POV: AIRYS
— Não acha que deveríamos voltar? E se aparecerem mais? — olhei por sobre seu ombro, tensa. — Não me sinto segura aqui.
— O beta está patrulhando com os rastreadores. — bufou, incomodado, e tocou minha bochecha com um carinho que contrastava com o tom anterior. — Precisa aprender a confiar em mim, Airys.
Arfei, estremecendo ao toque inesperado. Como confiar em alguém que parecia saber mais sobre mim do que eu mesma?
— Você confia em mim? — perguntei, erguendo o olhar, respirando fundo, tentando decifrá-lo.
Ele segurou meu queixo, inclinando o rosto até ficar próximo demais.
— Você quase me esfaqueou e eu não te matei por isso. — provocou com um tom rouco e grave, os olhos brilhando com intensidade. — Diria que sim.
— Nem passei perto disto, dramático. — Revirei os olhos com um sorriso sarcástico, negando com a cabeça enquanto voltava a me vestir. — Podemos voltar?
Daimon não respondeu de imediato. Apenas assentiu com um movimento discreto, mas seu silêncio dizia mais do que palavras. Vi o leve cintilar de decepção em seu olhar, rápido, como um reflexo mal contido. Orgulho demais para admitir, claro. Vesti-me às pressas, e descemos a montanha em completo silêncio, apenas o som dos nossos passos e o vento cortando o ar úmido da floresta nos acompanhava.
Assim que cruzamos os limites da propriedade, o ar da alcateia parecia mais denso, impregnado de desejo, risadas abafadas e o tipo de energia que deixava a pele arrepiada. Uma tensão pulsante, carregada de algo primal.
Segui rumo ao meu quarto, mas fui bruscamente interrompida. Um braço forte se esticou à minha frente, impedindo que a porta se abrisse. A outra mão segurou firme a maçaneta. A voz de Daimon veio baixa, porém autoritária, sem espaço para contestação.
— Este não é mais o seu quarto. — Sua mão tomou a minha com firmeza, entrelaçando os dedos como se aquilo fosse uma marca de posse. Antes que eu protestasse, ele levou meus dedos aos lábios e beijou o dorso, depois me puxou com ele, sem pressa, como se aquilo fosse o mais natural do mundo.
Desci os olhos para o gesto. Simples. Íntimo. Uma cena quase banal, se não fosse vinda dele, do Alfa Supremo. Sua mão era absurdamente maior que a minha, quente, protetora, dominadora. O contraste entre sua brutalidade e esse toque quase afetuoso me desarmou. Ele parecia confortável com aquilo. Natural. Quase... carinhoso.
Malik nunca segurou minha mão. Nunca ousou me mostrar em público como algo seu, nunca me viu como parceira, apenas como propriedade, alguém dois passos atrás, com a cabeça baixa. Uma sombra decorativa.
"Um idiota que não merecia nada", vibrou em minha mente com a voz impaciente.
— O que foi? — Daimon perguntou, me lançando aquele olhar de canto, penetrante, como se tentasse me despir com os olhos. — Estou segurando forte demais?
— Não. — Respondi, surpresa com a preocupação que escorregava, mesmo que disfarçada. — É estranho o que vou dizer, mas... Para um monstro feroz, você é bem gentil, Alfa.

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