POV: DAIMON
— Alfa, tem certeza disto? — Symon caminhava ao meu lado enquanto atravessávamos o salão principal. Seus olhos varriam documentos, atentos aos pontos marcados com precisão. Mesmo com a voz controlada, a tensão se infiltrava em cada sílaba. — Este plano é arriscado demais.
Não respondi de imediato. Os passos firmes ecoavam sobre o piso de mármore, ritmados com meu estado de espírito: impaciente. O peso dos anos queimava sob minha pele. A ausência dela era uma ferida aberta que o tempo se recusava a cicatrizar.
— O inimigo está se escondendo bem, Beta. — Rosnei baixo, grave, deixando a voz arranhar em meu peito. — Precisamos tirá-lo da toca. O baile será a oportunidade perfeita para me “verem vulnerável”.
Fenrir rosnou com sarcasmos dentro de mim. O lobo se mantinha silencioso há anos, irritado, inquieto. Mas sua presença era como um peso constante no fundo da minha mente. Mesmo sem palavras, ele me invadia com sua frustração e impaciência.
— Você se usará como isca. — Symon prendeu a respiração por um instante. A preocupação estava estampada em seu rosto, o maxilar travado, os olhos escuros marcados por lealdade. — Ao menos permita que eu participe da sua segurança pessoal.
Deslizei as mãos até os bolsos do sobretudo, deslizando os dedos com lentidão, antes de tombar levemente a cabeça para o lado, encarando-o com intensidade.
— Suas ordens já foram designadas. — falei com firmeza, cada palavra sendo um comando inegociável. — Preciso de você próximo à fronteira. É o único ponto cego. Os rastros somem ali. Existe algo escondido… magia, talvez. Uma passagem oculta. Descubra o que é.
Symon franziu o cenho, o peito arfando em um suspiro pesado. Sabia que discutir comigo seria inútil, mas mesmo assim, tentou.
— Mas meu rei...
— OITO ANOS, BETA! — Minha voz explodiu pelo salão como um trovão. A parede estremeceu, e os empregados próximos congelaram, alguns derrubando o que carregavam, outros recuando com medo, olhos arregalados, ombros curvados. O som da minha fúria os atingiu como uma onda violenta.
Respirei fundo, coçando as têmporas com força, tentando conter o impulso de destruir algo. As veias do meu pescoço pulsavam com fúria.
— Oito anos sem encontrá-la. — Rosnei, sentindo minha mandíbula se travar. — Sem protegê-la. Sem saber se ela estava sendo caçada, humilhada… ou pior. — O gosto amargo da impotência queimava minha garganta. — Oito anos sem a minha Luna. Tempo demais.
Symon hesitou, os olhos baixando por um instante antes de erguer o olhar novamente.
— Como consegue ter tanta certeza de que ela ainda vive? — Sua voz estava baixa agora. Sincera. Carregada de dor e dúvida. — Não conseguimos encontrar qualquer sinal de que a humana tenha sobrevivido àquela noite.
— Há emoções que sinto que são... intensas demais. — Murmurei, deslizando os dedos pela linha do maxilar, coçando o queixo, sentindo o músculo latejar. — Tristeza... mágoa... medo. Ela está com medo. E está sozinha. — Soltei o ar pela boca, forçando os pulmões a funcionarem enquanto o peito ardia. — Ela precisa de mim... precisa de nós.

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