POV: AIRYS
Ele abriu lentamente a palma, revelando os cortes profundos. Suspirei, tocada pela ferida, mas ainda mais pelo que ela representava. Me inclinei sobre sua mão, selando os lábios contra o machucado, e então encostei meu rosto ali, absorvendo o cheiro quente e marcante de seu sangue. Havia algo adocicado nele. Algo estranho e viciante que provocou um novo arrepio em mim.
— Hunf... você é mesmo fascinante. — Ele murmurou, rouco, como se aquilo tivesse escapado sem controle.
Ergui o rosto, arqueando uma sobrancelha.
— Você acalma minha fera... e minha fúria. — completou ele, com sinceridade crua.
— É parte do meu charme, Alfa. — Respondi com provocação, deixando a voz mais baixa, mais envolvente. Um sorriso debochado se desenhou em meus lábios.
A linha da boca dele se ergueu levemente. Um meio sorriso torto, sedutor, perigoso.
— E então... — murmurei, mantendo os olhos cravados nos dele, — você o venceu na batalha?
— Gostaria de dizer que lembro de tudo... — A voz de Daimon saiu mais grave, arranhada, carregada de algo entre fúria e frustração. — Mas a verdade é que Fenrir assumiu o controle. Seu poder era esmagador. Sua sede de sangue, insaciável.
Ele rosnou baixo, e senti os músculos dele tensionarem sob minhas mãos. A vibração do som percorreu meu corpo inteiro, causando um arrepio quente que subiu pela minha espinha.
— Agarrei a cabeça de Raiker e o lancei contra o chão. — Sua respiração ficou mais pesada. — Antes do golpe final, ele conseguiu cravar as garras em meu rosto. Rasgou minha pele. Me fez recuar por um momento... mas depois disso, tudo ficou vermelho.
O silêncio tomou conta por alguns segundos. Sua mandíbula travada, os olhos fixos em um ponto qualquer, longe. Quase pude vê-lo revivendo aquela cena dentro da mente.
— Com o tempo, entendi que aquilo não era raiva minha... era a visão de Fenrir. — Ele voltou a me encarar. — Quando ele assume, tudo que vê é sangue, carne e guerra.
Engoli em seco. O modo como ele dizia aquilo... frio, direto, como se matar fosse apenas parte de um ciclo inevitável. Um reflexo.
— Não me parece algo agradável de se ver. — Comentei, no meu tom mais natural, mesmo sentindo o coração acelerar. Queria aliviar a tensão. — Qual a graça?
Um som estranho escapou dele. Uma mistura de ronronar e riso abafado. Somente alguém como Daimon conseguiria rir e rosnar ao mesmo tempo.
— Não é algo que me incomoda, pequena. — Ele declarou com firmeza. Frio. Contido. Instintivo.
— Porque até hoje você só soube enxergar o mundo de uma forma, Alfa. — Sorri de canto, sem desviar o olhar. — Mas vai ver muito mais... quando nossos filhos estiverem conosco.
Vi o impacto daquelas palavras nos olhos dele. Um brilho diferente. Quente. Verdadeiro.
Daimon se calou por alguns segundos. A tensão dos ombros cedeu levemente. Suas mãos se moveram até meu rosto, o polegar contornando meus lábios com um cuidado que contrastava com tudo que ele era. E aquilo... aquilo me fez estremecer.
— Você já me mostrou nuances belas desta vida. — Ele disse com firmeza, os olhos fixos nos meus. — E desejo ver muito mais... com a minha família.

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