POV: AIRYS
Segurei o colar nas mãos e senti um peso estranho apertar meu peito. A pedra azul parecia vibrar levemente, morna contra meus dedos.
— O que é esse colar? — perguntei, a voz embargada pela tensão.
— Era da minha mãe — disse ela, com um sorriso triste. — Uma feiticeira poderosa. Essa pedra é encantada. Vai camuflar seu cheiro e sua aparência. Impedir que qualquer lobo consiga rastreá-la... mesmo que ele seja o Alfa Supremo.
Senti minha garganta fechar. Meu coração disparou. Levei a mão instintivamente à barriga. A presença das três pequenas vidas ali dentro parecia ainda mais real. Mais urgente. Eu estava dividida entre o desespero de sumir do mundo... e o impulso irracional de querer vê-lo mais uma vez. De entender se ele sentiria. Se reconheceria nossos filhos.
Jaqueline segurou minha mão, firme.
— Se escolher ficar, posso protegê-la. Mas isso significa abandonar sua identidade. Você terá outra vida, outro nome, outro rosto. E jamais poderá voltar para ele. Se Daimon souber da existência deste lugar... todos nós estaremos condenados. Ele está completamente fora de controle.
Arfei, sentindo o peso da escolha me esmagar. Minhas mãos tremiam. Olhei para ela com os olhos marejados, o rosto pálido.
— Eu o amo... — confessei com a voz baixa, tremendo, sentindo um nó se formar na garganta. — Achei que tivesse conhecido o homem por trás da fera..., mas agora acho que... no fundo, criei uma ilusão. Quis acreditar que ele me amaria... mesmo eu sendo apenas humana.
Engoli em seco, sentindo as lágrimas escorrerem pelas bochechas. Cada palavra doía como uma lâmina cravando fundo.
Com os dedos trêmulos, coloquei o colar no pescoço. A pedra repousou sobre meu peito, quente contra a pele. Toquei-a devagar, como se pudesse selar um adeus com aquele gesto.
— Esquece... Airys Monveil morreu naquele rio... — sussurrei com firmeza, mesmo com a voz falhando no fim. — Morreu junto com o amor que sentia por Daimon Fenrir.
Olhei para minha barriga. Minha mão pousou sobre ela com delicadeza. A pele arrepiante sob o toque. Senti o calor das vidas que cresciam ali dentro, como se me ancorassem à realidade.
— Que minha vida humana... seja melhor do que aquela que eu deixei para trás. Porque agora, tudo o que importa... é protegê-los.
E se para isso eu tiver que desaparecer do mundo...
Então que o mundo me esqueça.
— Será, querida... você só precisa se recuperar e se concentrar nessas vidas em seu ventre. — Jaqueline sorriu de um jeito amoroso e carinhosamente debochado. — Agora, me conta... o que mais pode dizer sobre você?
— Bem... sou médica. — Respondi, tentando manter a voz firme. — E, pelo que vi, vocês precisam de ajuda aqui.
— Viu só? O Destino tem um senso de humor refinado! — Ela comentou, balançando os ombros com uma animação súbita. O sorriso quase me arrancou um suspiro.
A porta se escancarou de repente, batendo com força na parede. Meus músculos tensionaram. O susto fez meu coração saltar. Um homem de cabelo castanho bagunçado, pele marcada por sangue e suor, entrou sem cerimônia. Alto, forte, olhos âmbar intensos como o âmago de uma tempestade.
— Meu Deus, Colen! — Jaqueline rolou os olhos. — Já ouviu falar em bater antes de entrar?
Os olhos dele varreram a sala até pousarem sobre mim. Ele semicerrrou os olhos e um sorriso insinuante surgiu em seus lábios, deixando à mostra presas discretas.

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