POV: AIRYS
Ele não respondeu de imediato. Senti seu olhar pesado sobre mim, como se avaliasse cada fragmento partido que eu expunha. Então, com um movimento lento, roçou a ponta dos dedos no meu queixo, me forçando a erguer o rosto. O toque dele era firme, possessivo, desenhando meus traços como se quisesse memorizar cada linha da minha pele.
— Você sempre desejou ter uma família, pequena. — Disse em um tom rouco, quase cruel de tão verdadeiro. — Mas sua lealdade continua sendo depositada nas pessoas erradas.
— Não mais. — Sussurrei com firmeza, pousando minha mão sobre a dele. Apertei com força, cravando os dedos na sua pele quente e dura. — Nunca mais, Daimon. Sou sua Luna. Quero nossos filhos de volta. E farei o que você mandar para conseguir.
Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos escuros me devorando como um predador analisando sua presa. Vi sua língua passar lenta e provocativamente pelas presas, pensativo, o movimento animalesco e brutal que fez meu corpo inteiro enrijecer de desejo e nervosismo. Arfei, sentindo um calor violento explodir dentro de mim. Ele era uma visão selvagem e perigosa, e nem parecia perceber o quanto isso o tornava ainda mais devastador.
Meu coração batia tão forte que chegava a doer no peito. E eu sabia, no fundo da minha alma, que ele faria do mundo um campo de batalha para trazer nossos filhos de volta, e que eu faria o mesmo ao lado dele.
Desviei o olhar, respirando fundo, enquanto minha atenção descia lentamente até a ferida no abdômen dele. A pele rasgada começava a se fechar, a regeneração lenta indicando que seu lobo estava despertando, mesmo que ainda fraco. Do lado de fora, a chuva castigava o mundo com fúria, as rajadas de vento rugindo ao redor da cabana como feras enlouquecidas. O silêncio se estendeu entre nós, pesado e incômodo, pressionando meu peito.
— Não acredito que estou dizendo isso... — Resmunguei, torcendo o nariz e cruzando os braços, tentando aliviar a tensão que me esmagava. — Mas seu silêncio está me irritando mais do que suas palavras brutas.
— Me conte tudo. — Sua ordem saiu seca, imponente e firme, o cenho franzido em uma expressão que não deixava espaço para questionamentos.
Suspirei, sentindo a garganta apertar. Ergui os olhos até encontrar os dele, alinhando nossos olhares em um desafio silencioso.
— Fui encontrada na beira do rio... — Comecei forçando minha voz a sair firme, mesmo com o estômago se revirando. — Quando despertei, soube que estive em coma durante meses. — Travei a mandíbula, mas continuei. — E então... me deram a notícia. — Arqueei uma sobrancelha, soltando uma risada seca ao recordar o choque. — Não era um bebê. Eram três. Trigêmeos.
Balancei a cabeça, ainda sem acreditar totalmente, mesmo depois de tudo. Cruzando os braços, tentando manter o sarcasmo vivo para mascarar o peso no peito.
— Sério... — Soltei com uma risada debochada. — Eu já sabia que você era problema. Imponente, arrogante, insuportável... — Me inclinei um pouco para a frente, estreitando os olhos. — Mas três filhos, Daimon? Sério?
O rosnado rouco que vibrou em seu peito me fez arrepiar dos pés à cabeça. A expressão dele se suavizou por um breve instante, e vi, quase como uma miragem, um sorriso singelo curvar a linha de sua boca brutal. Meu coração tropeçou no peito.

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