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A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor romance Capítulo 82

Vivian

A decisão, uma vez tomada, tornou-se um rio correndo em direção ao mar - imparável, natural, carregando consigo todos os vestígios de dúvida e hesitação. Nos dias que se seguiram ao bloqueio de Eduardo de todas as suas redes e contatos, Vivian descobriu uma clareza mental que não experimentava desde os tempos de faculdade, quando o mundo era uma tela em branco esperando por suas escolhas, não uma tapeçaria complicada de expectativas e decepções.

Os preparativos foram quase terapêuticos em sua simplicidade. Renovar o passaporte - um documento que expirara durante seu casamento, simbolicamente apropriado - envolveu uma visita aos correios, algumas fotografias, e a estranha sensação de segurar um pedaço de papel que representava liberdade. A funcionária do balcão mal olhou para ela, tratando o processo com a burocracia habitual, completamente alheia ao significado que aquele pequeno livro azul carregava para Vivian.

O dinheiro - os cem milhões da indenização do divórcio que sempre pairaram em sua conta como um fantasma de um casamento fracassado - finalmente encontrou um propósito. Por meses, ela ignorara aquela quantia obscena, tratando-a como se não existisse, vivendo apenas de seu salário da galeria como uma questão de princípio. Agora, pela primeira vez, ela via o dinheiro não como uma lembrança amarga, mas como um instrumento de reinvenção.

Sentada em sua sala de estar, com uma xícara de chá de camomila e uma planilha aberta no laptop, Vivian fez as contas. Cem milhões de reais. Mais do que suficiente para comprar liberdade, descobriu. Mais do que suficiente para comprar uma nova identidade, mesmo que temporária.

Matheus quase derrubou a xícara de café quando ela expôs seu plano na manhã seguinte. Eles estavam na pequena cozinha nos fundos da galeria, o cheiro de tinta fresca e café misturando-se no ar matinal.

- Sócia? - ele repetiu, como se testando a palavra. - Você quer ser minha sócia?

- Sócia minoritária - ela corrigiu, tomando um gole de seu chá. - Quero investir na galeria, Matheus. Acredito no que estamos construindo aqui.

- Mas... Portugal? Garimpar peças na Europa? - Ele passou uma mão pelo cabelo, desarrumando ainda mais os cachos já rebeldes. - Por quanto tempo?

- O curso de verão em História da Arte na Universidade dura oito semanas - ela explicou, seus olhos brilhando com um entusiasmo que não mostrava há tempos. - E depois... bem, depois vou ver. Há tanto para descobrir lá, Matheus. Galerias menores, artistas emergentes, peças que ninguém aqui no Brasil viu ainda.

- E a galeria aqui? - ele perguntou, sua expressão uma mistura de alegria pela parceria e pânico pela sua partida.

- Vou te apresentar uma das alunas do papai, ele elogia ela demais e a garota acabou de sair da faculdade, cheia de energia, e até a viagem posso passar todo o trabalho pra ela - ela respondeu, colocando uma mão em seu braço. - E eu estarei em contato constante. Além disso, posso ser seus olhos na Europa. Podemos criar uma divisão internacional da galeria.

A ideia pairou entre eles, tão tangível que quase podiam tocá-la. Matheus ficou em silêncio por um momento, processando. - Você está mesmo fazendo isso, não está? - disse finalmente, um sorriso lento surgindo em seu rosto. - Está realmente seguindo em frente.

A palavra "frente" ecoou na sala. Não era sobre fuga, Vivian percebeu. Era sobre movimento. Progresso.

- Estou - ela confirmou, seu próprio sorriso correspondendo ao dele.

Naquela noite, Alice a convidou para jantar em seu apartamento aconchegante. A atmosfera estava estranhamente tensa desde o início - Alice parecia estar carregando um segredo pesado, seus olhos evitando os de Vivian enquanto preparavam um molho juntas.

- Então... - Alice começou, picando tomates com uma intensidade suspeita. - Como você está, sabe, depois daquela noite?

- Estou bem, Ali. Melhor do que esperava.

- É que... - Alice parou, colocando a faca. - Há algo que eu...

Foi então que Vivian, incapaz de conter sua empolgação por mais tempo, interrompeu. - Vou para Portugal!

Alice congelou, um pedaço de tomate suspenso entre a tábua e a tigela. - Para... o quê?

- Portugal! - Vivian riu, a felicidade transbordando. - Vou fazer um curso de verão de História da Arte em Lisboa. E garimpar peças para a galeria! E o Matheus aceitou que eu me torne sócia!

A expressão de Alice passou por várias transformações em rápida sucessão - choque, confusão, preocupação, e finalmente, pura alegria.

- Você está brincando comigo! - ela gritou, pulando e puxando Vivian para um abraço. - Portugal! Por quanto tempo?

- Alguns meses. Talvez mais. Depende do que eu encontrar por lá.

- Meses! - Alice soltou-a, seus olhos agora brilhando. - Isso é... incrível! Você saindo desse lugar, vivendo... Vivian, eu amei a ideia!

- Você não acha que é uma fuga? - Vivian perguntou, uma pontada de vulnerabilidade em sua voz.

- Fuga? Isso é evolução! - Alice pegou a garrafa de vinho que estava respirando na bancada e encheu duas taças generosamente. - Isso merece um brinde! Pelas novas aventuras!

- Pelas novas aventuras - Vivian ecoou, os cálices se encontrando com um tilintar musical.

Enquanto jantavam - uma lasanha que Alice queimara levemente nas bordas, mas que estava divina apesar disso - os planos se desenrolavam como um roteiro de filme.

- Eu posso passar duas semanas em agosto com você! - Alice anunciou entre garfadas. - As praias portuguesas no verão! Precisamos ir ao Algarve. E a Ilha da Madeira! E ao Porto!

- Precisamos - Vivian concordou, sua mente já imaginando os cenários: ela e Alice rindo em uma praia ensolarada, sem preocupações, sem olhares de pena, sem fantasmas do passado.

- E seus pais? Seu avô?

Vivian fez uma careta. - Meus pais estão no início do semestre letivo. E o vovô... - ela suspirou, - bem, você conhece ele. Disse que não tem interesse em sair do Brasil. Muito menos atravessar o oceano em um pássaro de ferro.

Alice riu. - Seu avô é uma figura.

- Ele disse que prefere sua cadeira na varanda e suas novelas - Vivian encolheu os ombros, mas sorriu. Era típico do avô, e de alguma forma, isso a confortava. Algumas coisas permaneciam as mesmas, mesmo quando tudo mudava.

Naquela noite, de volta em seu apartamento, Vivian sentiu-se como uma criança na véspera de um passeio escolar. Havia uma energia elétrica em seu corpo, uma antecipação que fazia com que dormir parecesse um desperdício de tempo.

Oitenta e dois 1

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