Quando subi, o silêncio no andar da presidência era ensurdecedor. Ninguém ousava tirar os olhos das telas dos computadores.
Fui para a sala de Noah e me sentei na poltrona.
Andei entre as estantes, sentei outra vez... Estava arrumando a mesa dele quando a porta abriu.
— Noah!
— O que você, Aurora? O que estava pensando? Achou que pagaria pelo tratamento do seu pai e ficaria livre de mim?
— Não! Noah, eu não fiz isso. Estava lançando os contratos que a Karina mandou.
— Claro, e quer me convencer que ela fez dezenas de transferências para a sua conta?
— Noah, eu fiz as transferências, mas eu não sabia.
— A partir de hoje você vai trabalhar no arquivo. Não toca em nada além de papel velho. Sai da minha frente, Aurora. Agora!
— Noah...
Ele não permitiu que eu terminasse de falar. Segurou o meu pulso e me colocou para fora da sala dele. Quando levantei a cabeça, todos estavam olhando para mim.
A sensação de peso quase me sufocou. Meus olhos queimavam e eu sentia as lágrimas tomarem meu rosto antes de escorrerem.
Corri para o banheiro e, quando estava no corredor, as risadas me envergonharam ainda mais.
Coloquei as duas mãos embaixo da torneira e fiquei olhando a água transbordar. A porta abriu, mas não olhei, achei que fosse alguma funcionária.
— E agora, ainda quer competir pela vaga de assistente do senhor Blanc?
Fechei os olhos, a voz de Karina me enojava.
— Pode ficar.
Tentei sair e ela me puxou pelos cabelos. Não foi forte, alguma coisa aconteceu e eu me desequilibrei. Caí no piso molhado e, quando tentei colocar a mão, o choque fez meu pulso deslocar.
Primeiro uma sensação elétrica, depois dormência e, por fim, a dor que latejava como se houvesse algo vivo no meu pulso.
A expressão de Karina era de susto.
Mas se tornou raiva em seguida. Ela ajoelhou no meu peito e segurou o meu pescoço com as duas mãos.
Não consegui me defender. Meu pulso doía e meus dedos não tinham força.
— Escuta aqui, se contar para alguém o que aconteceu aqui, eu vou te matar, entendeu?
Quando ela soltou, eu comecei a tossir e só soube que ela tinha ido embora porque ouvi a porta bater.
Lavei o rosto e fui para o arquivo. O responsável pelo setor já estava me esperando.
— Olá, deve ser a Aura. Estou feliz por termos recebido reforços por aqui. Mas não precisa vir tão arrumada. Economize suas roupas. Usará um colete e luvas. Ninguém vai ver essas roupas chiques.
— Tudo bem.
Minha voz saiu meio chorosa e acabei sendo acolhida. O chefe do setor segurou a minha mão com uma ternura que eu nunca tinha recebido antes.
— Meu nome é Erick. Deve estar assustada, mas, acredite em mim, vai gostar de trabalhar com a gente. Aquela é a Luana, ela está aqui há quatro anos, me adora. Sou um chefe bem legal.
— Obrigada, senhor Erick.
Levantei a cabeça e tentei sorrir.
O chefe do setor de arquivos era um homem de mais ou menos quarenta anos, alto e com o corpo definido pelo trabalho braçal. Cabelos e barba escuros e um olhar calmo que parecia oferecer segurança.
Fiquei ali o restante do dia, mas, quando a empresa fechou, eu me dei conta de que Noah não me levaria para ver o meu pai como ele tinha prometido.
Chamei um carro por aplicativo e fui sozinha.

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