado.
Vivian não conseguia deixar de sentir. A dor era familiar, uma velha conhecida que batia à sua porta sem avisar, trazendo consigo o mesmo estraçalhar no coração, os mesmos punhais imaginários perfurando seu peito a cada respiração. Havia uma ironia cruel em como seu corpo reagia, afinal, ela já havia se treinado para isso, construído muralhas ao redor de seu coração, jurado a si mesma que nunca mais permitiria que Eduardo Braga a ferisse novamente.
E ainda assim, lá estava ela, no meio de sua própria noite de sucesso profissional, sentindo as mesmas facadas no mesmo peito, como se os últimos meses de reconstrução pessoal nunca tivessem acontecido.
O que a surpreendeu não foi a dor em si, mas a velocidade com que sua máscara profissional se recompôs. Recuperar a compostura na frente deles foi quase natural um movimento ensaiado em tantas noites solitárias, em tantos eventos sociais onde ela precisara sorrir enquanto seu mundo desmoronava por dentro. O sorriso profissional, o aceno de cabeça, a verificação do batom no espelho, cada gesto uma peça coreografada na dança da dignidade.
- Preciso de um drink - murmurou para si mesma, afastando-se do banheiro em direção ao bar. Suas mãos tremiam levemente, e ela as escondeu nas pregas de seu vestido azul-cobalto.
Matheus a interceptou no caminho. - Está tudo bem? Você parece...
- Está tudo ótimo - ela cortou, muito rapidamente. - Os colecionadores alemães estão interessados na série completa. Preciso preparar a documentação.
- Vivian - ele insistiu, seu olhar preocupado. - Eu vi você saindo do corredor dos banheiros. Eu vi eles entrando...
- Não é da sua conta, Matheus - ela disse, mais asperamente do que pretendia. - Por favor, cuide dos convidados.
Ele recuou, magoado, mas ela não tinha energia para consertar naquele momento. Cada grama de sua força estava sendo usada para manter a fachada intacta, para não desmoronar no meio da galeria lotada.
Foi Alice quem testemunhou o momento final, o golpe de misericórdia. Ela chegara tarde, direto do trabalho, ainda carregando a energia frenética do tribunal.
- Finalmente! - abraçou Vivian com força. - Você está arrasando! Todo mundo falando da exposição.
Vivian retribuiu o abraço com um aperto desesperado que fez Alice recuar e estudar seu rosto.
- O que aconteceu? - perguntou, sua voz imediatamente séria.
- Nada. Estou apenas cansada.
- Mentira. Você tem aquele olhar. O olhar de "Eduardo Braga acabou de arruinar minha noite".
Foi então que o anúncio ecoou pelo sistema de som da galeria: "Temos um lance recorde! 'Despertar do Inconsciente' acaba de ser arrematada por oito milhões e quinhentos mil reais pelo Sr. Eduardo Braga!"
Os aplausos irromperam na galeria. Matheus parecia entre o êxtase e o desespero - era o maior lance da noite, mas vindo da fonte mais indesejada.
Alice agarrou o braço de Vivian. - Ele comprou a peça principal? Por que ele...
Sua pergunta morreu no ar quando Elisa deslizou até o centro do salão, seu vestido vermelho uma mancha de sangue no cenário sofisticado. - Obrigada, querido! - ela gritou, soprando um beijo na direção de Eduardo, que permanecia imóvel perto do terminal de lances, seu rosto uma máscara impenetrável. - Sempre soube apreciar a verdadeira arte!
Alice soltou um som que era meio grunhido, meio rosnado. - Eu vou matá-lo. Eu vou arrancar o coração dele com uma colher de sopa e...
- Alice, não - Vivian a segurou pelo braço. - Não faça cena.
- Cena? CENA? - sua voz subiu alguns tons. - Ele acabou de comprar a peça mais cara da exposição para presentear aquela piranha, depois de ter feito juras de amor!
- Ela não é uma piranha - Vivian corrigiu automaticamente, sua mente profissional ainda funcionando. - E a exposição é para vender as peças.
- Para de ser diplomata, Vivian! Isso é humilhação pública!
E era. Cada olhar de pena, cada sussurro disfarçado, cada sorriso condescendente era um pequeno corte em sua já combalida autoestima. Mas Vivian havia aprendido uma lição valiosa ao longo dos anos: a dignidade era a última fortaleza. E ela não permitiria que ninguém a invadisse.
O resto da noite passou em um borrão. Vivian cumprimentou, sorriu, negociou, como se estivesse observando a si mesma de fora de seu próprio corpo. Ela viu Eduardo tentar se aproximar várias vezes, sempre sendo interceptado por alguém - Gustavo com investidores, Matheus com críticos de arte, Alice com olhares assassinos.
Quando o último convidado finalmente foi embora, Vivian saiu apressada, recusou os convites de Matheus para comemorar o sucesso com a desculpa de que estava muito cansada, assim que entrou no apartamento deslizou pela porta recém fechada, seu vestido azul formando uma poça ao redor dos seus pés, e deixou as lágrimas finalmente caírem.
Não eram lágrimas de raiva ou de traição - eram lágrimas de despedida. De luto pelo último resto de esperança que, sem que ela percebesse, ainda mantinha viva em algum canto secreto de seu coração.

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