POV: AIRYS
Abri os olhos de súbito, arfando como se tivesse emergido debaixo d’água. O peito subia e descia em um ritmo frenético. Estava suada, a roupa grudando no corpo, o coração batendo tão forte que parecia prestes a rasgar o peito.
Olhei em volta, confusa. Meu quarto. Mas algo estava errado. Tudo errado.
— Meus filhos... — sussurrei, cambaleando ao me levantar. As pernas mal me sustentavam. Levei a mão à cabeça, que latejava com força.
Fui até a porta. Trancada. Tranquei os dentes, enchi o peito de ar e comecei a bater com os punhos.
— JACK! — gritei, furiosa. — Eu sei que você está aí, desgraçada! — socava, empurrava, usava o ombro tentando arrombar. — Por quê?! Por que tá fazendo isso?!
Lágrimas desciam quentes pelas bochechas, misturadas ao suor. Minha respiração saía em arfadas curtas e rápidas.
— Você os viu crescer... você era a tia Jack... COMO PODE?! — gritei, com a voz embargada, um nó na garganta. — ELES SÃO CRIANÇAS!
Senti o peito doer como se estivesse sendo esmagado. Continuei batendo, socando, chutando, com o desespero subindo em ondas que me faziam tremer.
— ABRE ESSA MALDITA PORTA!
— Desculpa, Airys... — a voz dela veio abafada, do outro lado da porta. Baixa, frágil... hipócrita. — Mas pra trazer minha irmã de volta... ele precisa das crianças.
Dei um passo para trás. O ar sumiu dos meus pulmões como se tivesse levado um soco. Um arrepio gelado correu por minha espinha. Minhas pernas tremiam. O peito se apertou de um jeito sufocante, como se estivesse sendo esmagado por dentro.
— Você... — minha voz falhou. Pisquei, tentando conter o desespero, mas as lágrimas já escorriam, quentes, silenciosas. — Eu confiei em vocês. Eu confiei a vida dos meus filhos nas SUAS mãos...
— Eu sei... — ela murmurou, e parecia sinceramente triste, o que me enfureceu ainda mais. — Foi por isso que foi tão fácil.
Fiquei imóvel por um segundo, absorvendo cada palavra como se me atravessassem.
— Sua vagabunda traidora... — minha voz saiu trêmula de ódio. — Eu vou fazer vocês sentirem de verdade. Juro pela vida dos meus filhos que vocês vão pagar por isso!
Gritei, surtada, e voltei a chutar a porta com tudo que tinha. As pancadas ecoavam no quarto, mas ela não cedia.
Do outro lado, ouvi Colen discutir com Jaqueline. A voz dele, mais ríspida, mais aguda. Algo sobre aquilo não estar nos planos. O tom irritado dele se perdeu na distância quando se afastaram.
Meu coração disparava. O corpo estava em alerta, cada nervo à flor da pele.
Corri os olhos pelo quarto. Eu precisava sair dali. Agora.
Fui até o guarda-roupas e abri a porta com pressa. A parte de trás, que eu mantinha solta, ainda estava do jeito que deixei. Enfiei a mão lá dentro e puxei a caixinha escondida. Meus dedos encontraram o cabo da adaga de prata. Respirei fundo ao tocá-la. Fria. Letal. Minha última carta.
Peguei uma mochila pequena e, em movimentos rápidos, enfiei algumas roupas dentro. Meus dedos tocaram a máscara. Tracei o contorno dela com o indicador, sentindo o desenho firme, as bordas definidas. Meu peito apertou. Mordi o lábio por dentro até o gosto do sangue se misturar com a culpa que já me afogava.

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