Eduardo
Sentia a presença de Vivian como um olhar constante, ainda que invisível, mesmo quando ela estava em outro cômodo. Durante todo o evento, sua busca foi incessante - um farol em meio à tempestade de sorrisos falsos e conversas vazias. Ele procurava seus olhos com a urgência de um homem se afogando procurando por terra firme, mas Vivian, com a precisão cruel de quem conhecia todos os seus movimentos, evitava seu olhar de maneira metódica, calculada.
Cada vez que ele tentava se aproximar, ela se virava para conversar com alguém, desaparecia atrás de uma coluna, subia as escadas para o mezanino. Era uma dança de evasão coreografada com a maestria de quem praticara os passos por anos. Eduardo sentia a rejeição como uma série de pequenos cortes - não profundos o suficiente para matar, mas suficientes para sangrar lentamente sua esperança.
Elisa, percebendo sua vulnerabilidade, grudara ao seu lado como uma segunda pele, uma pulga insistente que ele não conseguia sacudir. Seu perfume pesado e doce - algo com baunilha e âmbar - enchia suas narinas, um contraste agressivo com o aroma leve e floral que Vivian sempre usara e que ele ainda conseguia detectar no ar quando ela passava por perto.
- Querido, você parece tenso - Elisa falou, enlaçando o braço dele com possessividade.
Ele não respondeu, retirou com firmeza as mãos dela do seu braço, como se ela estivesse contaminada.
Seus olhos ainda fixos em Vivian, que ria com um casal de colecionadores do outro lado da sala. O som da risada dela - genuína, despreocupada - doía mais do que qualquer insulto que Elisa pudesse inventar.
Sua mente rodava em loops infinitos, cada cenário mais desesperador que o anterior. A cabeça latejava com a pressão de decisões impossíveis. Como explicar a Vivian o que acontecera no banheiro sem colocar tudo a perder? Como proteger ela da tempestade que se aproximava sem que ela sequer soubesse que estava em perigo?
Quando o anúncio do lance ecoou pela galeria - "oito milhões e quinhentos mil reais pelo Sr. Eduardo Braga!" - ele sentiu o estômago embrulhar. Os aplausos soaram como zombaria. Cada olhar de admiração ou inveja era uma facada.
Elisa deslizou para o centro do salão como uma serpente, seu vestido vermelho uma mancha de sangue no cenário elegante. - Obrigada, querido! - gritou, soprando um beijo em sua direção.
Ele permaneceu imóvel, suas mãos trêmulas enfiadas nos bolsos. Quando um dos assistentes de Matheus trouxe a peça - "Despertar do Inconsciente", uma tela enorme de cores violentas e formas distorcidas que supostamente representava "a fragmentação da psique moderna" - Eduardo a pegou como se estivesse segurando sua própria sentença de morte.
- Para você - disse para Elisa, entregando a tela com uma frieza que escondia o turbilhão interno. - Como combinado.
Seus olhos procuraram Vivian instintivamente, esperando ver raiva, decepção, dor. Mas ela não olhava para ele. Seu perfil estava voltado, conversando animadamente com Alice, como se a cena que se desenrolava não a afetasse minimamente.
Foi pior. Muito pior.
Alice, por outro lado, parecia um cão de guarda prestes a atacar. Seus olhos faiscavam de ódio puro, e ele podia quase sentir o calor de seu desprezo mesmo à distância. Ela sussurrava algo no ouvido de Vivian, uma mão protetora nas costas da amiga, seu corpo posicionado como um escudo humano entre Vivian e o resto do mundo - entre Vivian e ele.
Assim que a transação foi formalizada e Elisa posou para fotos com a peça como um troféu, Eduardo virou-se e saiu. Não havia mais razão para ficar. Cada segundo naquele espaço era tortura, cada olhar que não era de Vivian era um desperdício de tempo.
Na calçada, a brisa noturna gelada o atingiu como um choque. Ele respirou fundo, o ar poluído da cidade parecendo mais puro que a atmosfera asfixiante da galeria. Antes mesmo de alcançar seu carro, já estava com o telefone no ouvido.
- Marcos - disse quando o assistente atendeu. - Acorde quem precisar acordar. Reunião de emergência no escritório em trinta minutos.
- Senhor? São quase dez da noite. O IPO...
- Não é sobre o IPO - Eduardo cortou, sua voz mais áspera do que pretendia. - É sobre neutralizar uma ameaça. A Elisa conseguiu documentos confidenciais. Quero saber como, quem ajudou, e quero todas as opções para contê-la. Ontem.
Enquanto ouvia Marcos tentar processar a informação, seus olhos se fecharam por um momento. Ah, Elisa ia pagar. Iria pagar muito caro por tê-lo chantageado usando Vivian como moeda de troca. Ele faria com que ela se arrependesse do dia em que decidiu transformar seu amor em uma arma.
- Senhor? - a voz de Marcos soou cautelosa. - Que tipo de documentos?
- O acordo com Camilo. Ela tem uma cópia.
Um silêncio pesado do outro lado da linha. - Entendido. Trinta minutos.
Ele desligou, suas mãos cerradas com tanta força que as unhas marcavam a palma. Estava prestes a abrir a porta do carro quando uma voz familiar cortou a noite como uma lâmina.
- Braga!
Era Alice, e seu nome soava como um insulto na boca dela. Ela estava parada a alguns metros de distância, os braços cruzados, os olhos faiscando com um ódio tão puro que quase o impressionou. Pela primeira vez desde que a conhecera - desde aqueles dias distantes na escola quando ela era apenas a amiga barulhenta de Vivian - ele realmente gostou daquela garota.
- Você tem uma puta cara de pau - ela cuspiu, avançando em sua direção. - Aparecer aqui, comprar a peça principal para aquela... aquela... e ainda achar que pode...
- Alice - ele interrompeu, sua voz surpreendentemente calma. - Eu não posso explicar agora.
- Claro que não pode! - ela riu, um som amargo e descrente. - Nunca pode, pode? Sempre desculpas, sempre justificativas. Bem, chega. Nunca mais se aproxime dela, entendeu? Se eu ver você a menos de cinquenta metros da Vivian, eu...
- Encontre-me no escritório em vinte minutos. E consiga toda informação possível sobre a Elisa. Tudo e qualquer coisa é relevante.
- Eduardo, o que está acontecendo?
- Ela cruzou uma linha - ele disse simplesmente, seus olhos fixos na estrada enquanto acelerava através das ruas quase vazias. - E agora ela vai aprender o que acontece quando se mexe com o que é meu.
Desligou, seus dedos batendo no volante em um ritmo nervoso. Cada semáforo vermelho era uma eternidade, cada curva uma oportunidade para sua mente criar novos cenários de desastre.
Quando finalmente estacionou na garagem do edifício Braga, seus funcionários já estavam chegando - assessores jurídicos, especialistas em segurança cibernética, até mesmo o chefe de sua equipe de inteligência corporativa. Todos com expressões sérias, todos alertas apesar da hora tardia.
- Senhor - Marcos cumprimentou, segurando um tablet.
Eduardo não parou de caminhar em direção aos elevadores. Entrou no elevador, sua equipe se apertando ao seu redor.
- Congele todas as contas da Elisa. Todas. Incluindo as off-shore.
- Senhor, legalmente...
- Invente uma razão - ele cortou. - Todo mundo tem um deslize fiscal.
Os olhos de Marcos se arregalaram.
O elevador chegou ao andar executivo. As luzes já estavam acesas, as telas das salas de conferência brilhando. A máquina Braga estava entrando em ação - lenta para começar, mas implacável uma vez em movimento.
Enquanto ditava ordens e revisava estratégias, parte de sua mente ainda estava na galeria, com Vivian. Com a expressão dela quando os olhos encontraram os dele por uma fração de segundo antes que ela erguesse suas defesas. Com a dor que ele vira, brevemente, antes que ela a escondesse atrás de compostura profissional.
Ele fizera aquilo para protegê-la. Para comprar tempo até neutralizar a ameaça que Elisa representava. Mas Eduardo percebeu o preço do seu sacrifício.
Pode ser que, ao proteger Vivian de Elisa, ele a tivesse perdido para sempre.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....