POV: AIRYS
— Não quero parecer cruel, Airys... — Sua voz vacilou. — Também já amei um lobo poderoso. Daria minha vida por ele sem pensar duas vezes... até que, um dia, os instintos dele falaram mais alto. E ele não se importou com quem estava no caminho.
Ela parou por um instante, os olhos presos aos meus.
— Colen e eu só queremos o seu bem... e o das crianças. — completou, séria. — Não queremos te encontrar de novo caída na beira do rio, quebrada... ou pior.
Engoli em seco. As palavras dela pesaram. Entraram como agulhas finas, latejando com lembranças que eu queria esquecer.
— Jack... — murmurei, sentindo a garganta apertar. — Você me perguntou... se eu achava que ele havia me atacado. Mas durante a queda... eu vi algo.
Minha voz falhou, e respirei fundo, tentando encontrar estabilidade. Meus dedos tremiam sobre o lençol.
— Vi Daimon. Em forma humana. E na frente dele... um lobo negro. Um imenso, olhos vermelhos só que opacos. Eu pensei que fosse a minha mente me enganando. Estava sangrando demais, escuro, tudo doía... e eu estava literalmente caindo.
Arfei, tentando manter o ritmo da respiração. O coração batia forte no peito, ainda fragilizado pelo parto, ainda frágil por tudo.
— Mas agora... eu penso. Como seria possível? Só a linhagem Fenrir possui lobos negros com olhos vermelhos. E Daimon é o único vivo dos Supremos. — Meus olhos encontraram os dela, sérios, firmes. — Quem mais poderia ser?
Jaqueline não respondeu de imediato. Apenas suspirou de novo, com o rosto cansado. Ela terminou de ajeitar os cobertores ao meu redor, com movimentos calmos, mas havia tensão em seus ombros. Colocou os bercinhos dos bebês ao lado da maca, um de cada lado, os três dormindo. Tão pequenos. Tão frágeis.
Ela se sentou ao meu lado e olhou para os meus filhos com um carinho silencioso, que me fez apertar os olhos para conter mais lágrimas. Depois, me encarou com pesar.
— Não sei. Olha, acredito que você tenha conhecido um lado humano nele, sim. Há uma razão para esse amor. Você o viu... realmente viu Daimon. E isso te prendeu a ele. — Seu tom era gentil, mas carregado de alerta. — Só que ele ainda é um Fenrir, Airys. O último. E o lobo dentro dele... é antigo. É ancestral. Um predador de guerra. Um monstro criado em eras onde o instinto vinha antes de tudo. E essa guerra o deixou ainda mais instável, mais feroz.
Ela engoliu em seco, desviando o olhar por um momento.
— Ele matou o próprio irmão, Airys. E não demonstrou um único arrependimento. — Ela estendeu a mão e tocou minha perna, o toque quente e reconfortante. — Não estou dizendo isso para te machucar. Mas você precisa entender... precisa estar preparada. Amar o Supremo pode te consumir. Pode destruir tudo o que você está tentando proteger agora.
Meus olhos arderam, mas não desviei.
— Apenas pense nisso... — Jaqueline insistiu, a voz baixa, mas firme. — E se ele não for capaz de distinguir os inimigos dos próprios filhotes?
Sua testa se franziu, o olhar cravado no meu com dureza, mas havia dor ali, medo por mim, pelos bebês.
— Você seria capaz de matá-lo... para proteger seus filhos do pai deles?
Minha respiração travou. O silêncio caiu entre nós como uma sentença. Desviei o olhar, sentindo o peso da pergunta me esmagar por dentro. Virei o rosto lentamente e olhei para eles... meus filhos. Meus três pequenos, tão frágeis, tão dependentes de mim. Sentia o peito apertar, o ar rarefeito nos pulmões. Eu faria qualquer coisa por eles. Moveria mundos. Queimaria tudo. Lutaria com garras e dentes.

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