POV: DAIMON
Hazim avançava contra Nero como um demônio descontrolado, os olhos tomados por dor e vingança. Cada soco que desferia carregava a fúria de ter perdido sua companheira e o filho que nunca chegou a nascer. Os rosnados do seu lobo rasgavam sua garganta junto aos gritos abafados pela dor. O cheiro de sangue se misturava à neve pesada que caía, o som dos corpos se chocando, uivos, ossos se partindo e o estalo de garras contra carne preenchia tudo ao redor.
A guerra havia explodido. Inimigos vinham de todos os lados. Guerreiros de outras alcateias, errantes, rostos desconhecidos. E então, senti. A presença de bruxas. Elas estavam camufladas entre nós, se disfarçando com feitiços para parecerem Lupinos. O cheiro era estranho, mágico demais. Não consegui identificar quem eram, mas não hesitei. Quem se aproximava, morria. Esmagava costelas, perfurava gargantas, rasgava sem misericórdia. Não tinha espaço para hesitação.
Mas algo me incomodava. Aquilo não era um ataque direto. Não era uma tentativa de domínio. Era distração. Era tempo. Queriam nos manter ocupados. E então, Fenrir rugiu dentro da minha mente.
"Nossa Luna."
O grito mental me fez parar. Um impacto seco me percorreu de dentro para fora. O instinto foi imediato. Girei o corpo pronto para correr, mas Kael surgiu na minha frente. Tremia. Ao lado dele, dois outros lobos, e atrás, duas figuras humanas. Estavam encapuzadas. Não consegui ver seus rostos, mas o cheiro confirmou.
— Bruxas... — murmurei com desdém, sentindo Fenrir rosnar com ódio dentro de mim.
As duas abriram os olhos em surpresa. Rapidamente sopraram um pó em nossa direção. O cheiro forte invadiu meu nariz, queimando por dentro, turvando minha mente. Cambaleei. Levei a mão à cabeça, tentando manter o controle. Tudo ao meu redor ficou mais lento, minha visão embaralhada.
Um vulto se moveu. Algo veio em minha direção. Mas antes que o golpe me atingisse, ergui o braço e agarrei o punho que vinha contra mim. O estalo foi audível. Os ossos quebraram sob meus dedos. A bruxa gritou, um som agudo e desesperado, e eu continuei apertando até sentir o sangue escorrer pelos meus dedos.
Arfei com força. Minha respiração estava pesada, o coração acelerado. O cheiro de feitiçaria me irritava. A vontade de matar tomava conta.
— O Supremo está atordoado, ataquem agora! — ouvi alguém gritar no meio do caos.
Minha visão estava tomada por um tom escuro, avermelhado. Os rostos ao meu redor se misturavam. Todos pareciam inimigos. Todos estavam na mira da minha fúria. Fenrir se agitava dentro de mim, pressionando com brutalidade. Ele sentia o cerco, a ameaça, e isso tornava tudo ainda mais perigoso. Se ele tomasse o controle por completo... não sobraria ninguém vivo. Nem aliado, nem inimigo.
Uma dor aguda explodiu na minha perna. Algo atravessou minha panturrilha, me fazendo cair sobre um joelho. Arfei com força, os dentes cerrados, rasgando tudo que se aproximava sem distinguir quem era. O sangue respingava, os gritos se misturavam aos estalos de ossos sendo quebrados.
— Vão pagar por isso... todos vocês. — minha voz saiu rouca, abafada pelo som do rugido feroz de Fenrir em minha mente.
“Vou matar todos... Eles vão sentir. Não vão me derrubar. Ninguém pode.”
— Contenha-se, Fenrir, porra! — rosnei alto, tentando puxar o controle de volta. — Não agora. Me obedeça!
Minha respiração estava descompassada, o peito arfando. O ar frio queimava ao entrar nos pulmões. Senti as garras pressionando por baixo da minha pele, a fúria crescendo como fogo. Era difícil controlar, quase impossível. Mas eu sabia que se perdesse o domínio... eu perderia tudo. Incluindo ela.

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