POV: AIRYS
Um choro frágil.
Infantil.
Meu corpo travou no mesmo instante. Os olhos se arregalaram. Senti um arrepio violento subir pelas costas.
— É... — tentei falar, mas minha garganta secou.
Daimon apertou minha mão.
Respirei fundo. Um. Dois. Três segundos. E então levei a mão à maçaneta, girando-a devagar até ouvir o clique.
A porta rangeu quando empurrei.
Entrei.
A cena diante de mim fez meus joelhos quase cederem.
Minha mãe estava ali. Jovem. Com o rosto marcado pelo desespero e os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela me carregava no colo, envolta em um pano simples, me balançando com cuidado enquanto se escondia entre árvores densas e retorcidas. A respiração dela era ofegante. Os olhos, sempre atentos ao redor. Ela tremia.
— Shiu... por favor, filha... não chore... — sussurrava em um tom quebrado, quase inaudível, tentando controlar as próprias lágrimas enquanto as mãos me embalavam com urgência. — Mamãe está aqui, fique quietinha... ou eles vão nos encontrar...
Senti a garganta apertar. Um nó de angústia se formou em meu peito.
— Eles quem...? — perguntei em voz baixa, como se ainda pudesse mudar o que estava prestes a acontecer.
Daimon se aproximou lentamente por trás. Seu corpo se encostou ao meu, uma muralha de calor e força. Suas mãos pousaram em minha cintura, firmes. Ele não disse nada. Mas estava ali. Imóvel. Presente.
A pequena bebê parecia desolada, os olhos inchados, o corpinho imóvel, como se a alma tivesse cansado de lutar. Estávamos escondidos atrás de uma árvore, completamente camuflados pela sombra e pelo cheiro da terra molhada. Os uivos cortavam o ar, distantes, mas presentes, como uma ameaça à espreita. Rosnados surgiam entre ecos abafados, criando um silêncio que doía mais do que qualquer grito.
Meus olhos se voltaram para ela, minha mãe. O vestido branco estava rasgado, imundo, colado ao corpo ensanguentado. Cada pedaço do tecido grudava nos ferimentos, como se tentasse cobri-la de vergonha. Os cabelos dourados pareciam palha mergulhada na lama. Estavam embolados, pesados, caídos como ela. Os braços tremiam, os dedos mal conseguiam envolver a pequena nos braços. Quando olhei com mais atenção, engoli seco. Os pulsos dela estavam marcados, arroxeados, como se tivessem sido presos por uns dias... ou semanas.
— Ela era prisioneira. — Sussurrei, sentindo meu peito se comprimir como se algo dentro de mim estivesse prestes a quebrar. — Daimon... ela sofreu por mim.
Senti seu corpo atrás do meu, sólido, quente, feroz.
— Me perdoe, me perdoe... — Minha mãe repetia, desesperada, tentando conter os soluços, apertando a criança contra o peito. Seus dedos tatearam o chão freneticamente, até encontrarem algo. Uma ampola. A mesma que eu já tinha visto em sonhos — aquela substância prateada, espessa, que parecia viva dentro do vidro.
Arqueei as sobrancelhas, meu corpo inteiro ficou tenso. Ela não vai fazer isso...
— Eu sei que é ruim..., mas você precisa tomar isso, meu amor... — a voz dela se desfez em lágrimas.
A pequena tentou recuar, balbuciando fraco, mas minha mãe tapou seu nariz e sua boca, forçando a deglutição.
Meus olhos se arregalaram. Arfei. Cobri a boca com as duas mãos, engasgada de horror, o estômago revirando com tanta força que pensei que fosse vomitar. A bebê se debateu por segundos, até o corpo relaxar.

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