Noah me soltou como se levasse um choque.
Se trancou no escritório o restante da noite. Ouvi quando Suzanna passou por mim.
Eu estava deitada no sofá da sala tentando lutar contra a minha raiva. Odiava aquela casa, o silêncio, mas, acima de tudo, odiava o que Noah Blanc me fazia sentir.
Suzanna passou por mim e eu senti os olhos dela me queimarem. Não abri os olhos. Não até ouvir a voz dela chamando por Noah, dando batidinhas na porta do escritório.
— Noah, abre. Não quero ficar sozinha com ela. Estou com medo. Por favor, amor.
Ele não abriu. Suzanna foi até o quarto, buscou alguns travesseiros e um cobertor. O mesmo que havia abrigado o meu corpo e o de Noah por várias e várias noites antes dela chegar.
Deitou na porta do escritório e ficou lá.
Quando amanheceu, eu segui as regras dele. Se era uma serva que ele queria e esse era o preço pela vida do meu pai, eu pagaria.
Estava preparando o café da manhã quando ouvi os passos de Suzanna atrás de mim.
— Dormiu bem, Aurora?
A água fervendo no fogão parecia um convite. Bastaria virar e fazer aquela cara falsa derreter bem na minha frente.
Respirei fundo.
— Não sou o tipo de filha que consegue descansar com o pai em um hospital. Cadê a sua mãe, Suzanna? Ela pode mexer nas contas da família, liquidar bens, fazer alguma coisa para que o nosso pai tenha alguma chance.
— O papai vai ficar bem. Não precisa ficar nervosa. Por que não gosta de mim, irmãzinha?
Eu não estava entendendo nada. Suzanna falou de coisas que nunca existiram.
— Nunca contei para ninguém que foi o seu namorado que me estuprou. Perdi o homem que eu amo porque ele acha que eu o traí, você se casou com ele. Sempre consegue tudo e quase me matou. Precisa parar, eu sei que me culpa pela minha mãe ter se casado com o seu pai, mas eu passei a vida me desculpando. Por favor, vamos ser amigas.
Me virei com tudo e joguei a água fervendo, mas Noah a empurrou e toda a água foi no peito dele.
A pele ficou vermelha na hora. E ele me encarou com os olhos pesados de ódio.
A respiração ofegante. Os braços queimados também.
— Noah!? Meu Deus! Eu... onde tem uma pomada? Qualquer coisa?
Entrei em pânico. Ele não parecia com dor, mas a minha cabeça latejava. Não era medo do que ele faria. Era culpa. Eu nunca o quis machucado.
Como ele não respondeu, eu peguei um pano úmido e tentei me aproximar, mas Noah segurou minha mão e avisou.
— Nunca mais toca nela. Você não vai continuar machucando a Suzanna por inveja. Isso é ridículo, Aurora.
— Eu... eu nunca fiz isso, Noah. Ela está mentindo. Ela sabia que você estava ouvindo, por favor.
— Vai se trocar. Vamos para a empresa.
— Noah, deixa eu cuidar de você. Está machucado.
— Suba antes que eu perca a paciência, Aurora. Você está brincando com fogo.
Suzanna ria no canto da cozinha e, assim que eu saí, eu a ouvi falando com o meu marido.
— Obrigada, Noah. Você sempre cuidou de mim. Eu te amo tanto.

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