POV: AIRYS
Daimon me puxou com mais força, seus músculos tensionados, o maxilar travado, os olhos ardendo em fúria.
Ele me empurrou com brutalidade para frente e girou o corpo no mesmo instante, erguendo os braços para agarrar a fera que saltava contra nós. O impacto foi violento. O lobo cravou os dentes com força no antebraço de Daimon, e um grunhido grave escapou de sua garganta, não de dor, mas de fúria selvagem.
O som da carne sendo rasgada me fez estremecer.
Ele rosnou com brutalidade, girando o corpo com violência e chutando o lobo para longe. A criatura foi arremessada contra a parede com um estalo seco, e Daimon não parou nem para respirar. Pulou para fora da porta, batendo com força, selando-a atrás de nós.
O impacto ecoou como um trovão.
Pancadas começaram do lado de fora, desesperadas, furiosas, mas à nossa frente, o cenário mudou. Do chão, uma nova escada surgiu, emergindo como um convite sombrio para o andar acima. Escura. Estreita. A madeira rangia. O ar era mais frio.
Trocamos olhares. Meu coração martelava no peito.
Mordi os lábios, nervosa. A vergonha me queimava.
— Me desculpa... — sussurrei, a voz fraca. Me aproximei e olhei a ferida no braço dele, ainda sangrando. — Eu não devia ter gritado... não sei o que houve comigo.
— Era sua mãe. — ele respondeu firme, mas sem frieza. — Você queria protegê-la. Eu entendo. — Endireitou o corpo, como se a dor não o afetasse. — Mas você precisa se conter, Airys. Aqui, emoção é fraqueza. E fraqueza nos mata.
Assenti em silêncio, engolindo em seco. Minhas mãos tremiam levemente enquanto improvisava um curativo com um pedaço da minha roupa rasgada. Toquei a pele quente dele e senti os músculos ainda tensionados. Meu peito arfava, não só pelo medo..., mas pela proximidade. O cheiro dele, ferroso pelo sangue, misturado ao aroma selvagem, me deixava tonta.
Olhei para cima. Escuridão total. Não fazia ideia de onde estávamos ou para onde estávamos indo.
Subimos.
Degrau por degrau, os sons da porta atrás de nós sumiram, substituídos por um silêncio sufocante. Ou quase. Porque, do alto, os gritos começaram.
Não eram simples. Eram gritos de dor. Desespero. Como se alguém estivesse sendo despedaçado do outro lado.
Chegamos a uma nova porta. Diferente. Ela estava marcada com cortes profundos, como se unhas ou lâminas a tivessem atacado por séculos. O sangue escorria pelas rachaduras, impregnando o ambiente com um cheiro metálico forte e nauseante.
Eu estremeci. Meus dedos se fecharam em punhos. Os gritos não paravam.
Olhei para Daimon, hesitante. Meu corpo inteiro implorava para recuar, mas meus pés estavam colados ao chão.
Ele me encarou. Intenso. Imponente. E por mais que estivesse ferido, continuava parecendo invencível.
— Não deixe que seu medo a impeça de continuar, pequena. — disse ele, a voz firme como uma ordem. — Prossiga.
Engoli em seco. Arqueei as sobrancelhas e respirei fundo. Sentia o suor frio nas costas, o coração socando contra o peito, os joelhos prestes a ceder. Mas mesmo assim... avancei.
Porque se ele estava comigo, eu podia enfrentar o inferno.
Minhas mãos tremiam. O coração batia como um tambor ensandecido dentro do peito. Mesmo assim, girei a maçaneta enferrujada. O som do metal rangendo ecoou alto, como se o próprio lugar gritasse para não prosseguirmos.

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