O cheiro de antisséptico era a primeira coisa que Eduardo percebeu quando a consciência começou a retornar em fragmentos desconexos. Uma dor surda e profunda nas costas, vozes abafadas, o som monótono de monitores hospitalares. Ele tentou abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam como chumbo.
- Doutor, ele está se movendo!
A voz era de Vivian. Soava rouca, exausta, mas cheia de uma esperança que fez seu coração doer.
Ele forçou os olhos a se abrirem, as luzes brancas do hospital ofuscando sua visão por um momento antes de se ajustarem. E então a viu - sentada ao lado de sua cama, seus cabelos embaralhados, olhos inchados e com olheiras escuras, mas ainda a mulher mais linda que ele já vira. Sua mão envolvia a dele, seus dedos entrelaçados com uma firmeza que falava de horas - dias? - de vigília constante.
- Eduardo? - ela sussurrou, seus olhos marejando. - Você está comigo?
Ele tentou falar, mas sua garganta estava seca, a voz saindo como um rosnado. Vivian entendeu imediatamente, pegando um copo de água com canudo e levando-o a seus lábios. O líquido fresco foi um alívio celestial.
- Quanto tempo? - ele conseguiu perguntar, sua voz ainda fraca.
- Três dias - ela respondeu, sua mão apertando a dele. - Você esteve... - sua voz quebrou, - em estado crítico. A bala passou perto da sua coluna. Os médicos disseram que mais um centímetro...
Ela não conseguiu terminar, mas ele entendeu. A lembrança do armazém voltou em flashes - Camilo, a arma, ele se jogando na frente dela, o som do tiro...
- Você está bem? - ele perguntou, seus olhos examinando seu rosto em busca de qualquer sinal de ferimento.
Ela riu através das lágrimas, um som de puro alívio. - Você quase morre e está preocupado comigo?
- Sempre - ele sussurrou, levantando a mão livre para tocar seu rosto. Seus dedos tremiam levemente, mas o contato com sua pele foi como voltar para casa.
Os dias seguintes foram uma névoa de dor, medicamentos e visitas médicas. Vivian raramente saía de seu lado - quando não estava segurando sua mão, estava ajustando seus travesseiros, conversando com os médicos, ou simplesmente sentada em silêncio, sua presença um bálsamo constante.
Foi através dela que ele soube o que aconteceu depois que perdeu a consciência. A equipe de Ernesto e a polícia espanhola tinham prendido Camilo e seus cúmplices. As provas que Vivian coletou, meticulosamente documentadas e escondidas, eram suficientes para incriminar toda a rede de falsificação. Gilbert voara para Madri assim que soube, usando toda a influência da família Braga para garantir que Eduardo recebesse o melhor tratamento possível antes de serem transferidos de volta para o Brasil.
- Seu avô... - Vivian comentou uma tarde, enquanto ajudava Eduardo a se sentar para comer, - ele mudou. Estava genuinamente preocupado com você. Com nós dois.
Eduardo não respondeu, mas guardou a informação. Havia muito para processar - não apenas seu ferimento, mas as revelações no armazém, a verdade sobre todos aqueles anos perdidos...
A transferência para o Brasil foi arranjada com a eficiência característica dos Braga - um jato médico equipado com tudo necessário, uma equipe de médicos particulares, e Gilbert garantindo que cada detalhe fosse perfeito. Vivian nunca deixou seu lado, sua presença constante uma âncora em meio à dor e confusão.
Foi em uma tarde tranquila, já no Brasil, enquanto se recuperava em sua suíte no hospital particular, que os pais de Vivian chegaram para visita.
Eduardo os viu entrar - Dona Laura com seus olhos bondosos agora cheios de preocupação, Seu Roberto com sua postura ereta, seu rosto sério. Eles sabiam - Gilbert lhes contara tudo, desde o sequestro até o sacrifício de Eduardo para salvar sua filha.
- Eduardo - Dona Helena aproximou-se da cama, sua mão acariciando suavemente sua testa. - Como você está, meu filho?
O termo carinhoso, algo que ela não usava desde que ele e Vivian eram adolescentes, fez seus olhos se encherem de lágrimas que ele rapidamente piscou para trás.
- Estou melhor, Dona Helena. Obrigado por vir.
O Sr. Roberto Souza permaneceu em silêncio por um momento, seus olhos estudando Eduardo com intensidade.
- Você salvou a vida da minha filha - ele disse finalmente, sua voz grave. - Estaremos eternamente em dívida com você.
- Não há dívida, Seu Roberto - Eduardo respondeu, mantendo o contato visual. - Eu faria isso mil vezes se preciso fosse.
Vivian, que observava a cena da porta, sorriu suavemente. - Mãe, pai, vou buscar algo para comer na cafeteria. Vocês querem algo?
- Não, querida - Dona Helena respondeu, seus olhos entendendo a deixa.
Quando Vivian saiu, um silêncio pesado pairava no quarto. Eduardo sabia que este era o momento - talvez o único que teria antes que sua coragem desaparecesse.

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