Eduardo
Elisa estava sob vigilância 24 horas por dia, e cada movimento seu era relatado a Eduardo com a precisão cirúrgica de uma operação militar. Dois homens se alternavam em turnos de doze horas, sempre mantendo distância, sempre invisíveis na multidão. Eles documentavam cada café que ela tomava, cada loja que entrava, cada pessoa com quem conversava. As fotos e relatórios chegavam ao telefone de Eduardo a cada duas horas, um fluxo constante de informação que ele consumia com a mesma frieza com que analisava relatórios financeiros.
Sentado em seu escritório no, com a cidade se espalhando sob seus pés como um tabuleiro de xadrez, Eduardo estudava as últimas fotos. Elisa tentando entrar em uma boutique de luxo e sendo barrada - a proprietária, uma velha amiga da família Braga, atendera pessoalmente ao seu pedido. Elisa em um restaurante chique, comendo sozinha enquanto os olhares de desdém a seguiam - outro de seus pedidos atendidos.
Todos os investidores do setor de entretenimento e artes haviam sido contactados pessoalmente pelo herdeiro do Grupo Braga. O pedido era claro e não admitia negociação: Elisa estava na lista negra. Qualquer pessoa que investisse em Elisa ou a contratasse estaria cortando relações com a empresa mais lucrativa do país. Em um mundo movido a conexões e favores, era uma sentença de morte profissional.
- Ela tentou marcar uma reunião com a produtora A3 esta manhã - a voz de Marcos ecoou pelo viva-voz do telefone. - Foi recusada antes mesmo de ela terminar a frase.
Enquanto falava, seus dedos navegavam por outra guia no computador. Várias páginas de humor duvidoso - aquelas que especializavam em destruir reputações - agora estavam repletas de memes com as piores atuações de Elisa. Clipes editados de suas novelas mais fracassadas, comparações embaraçosas com atrizes mais talentosas, montagens que destacavam cada entrega de fala artificial.
Ele não precisara pagar por isso. Apenas soltara a informação para um desses sites que Elisa tinha material novo para ser "satirizado" e oferecera um acesso exclusivo ao arquivo completo de suas performances. Os abutres fizeram o resto.
As redes sociais dela estavam sendo bombardeadas por denúncias em massa - cada post, cada foto, cada comentário reportado por dezenas de contas falsas que sua equipe de TI criara. I*******m, T*****r, F******k - todos bloqueados por "violação de termos de serviço". Ela estava sendo destruída na internet, pixel por pixel.
Mas Eduardo ainda não estava satisfeito.
- O que mais temos? - ele perguntou a Gustavo, que entrava no escritório com uma pasta grossa.
- Muito - Gustavo respondeu, colocando a pasta na mesa. - Sonegação fiscal dela e da família no negócio imobiliário. Desvio de verba de projetos culturais financiados pelo governo. Até uns esquemas de pirâmide que ela fez publicidade nos primeiros anos de carreira.
Eduardo abriu a pasta, folheando os documentos. Era material suficiente para destruí-la completamente - processos criminais, ações civis, a perda permanente de qualquer credibilidade.
- E ainda não é o suficiente - ele murmurou, fechando a pasta.
Gustavo olhou para ele, preocupado. - Eduardo, isso já é excessivo. Elisa não vai conseguir trabalhar e ainda vai ter muita dor de cabeça com o fisco.
- Ela tocou no que é meu - Eduardo disse, sua voz baixa mas carregada de perigo. - Ela usou Vivian como moeda de troca.
Enquanto falava, parte de sua mente já trabalhava na próxima fase. A família de Elisa - comerciantes que tiveram alguma sorte no mercado imobiliário nos anos 90. Nada demais. Fazer os imóveis deles terem o valor evaporado não seria difícil - umas poucas ligações para os bancos certos, um rumor bem colocado sobre contaminação do solo em um de seus terrenos, uma investigação fiscal repentina...
- Marcos - ele disse no viva-voz. - Mande flores para a mãe de Elisa. Um arranjo funerário.
- Senhor?
- E depois ligue para ela dizendo que foi um erro do florista. Deixe-a preocupada.
Gustavo observou, horrorizado. - Isso é baixo, mesmo para você.
- Elisa achou que poderia brincar com fogo - Eduardo levantou os olhos, e Gustavo viu a fúria absoluta neles. - Agora ela vai aprender o que é ser queimada.
O telefone tocou - era um dos subscritores do IPO. Eduardo mudou instantaneamente, sua voz ficando profissional e calorosa. - Anderson, como estão as coisas no pregão?
Enquanto conversava sobre preços de abertura e demanda institucional, seus olhos permaneciam fixos nas fotos de vigilância de Elisa. A dualidade era assustadora - o empresário bem-sucedido lançando uma das maiores IPOs do ano, e o homem vingativo orquestrando a destruição metódica de uma vida.
As reuniões do IPO eram intermináveis. Teleconferências com investidores em Nova York, Londres, Tóquio. Apresentações para fundos de pensão, reuniões com analistas, entrevistas coletivas. Cada momento era cronometrado, cada palavra cuidadosamente escolhida.
E em cada pausa, em cada momento de silêncio entre uma reunião e outra, a imagem de Vivian o assombrava. Vivian ignorando-o na galeria. Vivian virando as costas. Vivian com aquele olhar de dor disfarçado sob compostura profissional.
- Precisamos de você focado, Eduardo - Gilbert disse em uma rara aparição no escritório. O velho observava o neto com uma expressão que Eduardo não conseguia decifrar. - O IPO é o legado da nossa família.
- Estou focado - Eduardo respondeu, mas sabia que era mentira.
Como poderia estar focado quando cada relatório de vigilância sobre Elisa era um lembrete do porquê estava fazendo aquilo? Quando cada memória de Vivian era uma faca torcida em suas entranhas?
Ele só precisava de alguns dias. Alguns dias para descobrir quem vazou o contrato para Elisa. Alguns dias para eliminar completamente qualquer possibilidade dela ameaçá-lo novamente. Alguns dias para garantir que Vivian estaria segura, mesmo que ela nunca soubesse o perigo que enfrentara.


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