POV: AIRYS
Um rugido alto, rasgado, brutal, ecoou em minha mente. Era um som que quebrava qualquer resistência. Soava como dor, raiva e desespero ao mesmo tempo. Aqueles olhos vermelhos voltaram à minha lembrança: opacos, perdidos, frios e... vazios. Senti como se algo dentro de mim tivesse se rompido. Como se algo vital tivesse sido arrancado. Meu peito doía. Minha alma gritava. Grunhidos silenciosos, soluços sem som. Meu corpo inteiro se encolhia. Algo quente e úmido rolou pela lateral do meu rosto. Estava chorando. Mesmo sem entender o motivo exato, meu corpo reagia como se tivesse sido quebrado.
— Eu morri? — sussurrei, com dificuldade. Minha garganta queimava. Meu corpo estava mole, dolorido. Cada movimento era uma tortura. Gemidos baixos escaparam enquanto tentei mexer a cabeça, mas uma pontada aguda me obrigou a parar. — Minha... cabeça...
Aos poucos, a escuridão ao meu redor começou a ceder. Minha visão clareava lentamente, revelando vultos, formas, luzes brancas. O som de batimentos cardíacos soava constante, alto demais, abafado. Tentei mover o braço, mas algo o prendeu, puxando com força. Arfei. Doeu. Uma fisgada cruel correu por todo meu ombro.
Abri a boca, tentei gritar, pedir ajuda, qualquer coisa. Mas nada saiu. Um tubo pressionava minha garganta. A sensação de sufocamento era real. Um gosto metálico e amargo invadiu minha boca. Comecei a me debater com as poucas forças que tinha. Meu corpo inteiro tremia.
"Ele quase nos matou!" a voz gritou dentro da minha mente, e então, de repente, como se levasse um choque, eu me sentei de súbito, ofegante, o peito subindo e descendo em ritmo frenético. O medo tomou conta de mim. As lembranças fragmentadas voltavam em flashes: a água gelada, a pedra, o impacto, a dor...
Minhas mãos trêmulas foram até o tubo em minha boca. Os dedos escorregaram nas tiras de esparadrapo que o prendiam. Puxei com cuidado, sentindo a garganta protestar. O tubo deslizou, provocando uma ânsia violenta. Tossia sem parar, quase vomitando, enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Meus olhos varreram o ambiente. Um quarto branco, frio, clínico. A claridade me incomodava. Tudo estava limpo demais, silencioso demais. O coração batia acelerado no peito, quase como se fosse explodir. O lençol úmido de suor colava no meu corpo. Eu tremia, arfava. Estava viva. Mas por quê? Como?
— Bom dia, desconhecida. Tive outra conversa com aquele médico arrogante e... — uma voz feminina soou da porta, casual, até que se interrompeu de repente. — Meu Deus... você despertou... Não, não, não arranque isso!
Era tarde demais. Meus dedos já haviam puxado o tubo da garganta. Tossia com violência, o peito arqueando com cada respiração dolorida. A dor queimava por dentro. Meus olhos lacrimejavam, não sabia se por reflexo ou desespero. Asfixiada pela sensação de sufoco, quase vomitei ali mesmo.
A mulher, de jaleco branco, cabelos negros presos, olhos verdes e expressão marcada pela surpresa, correu até mim. Suas mãos estavam geladas quando se encostaram às minhas costas para me ajudar a me apoiar. Apesar do toque firme, ela foi cuidadosa. Seus olhos iam dos monitores para mim, com urgência controlada.
— Por favor, querida, encosta para trás — pediu com uma voz que misturava autoridade e carinho. — Deixa eu te avaliar.
Resisti no início, mas minhas forças se esvaíam rápido. Voltei a me recostar, o corpo inteiro trêmulo, arfando. Ela posicionou o estetoscópio sobre meu peito e ouviu atenta, fazendo pequenos ajustes na cabeça. Depois de alguns segundos, pegou um copo com gelo e me ofereceu com um sorriso suave.
— Chupe devagar. Sei que está com a boca seca, mas você precisa começar lentamente. Faz muito tempo que você estava dormindo.

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