Vivian
A decisão, uma vez tomada, tornou-se um rio correndo em direção ao mar - imparável, natural, carregando consigo todos os vestígios de dúvida e hesitação. Nos dias que se seguiram ao bloqueio de Eduardo de todas as suas redes e contatos, Vivian descobriu uma clareza mental que não experimentava desde os tempos de faculdade, quando o mundo era uma tela em branco esperando por suas escolhas, não uma tapeçaria complicada de expectativas e decepções.
Os preparativos foram quase terapêuticos em sua simplicidade. Renovar o passaporte - um documento que expirara durante seu casamento, simbolicamente apropriado - envolveu uma visita aos correios, algumas fotografias, e a estranha sensação de segurar um pedaço de papel que representava liberdade. A funcionária do balcão mal olhou para ela, tratando o processo com a burocracia habitual, completamente alheia ao significado que aquele pequeno livro azul carregava para Vivian.
O dinheiro - os cem milhões da indenização do divórcio que sempre pairaram em sua conta como um fantasma de um casamento fracassado - finalmente encontrou um propósito. Por meses, ela ignorara aquela quantia obscena, tratando-a como se não existisse, vivendo apenas de seu salário da galeria como uma questão de princípio. Agora, pela primeira vez, ela via o dinheiro não como uma lembrança amarga, mas como um instrumento de reinvenção.
Sentada em sua sala de estar, com uma xícara de chá de camomila e uma planilha aberta no laptop, Vivian fez as contas. Cem milhões de reais. Mais do que suficiente para comprar liberdade, descobriu. Mais do que suficiente para comprar uma nova identidade, mesmo que temporária.
Matheus quase derrubou a xícara de café quando ela expôs seu plano na manhã seguinte. Eles estavam na pequena cozinha nos fundos da galeria, o cheiro de tinta fresca e café misturando-se no ar matinal.
- Sócia? - ele repetiu, como se testando a palavra. - Você quer ser minha sócia?
- Sócia minoritária - ela corrigiu, tomando um gole de seu chá. - Quero investir na galeria, Matheus. Acredito no que estamos construindo aqui.
- Mas... Portugal? Garimpar peças na Europa? - Ele passou uma mão pelo cabelo, desarrumando ainda mais os cachos já rebeldes. - Por quanto tempo?
- O curso de verão em História da Arte na Universidade dura oito semanas - ela explicou, seus olhos brilhando com um entusiasmo que não mostrava há tempos. - E depois... bem, depois vou ver. Há tanto para descobrir lá, Matheus. Galerias menores, artistas emergentes, peças que ninguém aqui no Brasil viu ainda.
- E a galeria aqui? - ele perguntou, sua expressão uma mistura de alegria pela parceria e pânico pela sua partida.
- Vou te apresentar uma das alunas do papai, ele elogia ela demais e a garota acabou de sair da faculdade, cheia de energia, e até a viagem posso passar todo o trabalho pra ela - ela respondeu, colocando uma mão em seu braço. - E eu estarei em contato constante. Além disso, posso ser seus olhos na Europa. Podemos criar uma divisão internacional da galeria.
A ideia pairou entre eles, tão tangível que quase podiam tocá-la. Matheus ficou em silêncio por um momento, processando. - Você está mesmo fazendo isso, não está? - disse finalmente, um sorriso lento surgindo em seu rosto. - Está realmente seguindo em frente.
A palavra "frente" ecoou na sala. Não era sobre fuga, Vivian percebeu. Era sobre movimento. Progresso.
- Estou - ela confirmou, seu próprio sorriso correspondendo ao dele.
Naquela noite, Alice a convidou para jantar em seu apartamento aconchegante. A atmosfera estava estranhamente tensa desde o início - Alice parecia estar carregando um segredo pesado, seus olhos evitando os de Vivian enquanto preparavam um molho juntas.
- Então... - Alice começou, picando tomates com uma intensidade suspeita. - Como você está, sabe, depois daquela noite?
- Estou bem, Ali. Melhor do que esperava.
- É que... - Alice parou, colocando a faca. - Há algo que eu...
Foi então que Vivian, incapaz de conter sua empolgação por mais tempo, interrompeu. - Vou para Portugal!
Alice congelou, um pedaço de tomate suspenso entre a tábua e a tigela. - Para... o quê?
- Portugal! - Vivian riu, a felicidade transbordando. - Vou fazer um curso de verão de História da Arte em Lisboa. E garimpar peças para a galeria! E o Matheus aceitou que eu me torne sócia!
A expressão de Alice passou por várias transformações em rápida sucessão - choque, confusão, preocupação, e finalmente, pura alegria.
- Você está brincando comigo! - ela gritou, pulando e puxando Vivian para um abraço. - Portugal! Por quanto tempo?
- Alguns meses. Talvez mais. Depende do que eu encontrar por lá.
- Meses! - Alice soltou-a, seus olhos agora brilhando. - Isso é... incrível! Você saindo desse lugar, vivendo... Vivian, eu amei a ideia!
- Você não acha que é uma fuga? - Vivian perguntou, uma pontada de vulnerabilidade em sua voz.
- Fuga? Isso é evolução! - Alice pegou a garrafa de vinho que estava respirando na bancada e encheu duas taças generosamente. - Isso merece um brinde! Pelas novas aventuras!
- Pelas novas aventuras - Vivian ecoou, os cálices se encontrando com um tilintar musical.
Enquanto jantavam - uma lasanha que Alice queimara levemente nas bordas, mas que estava divina apesar disso - os planos se desenrolavam como um roteiro de filme.
- Eu posso passar duas semanas em agosto com você! - Alice anunciou entre garfadas. - As praias portuguesas no verão! Precisamos ir ao Algarve. E a Ilha da Madeira! E ao Porto!
- Precisamos - Vivian concordou, sua mente já imaginando os cenários: ela e Alice rindo em uma praia ensolarada, sem preocupações, sem olhares de pena, sem fantasmas do passado.
- E seus pais? Seu avô?
Vivian fez uma careta. - Meus pais estão no início do semestre letivo. E o vovô... - ela suspirou, - bem, você conhece ele. Disse que não tem interesse em sair do Brasil. Muito menos atravessar o oceano em um pássaro de ferro.
Alice riu. - Seu avô é uma figura.
- Ele disse que prefere sua cadeira na varanda e suas novelas - Vivian encolheu os ombros, mas sorriu. Era típico do avô, e de alguma forma, isso a confortava. Algumas coisas permaneciam as mesmas, mesmo quando tudo mudava.
Naquela noite, de volta em seu apartamento, Vivian sentiu-se como uma criança na véspera de um passeio escolar. Havia uma energia elétrica em seu corpo, uma antecipação que fazia com que dormir parecesse um desperdício de tempo.
- Não - Vivian interrompeu suavemente. - Não quero saber. Qualquer que seja a explicação, qualquer que seja o drama... não é mais minha preocupação.
Alice estudou seu rosto por um longo momento, então sorriu - um sorriso de alívio e admiração. - Você realmente mudou, não é?
- Estou tentando - Vivian admitiu.
Depois que Alice foi embora, ela percebeu o quanto sua vida cabia em uma mala e uma mochila. Havia uma lição nisso, pensou. Uma lição sobre o que realmente importava.
Na manhã de sua partida, o sol nascia tingindo os prédios com tons alaranjados quando Vivian fechou a porta de seu apartamento pela última vez em meses. Havia uma qualidade surreal no momento - o táxi esperando na rua, sua passagem no bolso, o passaporte seguro em sua bolsa. Ela ajustou a alça da mochila nos ombros, puxou a mala de rodinhas e respirou fundo, pronta para descer até o táxi.
Foi então que um carro preto e discreto - uma Bentley que ela reconheceria em qualquer lugar - estacionou suavemente à sua frente. A porta traseira abriu-se e Gilbert Braga desceu, apoiando-se em sua bengala de ébano com as duas mãos, seu terno impecável contrastando com a informalidade da cena matinal.
Vivian congelou, os dedos apertando o cabo da mala. - Sr. Braga? - disse, incapaz de disfarçar a surpresa.
Gilbert a observou por um momento, seus olhos penetrantes parecendo catalogar cada detalhe - as malas, a mochila, a expressão determinada em seu rosto.
Ele acenou lentamente, um gesto que poderia significar qualquer coisa. Seu motorista permaneceu imóvel ao volante, tão discreto quanto móvel.
- O taxi pode esperar - disse Gilbert, não como uma pergunta, mas como uma declaração. Ele fez um gesto quase imperceptível, e o motorista da Bentley saiu e foi falar com o taxista, que acenou com a cabeça e desligou o taxímetro.
Gilbert se aproximou, sua presença ainda imponente apesar da idade. Ele estendeu o braço, indicando a Bentley. - Dez minutos do seu tempo. É tudo que peço.
Vivian olhou para o táxi e depois para o relógio. Seu voo decolava em três horas.
- Dez minutos - ela concordou, sua curiosidade superando a cautela.
Enquanto se acomodava no banco de couro macio da Bentley, Vivian mal podia acreditar na situação. Gilbert Braga, o patriarca que tanto a desprezara, sentado a menos de um metro dela, prestes a revelar... o quê, exatamente?
O motorista fechou a porta, deixando-os envoltos em um silêncio luxuoso. Gilbert ajustou sua bengala entre os joelhos, suas mãos envelhecidas mas firmes repousando sobre o castão de prata.
- Agora - ele começou, seus olhos fixos nos dela, - você vai me ouvir. E depois, você fará sua escolha.
No aeroporto, muito depois dos dez minutos prometidos, Vivian ainda sentia o eco das palavras de Gilbert em sua mente enquanto esperava no balcão de check-in. Ela viu seu reflexo em uma janela - uma mulher sozinha, sim, mas não solitária. Uma mulher com um destino, com um propósito. E agora, com um segredo que pesava mais que todas as suas malas juntas.
Quando o avião decolou, Vivian olhou pela janela enquanto a cidade que fora seu lar, seu palco de alegrias e tristezas, diminuía abaixo dela. Não havia lágrimas, apenas uma serena determinação - e a inquietante revelação que Gilbert Braga plantara em sua mente como uma semente prestes a germinar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....